Organização Criminosa pode ter desviado meio bilhão de instituições de caridade no Centro do Rio

A Organista Brígida Rachid, removida da administração de 4 organizações religiosas e de caridade por suspeita de rombo milionário / Foto: A Gazeta (reprodução)

Organização Criminosa pode ter desviado meio bilhão de instituições de caridade no Centro do Rio

Por Patricia Lima - Diário do Rio

A histórica igreja da Rua do Rosário, esquina com Avenida Rio Branco, se tornou mais um ícone do abandono, desde que uma única família tomou o controle de uma irmandade católica / Foto: Wikipedia

O juiz Renan de Freitas Ongaratto, da 2ª Vara Especializada em Organização Criminosa (ORCRIM) da Comarca da Capital, determinou o afastamento de Brígida Rachid José Pedro da administração de quatro irmandades católicas. Rachid, que é organista, é suspeita de montar um esquema que desviou pelo menos R$ 12 milhões das instituições, e, segundo seu próprio irmão, o rombo pode chegar a meio bilhão de reais. O magistrado também acatou a denúncia do Ministério Público contra Brígida por apropriação indébita e lavagem de dinheiro.

Com isso, a ex-administradora se tornou ré de um processo que já é chamado dos bastidores de “Lava Jato da Fé”. O caso foi denunciado em primeira mão pelo DIÁRIO em matéria de dezembro de 2024.

Entre 2011 e 2012, Brígida Rachid assumiu a provedoria (presidência) da Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte e da Venerável Irmandade do Glorioso Mártir São Braz, anteriormente governadas por seus pais. Ambas são Associações Públicas de Fiéis católicos, com uma posição de autonomia em relação à Arquidiocese do Rio, mas sujeitas à sua fiscalização e controle.

Contando com a sorte, a família começou a transferir imóveis das irmandades para Brígida, começando com quatro apartamentos na Rua Carlos Góis, no melhor ponto do Leblon, “vendidos” a Brígida por cerca de 250 mil reais cada um: o preço de um apartamento na Favela da Rocinha. Enquanto isso, a ex-provedora – orgulhosa proprietária dos 4 apartamentos no Leblon – se mudou para o luxuoso edifício Regine Feigl, na Avenida Atlântica, orla do Leme: no portal Zap, apartamentos no prédio estão avaliados em entre 6,4 e 13,5 milhões de reais.

Mas apesar do absurdo que já é alvo de investigação do MP desde 2018, foi com a posse de Brígida no lugar dos pais que o problema parece ter se agravado. Rachid fechou a histórica igreja do século 18 para o público e transformou-a num depósito de quinquilharias, dando início a um esquema intrincado e criminoso para desvirar parte do dinheiro das associações religiosas, segundo o MP. As investigações verificaram ainda que, às vésperas de assumir o comando das instituições, a ré teria criado com sua companheira, a Support Serviços Empresariais; “empresa de fachada”, com capital social declarado de apenas R$ 2 mil e sem funcionários registrados, ainda segundo o MP.

A empresa administra os quase 100 imóveis das associações, e tem sede fantasma numa sala onde funciona uma costureira.

De acordo com as investigações, Rachid contratava a Support Serviços Empresariais para gerir os imóveis, realizando cobranças milionárias das irmandades, por serviços simulados ou inexistentes, segundo o G1 e emissora de TV. A gestora, que instalou num dos prédios da irmandade uma enorme placa de bronze em homenagem a si própria, também atuaria como corretora de seguros das irmandades e atuou como síndica no Edifício BIG na Rua Buenos Aires, onde o DIÁRIO apurou que foi obrigada a devolver mais de um milhão de reais desviados da administração condominial, tendo assinado um acordo interno para evitar maiores problemas.

A denúncia do MP apurou, nas investigações iniciais, que entre 2014 e 2024, a ex-administradora teria embolsado pelo menos R$ 12,7 milhões, gerando prejuízos patrimoniais gigantescos às instituições que são religiosas e de caridade.

Seu irmão, revoltado com a sitiação, acusa Brígida de roubar mais de meio bilhão de reais. Rachid estava à frente das quatro irmandades há 15 anos. As instituições foram criadas por pessoas comuns – inicialmente pardos, numa época em que a ascensão social destas pessoas era difícil – como irmandades para que pudessem ter sua própria igreja. São organizações religiosas que funcionam como associações sem fins lucrativos, e por séculos se dedicaram à caridade e ao culto à Nossa Senhora e ao bispo São Braz, padroeiro dos radialistas. O culto era feito, até o ingresso de Brígida, num altar no mosteiro de São Bento e na própria igreja, convertida por ela em depósito de lixo.

O prejuízo à Igreja de Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte, na Rua do Rosário, na região central, é incomensurável. O templo, que foi construído em 1785, está fechado ao público há pelo menos 6 anos. A edificação tem paredes sem reboco, sujas e com umidade, além de pichações, e, abandonado, virou depósito.

O coro do templo foi devorado por cupins, e, para economizar, Rachid trocou telhas históricas por telhas de amianto, e trocava as pinturas feitas com ouro por tinta automotiva dourada. Um grande vitral estava quase destruído. O templo possui peças sacras de alto valor, talhas do Mestre Valentim e objetos sacros de prata e até de ouro maciço, que a arquidiocese conseguiu acautelar, com auxílio do Iphan, no Museu Sacro Arquidiocesano após uma intervenção em Março último que acabou provisoriamente suspensa pela justiça.

Segundo uma declaração do Cartório do 15o. Ofício de Notas, que em Março de 2025 acompanhou a abertura da Igreja da Boa Morte, o que se encontrou no interior do templo foi um retrato quase devastador de abandono, que ia além do coro devorado por cupins: poeira espessa recobrindo piso, paredes, móveis e imagens sacras, objetos litúrgicos misturados a sucata, peças de automóveis, barras de ferro e restos de material de obra, bancos empilhados bloqueando a própria entrada principal por dentro e salas transformadas em depósitos improvisados de documentos, cofres, candelabros e equipamentos eletrônicos largados sem qualquer critério.

A sacristia funcionava como um canteiro de obras desordenado, com tintas abertas, rolos, baldes e andaimes espalhados, enquanto ambientes do segundo piso acumulavam móveis, papéis e alfaias em meio ao desalinho generalizado.

No ponto mais sensível do templo, o sacrário foi aberto e revelou uma quantidade expressiva de hóstias consagradas, algumas já com bolor, guardadas em um espaço fechado havia tempo indeterminado — uma cena que, sem exagero, expôs um templo histórico entregue à sujeira antiga, ao improviso e a uma degradação material e espiritual difícil de ignorar.  

Irmandade dos Rachid

A decisão da Vara de Organizações Criminosas inclui o depoimento de Aloysio Rachid José Pedro, irmão da ré e que a acusa de gerir a irmandade de forma centralizada para “ficar rica”. Segundo depoimento prestado por Aloysio na ata notarial lavrada no 15º Ofício, Brígida teria assumido, ainda no início dos anos 2000, o controle de fato das irmandades da Boa Morte e de São Brás, promovendo a exclusão gradual de famílias tradicionais, concentrando o poder decisório em um círculo restrito de aliados e rompendo com qualquer prestação regular de contas à Igreja Católica.

Aloysio a acusa de administrar diretamente o patrimônio imobiliário das entidades, criar empresa própria para gerir os imóveis, remunerar-se com recursos das irmandades, adquirir bens por valores abaixo de mercado e utilizar os ativos religiosos para enriquecer pessoalmente, estimando que seu patrimônio teria chegado à casa de meio bilhão de reais.

O depoimento também aponta fechamento deliberado da igreja por alegadas “razões financeiras” – apesar da renda milionária de aluguéis – uso de dependências do templo para fins particulares, contratação de obras sem critérios técnicos, retirada de bens sacros para sua residência e uso de contas de terceiros para ocultar recursos, descrevendo uma gestão marcada por concentração de poder, confusão patrimonial e desvio sistemático da finalidade religiosa das instituições.

De acordo com o Ministério Público, a ré também teria recebido aluguéis em dinheiro vivo na sacristia da igreja, além de ter firmado contratos de aluguel sobre os imóveis das irmandades em seu próprio nome, conforme e-mails de inquilinos registrados nos autos.

Num áudio obtido pela reportagem do DIÁRIO, Brígida pede a um inquilino, que chama de “filhinho”, que traga o aluguel “em espécie” para “a mamãe”. A ex-provedora também já foi investigada no passado por exercício ilegal da profissão de dentista. A reportagem do RJTV tentou contato com a defesa de Brígida Rachid, mas não teve retorno.

Ao aceitar a denúncia do Ministério Público contra Brígida Rachid, a vara de Organizações Criminosas determinou o seu imediato afastamento de todas as atividades administrativas e eclesiásticas.

A ré também foi proibida de acessar as sedes, arquivos e contas bancárias das instituições. Em um dos trechos da decisão, Ongaratto destacou o risco que Brígida representa para o patrimônio da Igreja: “(…) a manutenção da acusada no cargo de gestão perpetuaria a dilapidação patrimonial demonstrada na tabela de desvios anuais, que não cessou nem mesmo com o início das investigações, em 2018”, disse o magistrado, acrescentando que “há risco iminente de dilapidação irreversível de patrimônio histórico e religioso, conforme relatos de abandono material dos templos, fechamento de igrejas centenárias e deterioração de objetos sagrados”, enfatizou, conforme reproduziu o G1.

Irmandades renascem com a bênção – e a atenção – de um departamento especializado dentro da Arquidiocese

Após a decisão judicial, a Mitra Arquidiocesana nomeou o frei Ramon Assis da Silva como interventor para as entidades. Caberá ao religioso a administração provisória do patrimônio histórico e religioso, para evitar sua destruição completa nas mãos da acusada, que considera ter “herdado” as irmandades e se refere aos membros delas de “sócios”. Espera-se, finalmente, a abertura da igreja para o culto, e o uso do dinheiro gerado pelos quase cem imóveis para os objetivos das irmandades.

Um grande esforço tem sido levado adiante pela Arquidiocese do Rio de Janeiro para que irmandades e confrarias criadas há muitos séculos voltem a seus objetivos originais. Muitas passaram por decadência conforme o Centro Histórico foi se esvaziando entre os anos 90 e 2000. Para isso, o Arcebispo da cidade criou um departamento só para fiscalizar e impulsionar as irmandades, o Vicariato para Associações de Fiéis, chefiado pelo Monsenhor André Sampaio de Oliveira, diplomata e especializado em direito canônico.

Sob a batuta de Sampaio, o Rio tem experimentado o Renascimento do protagonismo de irmandades católicas anteriormente esquecidas ou relegadas às páginas policiais dos jornais. A posse de novos provedores em diversas delas vêm fazendo renascer não só a fé católica nestes templos como também a boa gestão. Sob sua supervisão, foi reinaugurada e restaurada após 4 anos a Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, da irmandade do mesmo nome; a Igreja de Nossa Senhora do Bonsucesso, da Irmandade da Santa Casa reabriu e teve a fachada restaurada, e igrejas de irmandades como Nossa Senhora da Lampadosa, São José e a Santa Cruz dos Militares passaram a abrir em mais horários, retomando o trabalho pastoral.

Em 2024 os sinos das igrejas do Centro voltaram a tocar, num ambicioso projeto chamado “Alerta da Paz”. Muito mais concertos e eventos culturais voltaram a ocorrer nas igrejas, e algumas ganharam pequenos museus abertos ao público, como a Santa Cruz dos Militares e a Lapa dos Mercadores. Um convênio com q UNI-Rio foi fechado e as igrejas históricas das confrarias estão recebendo visitas mediadas por estudantes de história, enquanto a renascida Irmandade da Lapa protagoniza uma cruzada atrás de bens furtados da igreja, já tendo recuperado mais de 250 mil reais em peças desaparecidas há mais de 40 anos.

Só a Irmandade da Santa Casa, desde 2024, pagou mais de 100 milhões de reais em dívidas trabalhistas, anulou 210 milhões em cobranças fraudulentas, sustou leilões de imóveis, pagou mais de 10 meses de salários atrasados a funcionários e retomou um sem número de imóveis invadidos.

Algumas igrejas anteriormente desabando foram assumidas pela arquidiocese que agiu salvaguardando suas construções, como ocorreu na Igreja da Irmandade de São Pedro do Encantado, e a de Nossa Senhora do Paraíso – na Avenida Brasil, hoje passando por reformas após décadas de abandono. Agora fundos são arrecadados para restauros completos como ocorreu na Lapa dos Mercadores – que foi restaurada e é mantida por particulares em tempo recorde sob a batuta do Monsenhor. Também a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, na Uruguaiana, passou à administração direta da instituição.

Antecedentes

No dia 16 de dezembro de 2024, o DIÁRIO DO RIO publicou uma grande reportagem sobre os desmandos praticados pela família Rachid junto ao patrimônio das irmandades de Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte e do Glorioso Mártir São Braz, ambas sob o comando do mesmo clã, que promoveu a privatização dos recursos das instituições, abandonando o patrimônio eclesiástico à própria sorte e se fechando para a comunidade católica.

Brígida sequer teria permitido ao Padre que retirasse as espécies consagradas (hóstias) do sacrário da igreja, o que levou-as a apodrecer, profanando algo sagrado para os católicos. Matéria recente da revista Piauí tratou do assunto e consultou uma advogada especialista que afirmou só este fato como suficiente para a remoção da acusada de sua função.

Na matéria, a defesa de Rachid diz que tudo não passou de uma armação.

Segundo o Globo, documentos obtidos em cartórios mostraram a transferência de pelo menos quatro apartamentos da Irmandade do Glorioso Mártir São Braz, localizados na Rua Carlos Góes 141, no Leblon, para Brígida. “Segundo os registros, cada um dos imóveis custou à compradora cerca de R$ 250 mil em 2010”, disse nossa reportagem de 2024, acrescentando que corretores consultados, na ocasião, afirmaram que os imóveis custavam quase o quádruplo.

Segundo a reportagem da época, as escrituras desses apartamentos foram assinadas por Alexandre Rachid José Pedro, pai de Brígida e provedor na época da transação. Mas, segundo o DDR, ao assumir as irmandades após a morte do pai, Brígida teria expandido a rede de dilapidadores do patrimônio católico fluminense, nomeando só pessoas de seu círculo para os cargos da irmandade, que já não admite novos membros de forma habitual. Foi aí que nasceu o apelido “Nossa Senhora dos Rachid”, dado por pessoas do meio católico à igreja abandonada.

Na reportagem de 2024, um confrade de outra irmandade, que não quis se identificar, ironizou: “Só os pedidos deles são atendidos. É quase como uma nova religião”, disse ele, complementando: “Estão fazendo a limpa“.  Já um camelô que fazia ponto ao lado da igreja da Boa Morte disse à reportagem do DIÁRIO, assustado: “A Brígida anda armada, cuidado com ela.

Segundo a reportagem, contra Brígida Rachid haveria ainda denúncias de Condomínios de Escritórios onde a irmandade possuía bens. “Brígida teria se tornado síndica e, segundo os condomínios, teria ‘aprontado’ algumas irregularidades na administração deles, que assumiu em algum momento por conta de ser a confraria co-proprietária”, ressaltando que o MP e a Polícia já estavam investigando a agora ex-provedora. Além disso, a Arquidiocese do Rio também já acompanhava as denúncias e os desdobramentos dos acontecimentos.

Como a irmandade do Glorioso Mártir não possui um templo próprio, a de Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte foi a mais prejudicada, pois, além da fantástica igreja, localizada na esquina da Rua do Rosário com a Avenida Rio Branco, abriga um altar-mor com talha rococó assinada pelo Mestre Valentim, lampadários de prata, obras dos Evangelistas de autores anônimos, além de obras de arte sacra de altíssimo nível.

O costume de celebrar São Braz no altar do Mosteiro de São Bento – comprado pela irmandade no século 17, também foi abandonado.

De acordo com a apuração de 2024, os recursos angariados com o aluguel de imóveis, que incluiriam apartamentos, lojas e salas comerciais em áreas valorizadas da cidade, seriam utilizados para pagar “salários polpudos” à então provedora e a seu irmão Alexandre Rachid José Pedro Júnior, então tesoureiro em ambas as ordens.

A matéria também destacou que até a companheira de Brígida, Silvia Helena Monteiro, que já teria ocupado cargos de vice-juíza e procuradora também das duas entidades, foi beneficiada. A Support Serviços Empresariais, criada para administrar os bens das irmandades e já citada, seria de propriedade das duas, segundo o veículo.

Por Jornal da República em 22/01/2026
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