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Por Victor Travancas, PhD
Comecei minha trajetória como estagiário de Cesar Maia, em uma época em que o "Czar" da política carioca ditava os rumos do estado com uma engenharia que parecia infalível. Naquela época eu era Presidente do PFL Jovem, alçado ao cargo pelo promissor Eduardo Paes, que logo depois rompeu com o PFL. Eu fiquei com Cesar(…) e acompanhei no seu Gabinete os ultimos dias do seu isolamento frente a vitória do agora candidato a Governador.
Em 2008, no auge de seu terceiro mandato na prefeitura, Cesar Maia convenceu-se de que seu capital político era endossável a qualquer custo. Ignorando as principais lideranças de sua base e os alertas internos, lançou Solange Amaral (DEM) à sua sucessão.
A realidade das urnas e os dados da época foram implacáveis. As pesquisas Ibope e Datafolha, ao longo de todo o primeiro turno, apontavam que Solange não tinha tração popular. Enquanto Eduardo Paes se consolidava no topo, a candidata do prefeito patinava na lanterna dos grandes nomes.
O resultado oficial daquele primeiro turno de 2008 foi a certidão de óbito da hegemonia maísta:
Eduardo Paes: 31,98% (1.049.019 votos)
Fernando Gabeira: 25,61% (839.994 votos)
Solange Amaral: Humilhantes 3,92% (128.596 votos)
O erro de Cesar Maia não foi apenas perder; foi desidratar sua própria base.
Vendo o naufrágio iminente impresso nos relatórios de intenção de voto, as principais lideranças e o chamado "baixo clero" da política debandaram em massa. Migraram para o palanque de Eduardo Paes, que absorveu a máquina e venceu aquela eleição.
Dezoito anos depois, a história se repete como farsa. Altineu Côrtes assumiu o papel do Cesar Maia de outrora. Ao insistir em prender o PL à candidatura de Douglas Ruas ao governo do Estado, o cacique partidário demonstra o mesmo equívoco técnico.
O PL fluminense caminha para as eleições sob o eco de dados assustadores.
A pesquisa mais recente da *Genial/Quaest* para o governo do Rio desenha um cenário de terra arrasada para quem decide desafiar a lógica. Eduardo Paes lidera com folga extrema todos os cenários de primeiro e segundo turno.
No principal desenho de segundo turno trazido pela Quaest, o abismo fica explícito:
Eduardo Paes (PSD): 49%
Douglas Ruas (PL): 16%
Mesmo com Douglas Ruas alçado recentemente à presidência da Alerj em uma costura de gabinete, a musculatura eleitoral real nas ruas não acompanha o tamanho da máquina partidária.
Isolar o partido em uma postulação que não rompe a barreira do pragmatismo é abrir a avenida para que *Eduardo Paes liquide a fatura ainda no primeiro turno*.
A política fluminense é movida a instinto de sobrevivência. Quando deputados estaduais, federais e prefeitos do PL perceberem que a candidatura de Ruas serve apenas como escudo de sobrevivência de uma liderança partidária isolada, a debandada de 2008 se repetirá.
Ninguém afunda abraçado com o comandante se houver um bote salva-vidas no palanque vizinho.
Os Cientistas políticos exaustivamente alertam sobre o perigo de guiar exércitos baseando-se no desejo, e não no terreno.
Quando Altineu ignora a frieza dos 49% contra 16%, ele abandona a responsabilidade e abraça a vaidade.
O cientista político Giovanni Sartori lembra que os partidos políticos servem como canais de expressão — mas se transformam em seitas quando decidem ignorar o eleitorado real em nome de dinâmicas internas de poder.
O PL corre o risco de virar uma gigantesca legenda cartorial, rica em fundo partidário, mas falida em representação majoritária no Palácio Guanabara.
A lição que trago desses meus 26 anos de estrada é direta: a soberba é a véspera da ruína.
O Prefeito Cesar Maia pagou o preço e viu seu império desmoronar a partir do erro com Solange Amaral.
Se Altineu Côrtes mantiver a venda nos olhos e insistir no isolamento de Douglas Ruas contra a ciência das pesquisas, ele não estará apenas perdendo o governo; estará entregando a chave do estado, de bandeja e em primeiro turno, para Eduardo Paes. E o pior: sabendo exatamente o que iria acontecer.
*Victor Travancas é advogado. Mestre e Doutor em Direito Constitucional, atua há 26 anos na vida pública, tendo iniciado sua trajetória como estagiário de Cesar Maia. Ao longo da carreira, acompanhou de perto importantes processos eleitorais e decisões estratégicas da política fluminense.
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