Presidente da Caprichosos de Pilares, Carlos Leandro promete retomar legado familiar e devolver escola à elite do carnaval carioca

Com novo enredo e rainha coroada, Caprichosos de Pilares planeja volta triunfal à Marquês de Sapucaí

A Grêmio Recreativo Escola de Samba Caprichosos de Pilares realizou neste sábado a coroação de sua rainha de bateria, Adely Ozon, e apresentou oficialmente o samba-enredo que levará para a Série Bronze do carnaval carioca de 2026.

O evento marca um momento de renovação para a agremiação fundada em 1949, que busca retomar o protagonismo perdido nos últimos anos.

O presidente Carlos Leandro, que está à frente da escola há cinco anos, apresentou o enredo "Que valha a nossa voz", desenvolvido pelo carnavalesco Guto Carrilho.

A proposta aborda a música negra brasileira, mantendo a tradição irreverente que sempre caracterizou a escola de Pilares. "A identidade da Caprichosos sempre foi uma identidade de uma escola irreverente.

Então a gente resolveu escolher esse enredo porque traz toda essa musicalidade da música negra brasileira", explicou Leandro durante o evento.

A escolha do tema reflete o DNA da agremiação, conhecida por seus enredos críticos e satíricos que conquistaram o público carioca nas décadas de 1980 e 1990.

A escola ganhou notoriedade nacional com desfiles memoráveis, especialmente o de 1985, com "E por falar em saudade", que ficou famoso pelo refrão "Tem bumbum de fora pra chuchu / qualquer dia é todo mundo nu".

O sucesso daquele carnaval transformou o samba em um verdadeiro "chiclete" musical, sendo cantado até hoje pelos foliões.

Legado familiar e tradição irreverente

Carlos Leandro carrega uma responsabilidade especial: a Caprichosos é a escola de sua família. Seu avô, Fernando Leandro, junto com o carnavalesco Luiz Fernando Reis, foi responsável pelos grandes momentos da agremiação. "Eu consegui assumir e retomar, que era a escola da minha família, do meu avô e do meu pai.

Sempre foi escola de grupo especial, fundadora da Liesa", destacou o presidente, referindo-se ao período áureo da escola.

A agremiação de cores azul e branco, simbolizada por duas serpentes folclóricas, alcançou a elite do carnaval carioca em 1983, após vencer o Grupo 1-B em 1982 com "Moça Bonita Não Paga".

Durante os anos 1980 e 1990, consolidou-se como uma das principais vozes críticas do carnaval, abordando temas políticos e sociais com humor e irreverência.

Entre os desfiles mais marcantes está "Luz, Câmera... Ação!" de 1988, que celebrou o cinema brasileiro, e o enredo de 1994 sobre os 90 anos da Avenida Rio Branco, que mencionou figuras políticas presas da época.

Essa capacidade de unir entretenimento e crítica social tornou-se a marca registrada da escola, conquistando a simpatia do público e consolidando sua reputação como "escola do povo".

Desafios financeiros e queda para a Série Bronze

Apesar do passado glorioso, a Caprichosos de Pilares enfrenta sérias dificuldades nos últimos anos. A escola, que já foi fundadora da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), acabou rebaixada para a Série Bronze em 2024, a quarta divisão do carnaval carioca.

O rebaixamento representa um dos momentos mais difíceis da história da agremiação, que mantém forte ligação com o subúrbio carioca e tem a Portela como escola madrinha.

Os problemas financeiros e de desempenho afastaram a escola do cenário principal do carnaval, mas Carlos Leandro demonstra determinação em reverter essa situação.

"Esse ano a gente vai poder fazer um trabalho com pé no chão, com coerência para poder ser campeão e voltar para Sapucaí, que é o lugar de onde ela nunca deveria ter saído", afirmou o dirigente.

A estratégia para 2026 envolve um trabalho estruturado que resgate os valores tradicionais da escola, combinando organização administrativa com a criatividade que sempre caracterizou seus desfiles.

O presidente acredita que o enredo sobre música negra brasileira pode ser o ponto de partida para essa retomada, aproveitando a expertise da escola em temas culturais e sociais.

Projeto de retorno ao Grupo Especial

O plano de Carlos Leandro é ambicioso, mas realista. A meta imediata é conquistar o título da Série Bronze para subir à Série Prata, dando início ao processo de retorno à elite do carnaval. "Se Deus quiser, com o carnaval que a gente vai fazer, vamos brigar pelo título e vamos voltar para a Série Prata para, sim, voltar para a Sapucaí", projetou o presidente.

A coroação de Adely Ozon como rainha de bateria representa um dos primeiros passos desse projeto de reestruturação. O evento realizado na quadra da escola, localizada no bairro de Pilares, na Zona Norte do Rio, reuniu a comunidade e demonstrou que a agremiação mantém sua base de apoio popular, fundamental para qualquer projeto de crescimento no carnaval.

O carnavalesco Guto Carrilho tem a missão de traduzir essa renovação em um desfile competitivo, que una a tradição irreverente da escola com a qualidade técnica necessária para conquistar os jurados.

A experiência da Caprichosos com enredos musicais e sua capacidade de criar sambas marcantes podem ser diferenciais importantes nessa jornada de volta.

Música negra como resistência e identidade

O enredo "Que valha a nossa voz" chega em um momento simbólico para a escola e para o carnaval brasileiro.

Ao abordar a música negra brasileira, a Caprichosos retoma sua vocação para temas que celebram a cultura afro-brasileira, base fundamental do carnaval. A escolha dialoga com a história da própria escola, que sempre teve na música popular sua principal fonte de inspiração.

A proposta permite explorar desde os ritmos ancestrais até as manifestações contemporâneas, passando pelo samba, funk, rap e outras expressões musicais que nasceram nas comunidades negras brasileiras.

Para uma escola que já transformou sambas em sucessos nacionais, o tema oferece possibilidades criativas infinitas, tanto na composição musical quanto na concepção visual do desfile.

A irreverência tradicional da Caprichosos pode encontrar na música negra brasileira um campo fértil para críticas sociais e celebração cultural.

O enredo permite abordar questões como resistência, identidade e protagonismo negro na formação da cultura nacional, temas sempre presentes no DNA da agremiação de Pilares.

Tradição familiar e compromisso com o futuro

A presença de Carlos Leandro na presidência representa a continuidade de um legado familiar que remonta aos tempos áureos da escola.

Seu avô, Fernando Leandro, foi uma figura fundamental na construção da identidade da Caprichosos, trabalhando ao lado do carnavalesco Luiz Fernando Reis na criação dos enredos que marcaram época.

Essa herança familiar traz tanto responsabilidade quanto conhecimento sobre os valores que fizeram da escola uma referência no carnaval carioca.

"Eu pretendo fazer, voltar, trazer o legado da família de volta, fazer grandes enredos, grandes desfiles para voltar com ela para Sapucaí", declarou o presidente, demonstrando consciência sobre a importância histórica da agremiação.

O desafio é adaptar essa tradição aos tempos atuais, mantendo a essência irreverente enquanto constrói uma estrutura organizacional capaz de competir nos grupos superiores.

A experiência acumulada em cinco anos de gestão pode ser fundamental para equilibrar inovação e tradição no projeto de retomada da escola.

Por Robson Talber @robsontalber 

Repórter Renata Barbosa @beleza.naotemidade

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Por Jornal da República em 12/01/2026
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