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Na encosta de um morro na zona sul do Rio de Janeiro, um projeto criado inicialmente como alternativa para moradias populares acabou se transformando em um condomínio de alto padrão. Construído em 1978, o Parque Maria Cândida Pareto voltou aos holofotes recentemente após viralizar nas redes sociais por sua arquitetura incomum.
O empreendimento chama atenção tanto pelo visual quanto pelos valores praticados no mercado imobiliário. Algumas unidades à venda ultrapassam os R$ 2 milhões, cifra elevada mesmo para os padrões da região.
Localizado no Humaitá, área nobre do bairro de Botafogo, o condomínio foi projetado pelo arquiteto Sérgio Bernardes e desenvolvido pela construtora Goldfeld, que já encerrou suas atividades. Ao todo, são 60 casas de três quartos distribuídas em 11 níveis escalonados, funcionando como se fossem andares.
Arquitetura em níveis e integração com o relevo
Além das residências, o complexo conta com áreas comuns como estacionamento, salão de festas e quadra esportiva. Dois elevadores com funcionamento semelhante ao de bondinhos ajudam os moradores a se deslocarem entre os diferentes níveis do terreno.
As ruas internas seguem o desnível natural da encosta, criando uma dinâmica visual que diferencia o condomínio de construções tradicionais. Cercado por áreas verdes, o projeto se integra à paisagem e preserva a vista para pontos emblemáticos da cidade.
Embora hoje seja associado ao alto padrão, o conceito original de Sérgio Bernardes tinha outro objetivo. A ideia nasceu a partir de estudos do arquiteto para a remodelação de comunidades cariocas, especialmente favelas.
Origem do projeto está ligada a soluções para favelas
Segundo o urbanista Tomás Urgal, mestrando da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Bernardes defendia esse modelo como uma possível solução padrão para habitações em áreas de risco. Ainda nos anos 1960, o arquiteto propôs um projeto semelhante para a favela do Irajá.
A proposta previa casas pequenas, retangulares e com possibilidade de expansão ao longo do tempo, conceito que acabou sendo reaproveitado no Parque Maria Cândida Pareto. Apesar de ter sido apresentado ao poder público, o plano para as comunidades não avançou.
Elementos como o uso de tijolo aparente e a construção em encosta fazem com que, à primeira vista, o conjunto lembre uma favela. Essa estética, no entanto, contrasta com o perfil dos moradores e com os preços praticados atualmente.
De estética popular a metro quadrado valorizado
Para especialistas, a aparência pode causar estranhamento inicial, mas o condomínio reúne características valorizadas pelo mercado imobiliário: localização privilegiada, projeto assinado por um arquiteto renomado e integração com a natureza.
Hoje, anúncios imobiliários indicam unidades duplex e triplex com vista para o Cristo Redentor. Um dos imóveis disponíveis custa R$ 2,4 milhões, possui 182 metros quadrados de área construída, IPTU anual de R$ 4,8 mil e taxa condominial mensal de R$ 2,4 mil.
Segundo corretores, há até uma brincadeira entre moradores da zona sul que apelida o local de “faveluxo”. Apesar do visual externo lembrar uma comunidade, o condomínio abriga famílias de alto poder aquisitivo e oferece infraestrutura completa.
Legado de Sérgio Bernardes e valorização do projeto
Sérgio Bernardes teve atuação marcante na arquitetura brasileira, com projetos para a elite carioca, hotéis e obras de grande porte, como o Aeroporto de Brasília e o Pavilhão de São Cristóvão. Em 1985, chegou a disputar a prefeitura do Rio de Janeiro.
Morto em 2012, aos 84 anos, o arquiteto segue sendo reverenciado pela forma como seus projetos dialogam com a paisagem urbana e natural. Essa característica ajuda a explicar por que o Parque Maria Cândida Pareto voltou a despertar tanto interesse décadas após sua construção.
A arquiteta Beatrice Goldfeld, filha do empresário responsável pela incorporação do condomínio, afirma que a intenção sempre foi preservar o entorno. Segundo ela, o projeto buscou evitar impactos visuais excessivos na montanha e respeitar a natureza local.
Para a família, o reconhecimento atual do empreendimento nas redes sociais reforça o legado de boa arquitetura deixado por Bernardes. Um projeto pensado para resolver um problema urbano acabou se tornando um dos condomínios mais curiosos e valorizados da zona sul do Rio.
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