O homem que quer acabar com o Senado: Clemente Sebastião larga pré-candidatura com proposta radical e biografia que atravessa 50 anos de Congresso

Ex-servente, analista legislativo aposentado e voz católica, o pré-candidato do Democratas 35 aposta na experiência de quem conhece 'onde a máquina trava e onde o dinheiro é desperdiçado'

RIO DE JANEIRO — Aos 78 anos, prestes a completar 79 em outubro, Clemente Sebastião poderia estar desfrutando da aposentadoria em Icaraí, Niterói, bairro que o acolheu depois de uma vida dedicada ao serviço público.

Em vez disso, lançou-se como pré-candidato ao Senado pelo Democratas 35 com uma proposta que promete sacudir o establishment político: a extinção da própria Casa que ele conhece como poucos.

"Sou um homem honrado, viúvo há dois anos, casado por 51 anos com a mesma mulher, pai de duas filhas, avô de três netos. "Não sou movido pela vaidade, mas pelo desejo verdadeiramente de servir ao meu estado", declarou em entrevista ao Jornal da República, direto da sede do Democratas no centro do Rio de Janeiro.

Do chão de fábrica ao topo da carreira legislativa.

A trajetória de Clemente Sebastião é incomum em um meio onde a maioria dos postulantes ao cargo de senador nunca sequer pisou nos corredores do Congresso antes de concorrer. Sua história com o Senado Federal começou nos anos 1970, da forma mais humilde possível: como servente.

Nascido no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais — uma das regiões mais pobres do país, com IDH de 0,648 segundo dados do PNUD, Clemente foi criado em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio, cidade com mais de um milhão de habitantes e desafios históricos de infraestrutura. Foi lá que construiu a base que o levaria a Brasília.

Dentro do Senado, percorreu todos os degraus da carreira: de servente a analista legislativo de mais alto grau, cargo que exige domínio de processo legislativo, técnica jurídica e regimento interno.

Aposentou-se após anos de serviço, mas levou da Casa um conhecimento que poucos candidatos ao cargo podem reivindicar. "Hoje nós temos mais de uma dúzia de candidatos ao Senado, mas nenhum deles conhece aquela casa por dentro como eu conheço." Estudei processo legislativo. "Sei como tramitam as leis e os projetos", afirmou.

"Não tenho rabo preso": a aposta ficha limpa.

Em um ano eleitoral em que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) distribuirá quase R$ 5 bilhões do Fundo Eleitoral entre 30 partidos, e a desconfiança do eleitor em relação à classe política atinge patamares críticos, Clemente aposta no que chama de honradez como diferencial.

Pesquisa Datafolha de maio de 2026 indicou que 67% dos eleitores brasileiros acreditam que a maioria dos políticos promete e não cumpre — índice que sobe nas regiões metropolitanas mais pobres.

OS Democratas 35, legenda de centro a centro-direita presidida nacionalmente por Suêd Haidar Nogueira, aposta em candidatos com perfil técnico e sem histórico de condenações para furar a bolha da polarização entre PT e PL.

Ele mesmo admite que sua candidatura nasceu de um chamado que transcende a ambição pessoal. "Com 78 anos, não sou movido mais pela vaidade, mas pelo desejo de servir. Como cristão católico, entendo que a política só tem sentido se for para servir."

A proposta radical: sistema unicameral para o Brasil.

A bandeira mais ousada de Clemente é também a que mais gera debate: a integração do Senado Federal à Câmara dos Deputados, transformando o Brasil em um sistema unicameral. Para ele, a estrutura atual — que custa aos cofres públicos mais de R$ 6,5 bilhões por ano apenas com o orçamento do Legislativo federal — é cara, lenta e duplicada.

O Senado Federal possui hoje 81 senadores, com mandatos de oito anos e salário bruto de R$ 44 mil mensais, além de gabinetes, assessorias, verbas indenizatórias e benefícios que elevam o custo individual para mais de R$ 1,5 milhão por ano por parlamentar.

Em um cenário de orçamento federal total de R$ 6,54 trilhões para 2026 — sancionado pelo presidente Lula em janeiro — a proposta de fusão das Casas legislativas representa uma economia potencial estimada em bilhões.

"Sou alguém que serviu ao Estado e sabe como reformá-lo", disse em entrevista ao portal Boletim RJ. "Conheço onde a máquina trava e onde o dinheiro é desperdiçado."

A proposta encontra eco em parte da literatura política contemporânea: países como Nova Zelândia, Dinamarca, Suécia e Portugal operam com parlamentos unicamerais, com argumentos que vão desde a redução de custos até a agilidade no processo legislativo.

No Brasil, a discussão não é nova, mas nunca saiu do papel — justamente porque dependeria de uma maioria qualificada no próprio Congresso para ser aprovada.

2002: a quase vitória que deixou lições.

Esta não é a primeira vez que Clemente Sebastião disputa uma eleição.

Em 2002, candidatou-se a deputado federal pelo PHS (Partido Humanista da Solidariedade) e obteve votação expressiva, ficando de fora apenas por causa do quociente eleitoral — mecanismo que exige que o partido atinja um número mínimo de votos para eleger seus candidatos.

A experiência de 23 anos atrás moldou sua visão sobre o sistema político. O fracasso não o afastou da política; ao contrário, aprofundou sua convicção de que o modelo eleitoral brasileiro precisa de reformas estruturais.

Agora, com o apoio do Democratas e uma estratégia que mescla valores cristãos, competência técnica e discurso de renovação, ele aposta que a terceira idade pode ser um trunfo, não um obstáculo.

"A política não é para aventureiros. "É para quem tem história, caráter e compromisso com o próximo", afirmou.

O cenário da disputa: mais de 12 candidatos, uma vaga de dois terços.

O Rio de Janeiro elegerá em outubro dois senadores para mandatos de oito anos, conforme o sistema de rodízio que renova dois terços das 81 cadeiras do Senado a cada eleição geral. A disputa promete ser uma das mais acirradas do país, com mais de uma dezena de pré-candidatos já confirmados.

Entre os nomes que circulam estão figuras de peso como o ex-governador e atual presidente da Alerj, Douglas Ruas (PL), a ex-senadora Benedita da Silva (PT), o deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL), e Rogéria Bolsonaro (PL), que teve o nome cogitado pelo Partido Liberal.

Nesse oceano de caciques, Clemente oferece o que chama de alternativa ética — um candidato independente de grupos econômicos e sem alianças com o que classifica como "parcerias escusas".

"Não tenho rabo preso com grupos de poder. "Minha única aliança é com meus valores cristãos e com o povo do Rio de Janeiro", declarou, em tom que evoca a insatisfação do eleitor com a política tradicional.

A voz católica em um estado de maioria cristã

O posicionamento religioso de Clemente não é acessório — é central em sua identidade política.

Católico praticante, ele preenche uma lacuna de representatividade que setores mais tradicionais da Igreja sentem no estado. Segundo o Datafolha, 51% dos brasileiros se declaram católicos, e no Rio de Janeiro esse percentual é historicamente superior à média nacional.

Sua biografia pessoal reforça o discurso de solidez: 51 anos de casamento, viuvez recente, duas filhas formadas, três netos.

A vida familiar é apresentada como extensão natural dos valores que defende para a gestão pública. "Ofereço a minha honradez", repetiu na entrevista, como quem sabe que, em tempos de descrédito institucional, a biografia pode ser o último ativo político que resta.

Sobre Clemente Sebastião

Clemente Sebastião é natural do Vale do Jequitinhonha (MG) e foi criado em São Gonçalo (RJ). Aos 78 anos, é pré-candidato ao Senado pelo Democratas 35. Sua trajetória profissional é marcada por uma ascensão incomum: começou a carreira no Senado Federal como servente na década de 1970 e, por mérito e estudo, tornou-se analista legislativo da Casa, onde trabalhou até se aposentar.

Católico, viúvo, pai de duas filhas e avô de três netos, reside em Icaraí, Niterói. Em 2002, candidatou-se a deputado federal pelo PHS com votação expressiva, não se elegendo por conta do quociente partidário.

Sua pré-candidatura em 2026 propõe pauta de austeridade, valores cristãos e a extinção do Senado como instituição, defendendo a adoção do sistema unicameral no Brasil.

Por Robson Talber @robsontalber

Repórter Antonio Lemos @djportugues

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Por Jornal da República em 14/06/2026
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