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Criado antes da era digital, Marlboro Medley volta como manifesto histórico e prova que o funk sempre esteve destinado a conquistar o Brasil
Quando ainda não existiam softwares, inteligência artificial, plugins ou atalhos digitais, DJ Marlboro já fazia história. Em 1988, apenas com discos, sensibilidade musical e visão de futuro, ele criou Marlboro Medley, uma obra que atravessou décadas sem perder força e que hoje é reconhecida como um dos marcos fundadores da nacionalização do funk no Brasil.
Produzida de forma totalmente artesanal, a faixa nasceu como uma verdadeira colcha de retalhos sonoros, reunindo os maiores sucessos internacionais do funk da época. Mas Marlboro Medley foi além da pista de dança. A montagem simbolizou o encerramento de um ciclo dominado por referências estrangeiras e, ao mesmo tempo, o início consciente de um movimento genuinamente brasileiro.
Lançada oficialmente em Funk Brasil 01, em 1989, ainda na era do vinil, quando os discos eram divididos entre lado A e lado B, a faixa carrega uma decisão que revela muito sobre o caráter e a liderança de Marlboro. Mesmo sendo o criador e protagonista do projeto, ele escolheu não abrir o álbum com sua própria obra. Preferiu dar espaço aos outros artistas, fortalecendo o coletivo e colocando o movimento acima do ego.
Por isso, Marlboro Medley foi posicionada como a última faixa do lado B. Um encerramento simbólico que, longe de significar um fim, anunciava um novo começo. Um gesto raro de quem constrói o palco, mas entende que o sucesso só faz sentido quando é compartilhado.
Essa postura também gerou embates. A gravadora defendia o rótulo Funk Carioca, apoiada no sucesso do livro O Mundo Funk Carioca e na ideia de que o gênero ainda era regional. Marlboro discordou. Enfrentou o sistema, bancou sua visão e quase rompeu contratos para defender uma convicção simples e poderosa: o funk podia até nascer local, mas estava destinado a ser nacional.
O tempo confirmou essa aposta.
Hoje, o funk está presente em todos os estados do Brasil, movimenta a indústria cultural, gera renda, cria oportunidades e transforma trajetórias antes marcadas pela exclusão em histórias de identidade, orgulho e pertencimento. É essa caminhada que o novo videoclipe de Marlboro Medley se propõe a contar.
A narrativa começa de forma simbólica, dentro de um ônibus a caminho de um baile, com Marlboro segurando um malote de discos enquanto Hermano Vianna lhe ensina a programar uma bateria eletrônica. Um gesto simples, quase despretensioso, que acabaria se tornando revolucionário.
A partir daí, o clipe se constrói como uma narrativa não linear, espelhando a própria estrutura da música. As imagens atravessam os anos 80, 90 e 2000, acompanham a evolução dos bailes, dos sons, dos corpos, das ruas e dos palcos, até avançarem para um futuro imaginado, onde robôs humanoides, inteligências artificiais e shows em planetas distantes reforçam a ideia de que o funk não conhece limites, nem geográficos, nem temporais.
O vídeo também costura a trajetória dos álbuns Funk Brasil 01 ao 09, culminando na revelação simbólica da capa de Funk Brasil X, previsto para 2029. O projeto final reunirá artistas de todos os estados do país, com pelo menos dois representantes por estado, fechando um ciclo iniciado décadas atrás. Não como despedida, mas como missão cumprida.
O projeto Funk Brasil nasceu com um objetivo claro: nacionalizar o funk.
Cumpriu essa missão.
Transformou vidas.
Criou um movimento.
Mudou a história da música brasileira.
Agora, Marlboro Medley retorna não como exercício de nostalgia, mas como afirmação cultural. O passado está eternizado, o presente está atualizado e o futuro já está em construção.
É música.
É manifesto.
É memória.
É profecia.
E, como toda grande obra, não pertence apenas a uma época. Pertence à história.
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