A caixa-preta dos armamentos pesados: PM nega transparência sobre fuzis acautelados fora da corporação enquanto políticos são presos com arsenal de guerra

 A caixa-preta dos armamentos pesados: PM nega transparência sobre fuzis acautelados fora da corporação enquanto políticos são presos com arsenal de guerra

Onde estão e sob o controle de quem se encontram fuzis, carabinas e submetralhadoras que pertencem à Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ) — mas que não estão sendo usados no patrulhamento das ruas?

A população fluminense não tem o direito de saber.

Após denúncias de que dezenas de armas de guerra, de uso restrito da PM, estariam acauteladas para agentes fora da atividade-fim — incluindo policiais cedidos aos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário —, o TEMPO REAL acionou a Secretaria de Estado de Polícia Militar por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI).

O objetivo era básico e republicano: obter o quantitativo exato e os critérios de concessão desses armamentos de altíssimo poder de destruição fora dos batalhões.

A resposta da corporação, contudo, foi um sonoro “não” (protocolo OuvERJ nº 20260810729278). A PM alega que a divulgação de dados — mesmo que apresentados em tabelas anonimizadas, conforme solicitado — colocaria em risco a “segurança institucional e dos agentes públicos”.

Com o manto de artigos da legislação que tratam de sigilo e vida privada, a Polícia Militar impôs uma blindagem sobre o destino de seu acervo bélico.

A farra dos fuzis da PM na política

Enquanto o cidadão comum enfrenta a rotina de violência e a corporação alega “segurança institucional” para esconder a localização de suas armas, a realidade das ruas e das operações policiais expõe um cenário estarrecedor: armamentos pesados da PM acabam parando nas mãos de políticos e investigados por esquemas criminosos.

No início de julho, durante uma operação da Polícia Federal, um fuzil Colt M4 calibre 5,56 mm foi encontrado pela no carro do ex-prefeito de Belford Roxo e  candidato à Assembleia Legislativa Márcio Canella.

As investigações revelaram um trâmite surreal: a arma de guerra pertencia ao acervo da PM, fora retirada do quartel-general da corporação e estava acautelada em nome de um sargento responsável pela escolta de Canella — policial que estava lotado na Corregedoria do Detran/RJ, totalmente fora do patrulhamento ostensivo.

A cessão do fuzil da PM para a segurança privada/pessoal do político contou, inclusive, com a autorização formal da cúpula da corporação à época.

Canella não é o único. Deputados da Assembleia Legislativa desfilam com seguranças armados até os dentes — alguns, com armas de uso restrito.

Proteger a população ou abastecer gabinetes?

A  apreensão de fuzis acautelados pela PM sob a posse de terceiros ou em desvio de finalidade explicita o absurdo da resposta negativa fornecida pela secretaria via Lei de Acesso à Informação.

A recusa em prestar contas à sociedade sobre o acautelamento de fuzis fora da atividade operacional não protege a segurança do Estado; pelo contrário, esconde a banalização do uso de armas de guerra como regalia funcional ou escolta armada para a elite política e judiciária do estado.

Em vez de reforçar o patrulhamento em comunidades e vias expressas onde a população fluminense é diariamente vitimada pela violência, onde estão os fuzis do Estado?

Quantos fuzis comprados com o dinheiro do contribuinte estão hoje guardados em garagens de mansões, gabinetes ou veículos particulares de apadrinhados políticos?

COM FÁBIO MARTINS Tempo Real

Por Jornal da República em 26/09/2026
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