DJ Marlboro transforma criação artesanal dos anos 80 em obra definitiva do funk brasileiro

DJ Marlboro transforma criação artesanal dos anos 80 em obra definitiva do funk brasileiro

Criado antes da era digital, Marlboro Medley volta como manifesto histórico e prova que o funk sempre esteve destinado a conquistar o Brasil

Quando ainda não existiam softwares, inteligência artificial, plugins ou atalhos digitais, DJ Marlboro já fazia história. Em 1988, apenas com discos, sensibilidade musical e visão de futuro, ele criou Marlboro Medley, uma obra que atravessou décadas sem perder força e que hoje é reconhecida como um dos marcos fundadores da nacionalização do funk no Brasil.

Produzida de forma totalmente artesanal, a faixa nasceu como uma verdadeira colcha de retalhos sonoros, reunindo os maiores sucessos internacionais do funk da época. Mas Marlboro Medley foi além da pista de dança. A montagem simbolizou o encerramento de um ciclo dominado por referências estrangeiras e, ao mesmo tempo, o início consciente de um movimento genuinamente brasileiro.

Lançada oficialmente em Funk Brasil 01, em 1989, ainda na era do vinil, quando os discos eram divididos entre lado A e lado B, a faixa carrega uma decisão que revela muito sobre o caráter e a liderança de Marlboro. Mesmo sendo o criador e protagonista do projeto, ele escolheu não abrir o álbum com sua própria obra. Preferiu dar espaço aos outros artistas, fortalecendo o coletivo e colocando o movimento acima do ego.

Por isso, Marlboro Medley foi posicionada como a última faixa do lado B. Um encerramento simbólico que, longe de significar um fim, anunciava um novo começo. Um gesto raro de quem constrói o palco, mas entende que o sucesso só faz sentido quando é compartilhado.

Essa postura também gerou embates. A gravadora defendia o rótulo Funk Carioca, apoiada no sucesso do livro O Mundo Funk Carioca e na ideia de que o gênero ainda era regional. Marlboro discordou. Enfrentou o sistema, bancou sua visão e quase rompeu contratos para defender uma convicção simples e poderosa: o funk podia até nascer local, mas estava destinado a ser nacional.

O tempo confirmou essa aposta.

Hoje, o funk está presente em todos os estados do Brasil, movimenta a indústria cultural, gera renda, cria oportunidades e transforma trajetórias antes marcadas pela exclusão em histórias de identidade, orgulho e pertencimento. É essa caminhada que o novo videoclipe de Marlboro Medley se propõe a contar.

A narrativa começa de forma simbólica, dentro de um ônibus a caminho de um baile, com Marlboro segurando um malote de discos enquanto Hermano Vianna lhe ensina a programar uma bateria eletrônica. Um gesto simples, quase despretensioso, que acabaria se tornando revolucionário.

A partir daí, o clipe se constrói como uma narrativa não linear, espelhando a própria estrutura da música. As imagens atravessam os anos 80, 90 e 2000, acompanham a evolução dos bailes, dos sons, dos corpos, das ruas e dos palcos, até avançarem para um futuro imaginado, onde robôs humanoides, inteligências artificiais e shows em planetas distantes reforçam a ideia de que o funk não conhece limites, nem geográficos, nem temporais.

O vídeo também costura a trajetória dos álbuns Funk Brasil 01 ao 09, culminando na revelação simbólica da capa de Funk Brasil X, previsto para 2029. O projeto final reunirá artistas de todos os estados do país, com pelo menos dois representantes por estado, fechando um ciclo iniciado décadas atrás. Não como despedida, mas como missão cumprida.

O projeto Funk Brasil nasceu com um objetivo claro: nacionalizar o funk.
Cumpriu essa missão.
Transformou vidas.
Criou um movimento.
Mudou a história da música brasileira.

Agora, Marlboro Medley retorna não como exercício de nostalgia, mas como afirmação cultural. O passado está eternizado, o presente está atualizado e o futuro já está em construção.

É música.
É manifesto.
É memória.
É profecia.

E, como toda grande obra, não pertence apenas a uma época. Pertence à história.

Por Jornal da República em 05/01/2026
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