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Quarto maior PIB do Brasil e recordista em receitas bilionárias, Maricá abriga mais da metade da população no Cadastro Único de baixa renda e expõe gargalos históricos no saneamento
O eldorado dos bilhões que não apaga a vulnerabilidade
O horizonte de Maricá, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, reflete um dos fenômenos econômicos mais impressionantes e contraditórios da história recente do país. Em pouco mais de duas décadas, o antigo município de veraneio e pesca transformou-se no epicentro nacional dos recursos do pré-sal. No entanto, por trás das cifras astronômicas que rivalizam com as maiores capitais da federação, ergue-se uma realidade social desconcertante: a riqueza acumulada nos cofres públicos não tem sido suficiente para libertar a maioria de seus cidadãos da dependência direta da assistência governamental.
Os números oficiais comprovam a magnitude da explosão financeira local. Segundo dados consolidados pelo IBGE, o Produto Interno Bruto de Maricá alcançou o patamar expressivo de R$ 134,1 bilhões, garantindo o quarto lugar geral no ranking econômico do Brasil — atrás unicamente de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Ao ultrapassar metrópoles industriais e de serviços como Belo Horizonte, Curitiba e Manaus, a cidade ostenta um PIB per capita estatístico de R$ 679.714,48, a terceira maior média por habitante em território nacional, um salto colossal para quem ocupava a tímida 354ª colocação nacional no ano de 2002.
Essa escalada vertiginosa atraiu um contingente expressivo de novos moradores em busca de oportunidades. O Censo Demográfico registrou 197.277 habitantes em 2022, enquanto as projeções oficiais do IBGE para 2026 elevam esse contingente para 212.703 pessoas, consolidando Maricá como o município de maior ritmo de expansão demográfica em todo o estado do Rio de Janeiro. Contudo, a velocidade do crescimento populacional acentuou descompassos estruturais que a contabilidade do petróleo não consegue mascarar.
A engrenagem orçamentária movida ao ouro negro
A saúde financeira da administração municipal impressiona até mesmo os analistas mais experientes das contas públicas brasileiras. No exercício de 2025, a receita total realizada do município superou os R$ 7,55 bilhões, com despesas empenhadas que somaram R$ 6,74 bilhões. Esse montante financeiro se traduz em uma receita per capita de aproximadamente R$ 35,5 mil por morador a cada ano, patamar orçamentário consideravelmente superior ao da esmagadora maioria dos municípios brasileiros e das capitais mais desenvolvidas.
O motor absoluto dessa abundância reside na extração marítima de hidrocarbonetos. Maricá figura como a líder isolada na partilha de participações governamentais da bacia petrolífera nacional. Somente em 2024, a cidade captou R$ 2,7 bilhões em royalties, valor que escalou para impressionantes R$ 4,236 bilhões em 2025. O ingresso direto desses recursos representou 63% de toda a arrecadação municipal no último exercício, resultando em uma cota de royalties per capita em torno de R$ 19,9 mil anuais por cidadão.
A dependência extrema das rendas transitórias do subsolo liga o sinal de alerta entre os especialistas em macroeconomia regional. Atualmente, as transferências correntes respondem por cerca de 82% de todas as receitas auferidas pelo poder executivo de Maricá. Ciente da volatilidade das cotações internacionais do barril e da exaustão natural das jazidas, o município instituiu, em 2018, o primeiro fundo soberano de caráter municipal do país, acumulando R$ 2,6 bilhões em 2024 através da retenção disciplinada de 15% das verbas oriundas da exploração mineral.
O muro social: 57% da cidade sob a linha da assistência
Apesar da opulência dos balanços orçamentários, o cotidiano da maioria absoluta das famílias revela um abismo de vulnerabilidade social. Registros oficiais fornecidos pela própria prefeitura e alinhados às diretrizes federais apontam que 56.054 famílias — somando 121.618 pessoas — encontram-se inscritas no Cadastro Único (CadÚnico). O dado reflete uma constatação severa: aproximadamente 57% de todos os habitantes do município residem em lares formalmente classificados em faixas de pobreza e baixa renda, necessitados de suporte estatal contínuo para garantir a subsistência básica.
A rede de proteção local tem como pilar a Renda Básica de Cidadania, viabilizada por meio da moeda social Mumbuca. Concebido originalmente como ferramenta de combate à miséria extrema e incentivo ao comércio de bairro, o programa atendia cerca de 42 mil beneficiários diretos transferindo 200 mumbucas mensais. Após sucessivas expansões que incorporaram mais de 50 mil novos participantes, o benefício passou a contemplar aproximadamente 93 mil moradores, transformando o auxílio governamental na principal — e por vezes única — âncora de segurança alimentar em dezenas de comunidades.
A persistência desse quadro evidencia o caráter paradoxal da distribuição da riqueza no território fluminense. Enquanto o mercado de trabalho formal absorve parte da mão de obra oferecendo remuneração média de 2,5 salários mínimos, uma parcela expressiva da população permanece à margem do setor produtivo estruturado. Historicamente, 33,8% dos moradores conviviam com renda per capita de até meio salário mínimo, e a perpetuação dos programas emergenciais demonstra que a injeção monetária direta alivia a escassez diária, mas ainda enfrenta barreiras para promover emancipação econômica definitiva.
O atraso das ruas: a infraestrutura que os bilhões não construíram
O contraste entre a vanguarda orçamentária e a realidade urbana ganha contornos dramáticos no diagnóstico da infraestrutura sanitária. Levantamentos oficiais do IBGE expõem que apenas 33,73% das residências do município possuem esgotamento sanitário adequado, relegando a cidade bilionária ao modesto 85º lugar entre os 92 municípios do estado do Rio de Janeiro. Em vastos setores urbanos periféricos, valões a céu aberto cortam núcleos habitacionais populosos sem qualquer tipo de tratamento de efluentes.
O déficit se repete de forma contundente nas condições físicas das vias públicas. O IBGE aponta que somente 8,1% dos domicílios urbanos de Maricá contam com urbanização considerada satisfatória — parâmetro técnico que engloba a presença conjunta de bueiros pluviais, calçadas acessíveis, pavimentação asfáltica e guias de meio-fio. Esse índice rebaixa a localidade à 89ª posição estadual, evidenciando que os bairros afastados do centro administrativo continuam reféns da poeira em períodos de seca e do isolamento por alagamentos nas épocas de temporais.
Esse déficit habitacional e ambiental repercute diretamente na saúde pública dos munícipes mais jovens. Os indicadores de mortalidade infantil atingiram a taxa de 14,57 óbitos para cada mil nascidos vivos em 2025, um número que destoa dos recursos milionários aplicados nas unidades de saúde locais e que mantém Maricá distante dos padrões verificados em cidades que possuem rendas per capita semelhantes ou até menores no restante do país.
O abismo entre a abundância financeira e a dignidade humana
As contradições de Maricá não representam um caso isolado, mas espelham um padrão crônico já identificado por especialistas em gestão pública. Um estudo abrangente conduzido pela organização Agenda Pública e divulgado pela Agência Brasil constatou que 12 das 50 cidades brasileiras que mais auferem royalties petrolíferos mantêm padrões de bem-estar inferiores à média do país. Nenhuma das prefeituras campeãs na arrecadação de partilhas conseguiu atingir, até o momento, a faixa de alta condição socioeconômica nos parâmetros internacionais de avaliação.
Na classificação específica do Índice de Condições de Vida, Maricá ocupou um discreto 11º lugar entre as 15 principais municipalidades petrolíferas avaliadas. O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal registrado no patamar de 0,765 reforça que, embora o produto econômico per capita atinja níveis de países nórdicos na contabilidade geral, a realidade palpável usufruída pelo cidadão comum nas esquinas e bairros periféricos permanece amarrada a padrões médios do desenvolvimento nacional.
A trajetória de Maricá impõe uma indagação urgente sobre a eficiência das políticas públicas no Brasil. Se os recursos bilionários advindos das profundezas do oceano conseguiram erguer um dos maiores cofres públicos da federação, a incapacidade de reverter essa montanha de dividendos em drenagem, água tratada, saneamento universalizado e formação produtiva que reduza a dependência do CadÚnico coloca a cidade diante de um espelho incômodo: a verdadeira riqueza de um povo não se mede pelos dígitos arrecadados em seus balanços fiscais, mas pela capacidade de transformar a bonança temporária da terra em liberdade social duradoura e qualidade de vida real.

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