O que está por trás do assassinato de líder da milícia do Rio

Envolvidos em uma sangrenta guerra interna no grupo paramilitar estariam articulando um acordo de paz, desfeito com mais um ataque

O que está por trás do assassinato de líder da milícia do Rio

Uma articulação frustrada por acordo de paz em meio a uma sangrenta disputa interna pelo controle da maior milícia do Rio que se arrasta há mais de quatro anos está por trás do assassinato cinematográfico de um dos líderes do grupo paramilitar.

Uma ação gravada por câmeras de segurança registrou a execução de Cristiano Lima de Oliveira, o Jiraya, morto a tiros de fuzil há uma semana em uma emboscada que contou com a participação de cerca de 20 criminosos encapuzados a bordo de quatro carros em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Fontes ouvidas pela Agenda do Poder detalham os bastidores que ajudam a desvendar a motivação do crime.

Jiraya foi morto a tiros de fuzil em uma emboscada gravada por câmera de segurança em Nova Iguaçu | Crédito: Redes sociais

A milícia se dividiu em dois núcleos nos últimos anos. O reduto da organização criminosa na Zona Oeste do Rio, berço da milícia, é chefiado por Paulo David Guimarães Ferraz Silva, conhecido como Naval devido ao seu passado militar. Na Baixada, a quadrilha é coordenada por Gilson Inácio de Souza Júnior, o Juninho Varão.

Uma das principais linhas de investigação da Polícia Civil indica que Jiraya teria sido morto a mando de Juninho Varão, até então apontado como seu aliado. Ainda que fosse um dos principais articuladores do acordo de paz, o assassinato teria sido uma imposição de Naval ao grupo da Baixada para garantir o “cessar fogo”. É que Jiraya era apontado como traidor na Zona Oeste do Rio por ter deixado esse núcleo para se associar a Juninho Varão.

Mas o acordo acabou sendo frustrado devido a algum desentendimento entre os dois grupos, causando mais derramamento de sangue. Na madrugada deste sábado (18), ao menos três veículos foram atingidos por uma série de tiros em um novo ataque em Manguariba, Paciência, na Zona Oeste.

Imagens que circulam nas redes sociais mostram o momento do ataque, com intensa sequência de tiros. A ação deixou ao menos um homem morto. Uma das linhas de investigação da Polícia Civil indica que o atentado foi organizado a mando de Juninho Varão, em mais uma tentativa de tomar o controle da milícia.

Como Jiraya ‘traiu’ o núcleo da Zona Oeste

Inicialmente, Jiraya era ligado ao Comando Vermelho (CV). Mas acabou se aliando à milícia para invadir Antares, em Santa Cruz, na Zona Oeste. Após a tomada do território, passou a chefiar o grupo paramilitar na região. Mas foi preso em flagrante por porte ilegal de arma em maio de 2020 em Paciência, um dos redutos da milícia na Zona Oeste do Rio. Na ocasião, usou a própria filha como escudo humano, segundo a Polícia Civil.

“Ele [Jiraya] estava na sala e correu para o interior da residência, diretamente para o quarto da filha com meses de idade e a agarrou. A companheira dele também se agarrou neles. Ele não queria se entregar. Mesmo abraçado com a filha, resistiu à voz de prisão e teve que ser contido”, disse na época o delegado Felipe Curi, hoje secretário da Polícia Civil.

Um ano depois da prisão de Jiraya, Wellington da Silva Braga, o Ecko, líder da milícia, morreu em uma ação policial em junho de 2021. Isso abalou a estrutura do grupo, dando início a uma dissidência.

Quando foi solto ao ganhar liberdade condicional, em novembro de 2025, Jiraya já havia perdido poder na Zona Oeste. E, por isso, teria se aliado a Juninho Varão na guerra interna da milícia contra Naval.

Como a guerra interna começou

Ecko havia herdado o poder após o assassinato do seu irmão Carlos da Silva Braga, o Carlinhos Três Pontes, baleado em uma ação policial em abril de 2017 e até então o líder da milícia. Três Pontes “inaugurou” um novo momento na milícia. Ele assumiu a posição do ex-PM Toni Ângelo, preso em julho de 2013 ao ser atingido por um tiro em uma boate em Campo Grande. A chegada de Três Pontes ao poder marcou o início de uma nova era da então chamada Liga da Justiça, que deixava de ser dominada por ex-policiais.

Ecko coordenou uma expansão para a Baixada Fluminense. Mas a sua morte há pouco mais de quatro anos fez com que os responsáveis por chefiar as ações nos municípios vizinhos se articulassem para dar uma espécie de “golpe de Estado”.

A transcrição de áudios obtidos pela reportagem mostram a reação de milicianos com a tentativa de invasão ao território de Ecko, reduto da milícia. “Pica, mano. Invadiram Manguariba [reduto de Ecko em Paciência]. Maluco da outra milícia invadiu. Colocaram mais de 30 carros, filho. Tudo de bico [gíria para se referir a armas de grosso calibre]”, disse um homem.

Investigações indicam que o grupo da Baixada viu uma chance para assumir o controle da organização criminosa. “Com a morte do Ecko, o ponto de equilíbrio acabou, dando início a uma disputa interna”, disse Elisa Ramos Pittaro Neves, promotora de Justiça do Rio.

Apontado como chefe da milícia, Zinho está preso desde dezembro de 2023 / Crédito: Reprodução

Como Zinho impediu ‘golpe de Estado’

Mas a investida não deu certo ao encontrar resistência de Luiz Antônio da Silva Braga, o Zinho. O irmão mais novo de Carlinhos Três Pontes e Ecko articulou uma até então improvável aliança com o Comando Vermelho (CV) para se manter no poder e dar continuidade ao império construído pelo Clã Braga.

Surgiu, assim, o chamado Bonde do Zinho, nome que identifica o grupo até hoje.

Especialistas entendem que o cenário de disputa interna faz parte da própria história das milícias. “As milícias sempre tiveram conflitos internos, com mortes e represálias em meio a disputas por poder. Mas ela também sempre soube se adaptar às mudanças ao longo dos anos”, diz Ignácio Cano, sociólogo e especialista em Segurança Pública.

Mas Zinho se entregou às autoridades em dezembro de 2023, deixando um novo vácuo de poder, que voltou a intensificar as disputas internas atuais.

Invasão ao Hospital Municipal Pedro II, em Santa Cruz | Reprodução

Guerra na milícia inclui invasão a hospital, assassinato planejado e ataque em bar

A disputa interna na milícia voltou a se intensificar há apenas quatro meses no episódio que resultou na invasão de oito homens armados com fuzis ao Hospital Pedro II, em Santa Cruz, Zona Oeste do Rio. Na cena, gravada por câmeras de segurança, eles estavam à procura de Lucas Fernandes de Sousa, que havia sobrevivido a uma emboscada da quadrilha em uma tentativa de assumir o poder.

No dia seguinte à invasão ao hospital, o corpo de Erlan Oliveira, o Orelha, foi encontrado em Sepetiba. Investigações da Draco, unidade da Polícia Civil especializada em investigações contra grupos paramilitares, indicam que os crimes foram tramados por Marta Silva de Oliveira, a Martinha Sapatão, em um plano para assumir o poder.

Com isso, ela foi obrigada a fugir, mas não escapou das mãos da milícia. No mês seguinte ao ataque ao hospital, ela foi assassinada em Cabo Frio, onde estava escondida.

No fim de novembro de, um brutal ataque com mais de 100 tiros para matar três homens em frente a um bar lotado em Nova Iguaçu também estava relacionado às disputas internas na milícia. Segundo testemunhas, dois homens armados com fuzis desceram de um carro preto e abriram fogo contra as vítimas, que haviam acabado de chegar.

O ataque a tiros matou Antony Cruz Eiras e Patrick Vieira dos Santos. Mas o principal alvo era Luiz Carlos Pereira dos Santos Cruz, o Nem Corolla, que também foi assassinado na ocasião. Investigações indicam que ele era homem de confiança de Juninho Varão. Mas acabou sendo atraído por Paulo David Guimarães Ferraz Silva, o Naval, que hoje chefia o Bonde do Zinho nas ruas, apontado como principal suspeito do crime.

Aliado de Juninho Varão, Luiz Carlos Pereira dos Santos Cruz, o Nem Corolla, teria sido atraído por Naval / Crédito: Reprodução

Nem Corolla ganhou destaque na milícia por ter se tornado um dos líderes do grupo paramilitar em Austin, em Nova Iguaçu. E, com o apoio de Naval, fez investidas nos bairros de Tinguá e Miguel Couto recentemente, segundo informações obtidas pela reportagem.

Ele tinha sete anotações criminais. Cinco delas por homicídio. Ele inclusive foi denunciado pelo Ministério Público pelo assassinato de Nilton Gonçalves de Oliveira, morto em uma praça em Vassouras (RJ) em setembro de 2021. A vítima era pai do ex-prefeito da cidade, Renan Vinícius Santos de Oliveira. Nem Corolla foi foi flagrado em vídeo descendo do carro e disparando três vezes contra a vítima, que estava tomando café.

Via Agenda do poder

Por Jornal da República em 20/01/2026
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