Lula e Otoni: a aliança improvável que irrita a direita (e da ala radical da esquerda também)

Vaiado pela ala radical da esquerda, atacado pela direita: a vida nada fácil de Otoni De Paula

Presidente grava vídeo encorajando o pastor a "continuar falando a verdade" — e transforma um ex-aliado de Bolsonaro no novo queridinho do Planalto. O resultado? Ciúme na esquerda, fúria na direita e um ditado popular que nunca fez tanto sentido.

A cena que viralizou

Se você ainda não viu, senta que lá vem história. O presidente Lula, olhou para o deputado federal e pastor Otoni De Paula (PSD-RJ) e mandou um recado digno de conselheiro de plantão: "Continue falando a verdade, porque a verdade é a palavra de Deus". Em menos de um minuto, o presidente transformou um ex-bolsonarista em símbolo da tal "ponte" entre o eleitorado evangélico e o governo.

E o Otoni, claro, respondeu na hora, com a humildade: "Muito obrigado, presidente. Muito obrigado, de verdade." Se aquilo fosse um programa de auditório, era a hora do abraço apertado.

O vídeo, que já roda solto nas redes sociais, tem cara de campanha eleitoral — e olha que ninguém aqui está fazendo piada com isso. Porque, convenhamos, em ano de eleição, até o "amém" vira estratégia política.

O preço de mudar de lado

Agora, respira, porque a história do Otoni é daquelas de virar filme. Ele foi vereador, trabalhou pela candidatura de Jair Bolsonaro antes mesmo de 2018 e virou um dos nomes mais próximos da bancada evangélica durante o governo do ex-presidente. Era o "mito" na ponta da língua, chegou a convocar tanques para guerra civil contra o STF..

Mas aí veio a reviravolta. O próprio Otoni admitiu, em entrevista à VEJA, que se arrepende de ter gritado "mito" — e acusou políticos do antigo campo de "mentir e seguir pautas delirantes". Ditado popular que cabe como uma luva: "quem com ferro fere, com ferro será ferido". E o ferro, no caso, veio em forma de ataques coordenados de bolsonaristas.

A distância do bolsonarismo foi ficando pública e explícita: em outubro de 2024, elogiou Lula e pediu "aproximação sem reservas"; em dezembro de 2025, fez uma oração pelo presidente no Planalto; em julho de 2026, declarou que não votará em Flávio Bolsonaro e defendeu o movimento "Direita com Lula".

O ciúme que virou vaia

Mas eis que o enredo ganha um capítulo inesperado: a ala radical do PT e do PSOL também está de olho torto. Sim, você leu certo. O mesmo Otoni que sempre defendeu a direita agora virou alvo da ala radical de esquerda, que não esconde o ciúme da aproximação dele — e de Pedro Paulo — com Lula, afinal quase nenhum deputado de esquerda conseguiu uma gravação com elogio torrencial do presidente da República como Otoni que é assumido de Direita conseguiu.

O ápice foi a vaia no ato cultural da Fundição Progresso. Imagina a cena: o cara que era xingado pela direita agora é vaiado pela esquerda. Se isso não é o retrato da polarização brasileira, eu não sei o que é. Como diria o outro ditado: "não se pode agradar a gregos e troianos" — e o Otoni está descobrindo isso na prática, no meio do palco.

Renan Jordy: o bolsonarista radical que não perdoa

E é aqui que o enredo ganha um personagem que não está nem aí para o "amém". O deputado Renan Jordy, bolsonarista radical, já foi para as redes e subiu às tribunas várias vezes para criticar Otoni De Paula. Não é ataque de passagem, não: é campanha constante, com discurso afiado e tom de quem não aceita a virada de rota.

Enquanto Otoni tenta se apresentar como o símbolo de uma "direita não bolsonarista", Jordy faz questão de lembrar, em cada tribuna, de onde o colega veio. O recado, nas entrelinhas, é sempre o mesmo: "você era um dos nossos e agora virou o queridinho do Planalto". E, convenhamos, em política, não há traição que doa mais do que a de quem conhecia o mapa da mina.

Pressão em todas as frentes

Se você acha que acabou, sinto informar que não. O deputado enfrenta desgastes de todo tipo. O portal CartaCapital o listou entre os "vira-casacas" das eleições, ao lado de outros ex-bolsonaristas que migraram para o campo lulista. No plano judicial, o STF recebeu uma denúncia contra ele por difamação, em julho de 2026, caso que segue em tramitação.

E, para completar o pacote de coragem, Otoni não poupa nem o próprio campo governista quando acha necessário: chamou o Rio de Janeiro de "narcoestado" em entrevista à BBC e cobrou publicamente Bolsonaro por não defender Michelle Bolsonaro ("parece morto", disparou o deputado).

O que Lula parece endossar

É exatamente essa combinação — críticas ao bolsonarismo sem adesão automática à agenda do governo — que Lula parece querer abraçar na gravação. O presidente destacou a "coragem de falar a verdade" num país em que o parlamentar acumula adversários dos dois lados da polarização. Ou seja: o Planalto encontrou no Otoni um trunfo para fisgar o eleitorado evangélico, e o Otoni encontrou no Lula um palco para sustentar o projeto de uma "direita não bolsonarista".

Para onde isso vai

O cenário presidencial de 2026 aponta, segundo agregadores de pesquisa, para um segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro — exatamente o confronto que Otoni vem usando como palco. Ele disputa a reeleição pelo PSD-RJ com o número 5550, depois de ter sido reeleito em 2022 com 158.495 votos.

O vídeo, nesse contexto, tem leitura dupla: é um gesto de reconhecimento público de Lula a um aliado sob fogo cerrado e, ao mesmo tempo, uma peça de campanha que reforça a tese de que dá para ser de direita, conservador e evangélico sem ser bolsonarista. Se isso vai dar certo, só o tempo — e as urnas — dirão. Mas uma coisa é certa: o Otoni não está passando despercebido.

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Por Jornal da República em 26/09/2026
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