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No primeiro confronto do segundo turno, os candidatos trocaram acusações de corrupção por quase duas horas, das 20h15 ao fim: Lula insistiu nos R$ 134 milhões de Vorcaro, no BRB e nos 716 mil mortos da pandemia; Flávio atacou com Roberta Luchsinger, Frei Chico e o "tesouraço" — e o duelo agora segue para a Globo, no dia 23
O primeiro encontro, sem freios
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) se enfrentaram pela primeira vez na noite de domingo (18), no debate da Band, transmitido por um pool que incluiu Estadão, Cultura, TV Gazeta e Jovem Pan. O formato — perguntas diretas entre os candidatos e liberdade para circular pelo estúdio — transformou o encontro em um duelo de proximidade: os dois invadiram o espaço corporal um do outro, apontaram para as câmeras e falaram um por cima do outro durante aproximadamente 1h40 de programa.
O contexto explica a ferocidade: pesquisas Datafolha e Quaest mostram os dois tecnicamente empatados — 47% a 45% e 46% a 44%, respectivamente, com margem de erro de dois pontos. Flávio entrou no debate à frente, como terminou o primeiro turno, com 47,03% dos votos contra 45,16% de Lula. Em uma disputa de fios, cada frase vale a Presidência.
Licença-maternidade, a isca e o "corrupto" escrito na mão
O bate-boca começou com uma pergunta de Lula sobre 2009: quando deputado estadual, Flávio foi o único, entre 49 parlamentares da Assembleia do Rio, a votar contra ampliar a licença-maternidade das funcionárias. "O que você tem contra as mulheres?", cobrou o presidente. Flávio não respondeu à pergunta — citou a esposa Fernanda e as filhas Luísa e Carol, e virou o jogo: "Você conhece Roberta Luchsinger?", disparando sobre a lobista investigada que propôs delação premiada contra Lula e Lulinha.
Foi aí que o debate ganhou seu primeiro símbolo visual. Flávio pegou papel e caneta, escreveu "corrupto" e mostrou à câmera, apontando as letras "PT" escondidas na palavra. Na plateia, os aliados Sérgio Moro (PL-PR) e Deltan Dallagnol (PL-PE) — senadores eleitos e nomes históricos da Lava-Jato — assistiam ao ataque. Lula devolveu com a frase que se repetiu por toda a noite: "Roberta é problema da Polícia Federal. Por que você mantém o escritório com o Careca?".
Os R$ 134 milhões e a reunião "fechadinha"
O centro nevrálgico da noite foram os R$ 134 milhões que Flávio negociou com Daniel Vorcaro, o ex-banqueiro do Banco Master preso no escândalo das fraudes bilionárias, para financiar o filme "Dark Horse" sobre o pai. "Você tem que explicar os milhões do Vorcaro. O que você fez com os R$ 134 milhões?", insistiu Lula, dezenas de vezes. "Eu quero olhar para você enquanto fala", acrescentou. Flávio respondeu que "já explicou várias vezes" e que o dinheiro foi para o filme.
O senador devolveu com as reuniões que Lula teria feito de forma reservada com o banqueiro: "O que aconteceu naquela reunião fechadinha com Haddad e Galípolo? O que você prometeu para o Vorcaro?". A resposta do presidente se tornou o bordão da noite: "Vorcaro foi feito banqueiro no governo Bolsonaro e foi feito prisioneiro no meu governo. Ele deu um golpe de R$ 60 bilhões". Lula ainda acusou o adversário de ter comprado uma mansão de R$ 10 milhões em Brasília com financiamento do BRB — operação sob investigação — e desafiou Flávio a abrir os sigilos dele e da família: "Quero fazer esse desafio a você, para que o povo brasileiro saiba quem é ladrão".
"Palhaço": o momento em que a paciência acabou
O segundo bloco começou pela saúde, e ali o debate alcançou seu pico de tensão. Flávio reafirmou a escolha do médico Cláudio Lottenberg para ministro e repetiu a promessa de fazer do SUS "padrão Einstein", com prontuário único eletrônico e inteligência artificial. Lula rebateu com a história mais pesada da campanha: "716 mil pessoas morreram por irresponsabilidade do governo. Poderia ter evitado se tivesse ouvido a ciência. Será que ele quer privatizar o SUS?".
Na troca, Flávio gesticulou e interrompeu o presidente, que perdeu a paciência e chamou o senador de "palhaço" — advertido em seguida pela mediação. Depois, em um dos raros momentos de autocrítica da campanha, Flávio reconheceu as falhas da gestão do pai na pandemia: "De fato, a saúde não foi a área em que a gente teve o melhor resultado. Tivemos dois anos de pandemia, uma coisa nova que ninguém sabia direito enfrentar". O senador, que se autodenomina "o Bolsonaro vacinado", destacou as vacinas compradas no período; Lula respondeu citando o Mais Médicos Especialistas.
Tesouraço, motossera e o Ministério da Prosperidade
Na economia, Flávio levou o custo de vida — tema central de sua campanha: "Na época do governo Bolsonaro, você enchia o carrinho. Vou levar prosperidade a você". Lula respondeu com o golpe pessoal mais duro da noite: "Aliás, ele nunca trabalhou. Você conhece um cidadão que nunca trabalhou? Trabalhador para ele é coisa de ficção". O presidente admitiu que o custo de vida está caro, mas comparou números da cesta básica e do salário mínimo para sustentar que era pior no governo anterior — "fomos nós que tivemos a decência de aumentar o mínimo acima da inflação".
Flávio anunciou o "Ministério da Prosperidade", um programa de compra de dívidas dos bancos por valor menor, juros congelados por seis meses para pessoas físicas e um ano para jurídicas — sem explicar, porém, como financiaria a medida. Questionado sobre o modelo, seguiu falando do "tesouraço na corrupção do seu governo"; Lula ironizou os elogios à economia argentina: "Você vai escolher o modelo do Milei? Vai pedir a motossera dele emprestada? Você sabe quanto está a pobreza na Argentina?". O petista contrapôs o programa Indústria Brasil e a formação de jovens em matemática e engenharia digital.
Tarifaço, PCC e os presidiários
No terceiro bloco, a relação com os Estados Unidos tomou a pauta. Lula acusou o adversário de incentivar o governo Donald Trump a aplicar o tarifaço contra produtos brasileiros; Flávio negou e culpou a "ausência da diplomacia" na negociação — e ainda acusou o petista de "defender o PCC" ao criticar a classificação americana de organizações criminosas brasileiras como terroristas. Lula respondeu que "é notável que a família Bolsonaro esteja subordinada aos interesses americanos".
O confronto pessoal mais compartilhado da noite veio quando Flávio disse que 73% dos presidiários votaram em Lula. O presidente devolveu em segundos: "Até teu pai. Teu pai pode votar em mim. Ele votou num cara melhor porque ele te conhece". Na segurança pública, Lula cobrou três vezes por que Flávio teria atuado para que o policial que matou uma menina de 5 anos com bala de fuzil não fosse preso — o senador respondeu apenas que "não se pode criminalizar a advocacia" e negou querer retirar a marcação das balas. Lula citou as mais de 1 milhão de armas liberadas por decretos do governo Bolsonaro; Flávio negou o número: "Você inventou".
6x1, o direito de resposta e o placar que resta
Sobre a escala 6x1, promulgada nesta semana, Flávio negou qualquer intenção de reversão — "é óbvio que não, é mais uma mentira sua" — e prometeu "fazer o trabalhador prosperar de verdade". No direito de resposta, defendeu o combate ao "narcoterrorismo" que, segundo ele, domina áreas onde vivem 40 milhões de brasileiros, e disse que "a favela é potência". Lula encerrou o confronto com o balanço de seu governo — inclusão social, demarcação de terras indígenas, cotas, pé-de-meia — e a frase final: "Ele não gosta de educação. O que ele gosta é de mentir".
O saldo para o eleitor indeciso é o de uma noite sem veredito: Lula obteve as perguntas que Flávio nunca respondeu — os R$ 134 milhões, a menina de 5 anos, os sigilos — mas cedeu terreno nas iscas mordidas, como a provocação de Roberta Luchsinger. Flávio instalou os nomes do noticiário negativo do governo — Lulinha, Frei Chico, Janja — e saiu sem responder por nada do próprio dossiê. O calendário agora aponta para o debate da Globo, no dia 23, e para as urnas em 25 de outubro. Restam sete dias — e a decisão final caberá a quem ainda não decidiu.
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