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O barbeiro que carrega a herança da Guerra Civil Espanhola: Roberto Gonzales preside o júri da maior competição de barbeiros do mundo, nos Arcos da Lapa, onde o próprio pai começou a trajetória no Brasil.
Presidente da comissão julgadora da World Cup Batalha dos Barbeiros Brasil, o profissional que comanda a Rob Barbeiro no Jardim Guanabara mantém viva a tesoura que atravessou o Atlântico com o pai, refugiado da Guerra Civil Espanhola.
Os Arcos da Lapa, neste fim de semana, são o epicentro mundial da barbearia artística. A primeira etapa da World Cup Batalha dos Barbeiros Brasil atrai competidores de todas as regiões do país e de nações estrangeiras, todos em busca dos cinturões das categorias Corte Tradicional, Fade e Desenho Freestyle.
Mas, em meio ao burburinho de máquinas e tesouras, uma história particular atravessa o tempo e os continentes — e está literalmente ancorada no chão da Lapa.
O sangue espanhol que corre nas veias da barbearia carioca
Roberto Gonzales não é apenas o presidente do júri da maior competição internacional de barbeiros. Ele é a prova viva de que a barbearia pode ser uma herança familiar que cruza oceanos e gerações.
Seu pai, refugiado da Guerra Civil Espanhola — conflito que, entre 1936 e 1939, devastou a Espanha e forçou milhares de cidadãos a buscar abrigo em outras terras — desembarcou no Rio de Janeiro, carregando não apenas a esperança de recomeçar, mas também suas tesouras e navalhas.
O primeiro endereço profissional do pai de Gonzales no Brasil foi a Avenida Mem de Sá, bem ali na Lapa, a poucos passos dos Arcos, onde hoje acontece a Batalha dos Barbeiros. Uma coincidência que emociona o próprio filho.
"O meu pai veio da Espanha depois da Guerra Civil Espanhola e se refugiou aqui no Brasil. "O primeiro lugar em que ele trabalhou foi aqui na Lapa, na Avenida Mem de Sá — a primeira barbearia que ele teve", relembra Roberto.
De acordo com registros históricos, o Brasil recebeu um contingente significativo de refugiados espanhóis durante e após a Guerra Civil, muitos deles profissionais liberais e artesãos que trouxeram consigo ofícios seculares.
Estima-se que cerca de 13 mil espanhóis tenham desembarcado no Brasil entre 1936 e 1940, período em que o país vivia o Estado Novo de Getúlio Vargas.
A memória viva guardada em uma tesoura
Do pai, Roberto Gonzales guarda não apenas o ofício, mas um objeto de valor simbólico incalculável. Ele é o herdeiro da primeira máquina — ou tesoura — que o pai utilizou quando chegou ao Brasil e começou a trabalhar.
Um artefato que carrega a história de duas nações em suas lâminas.
"Eu herdei a profissão dele, aprendi muito e estou sempre me reciclando porque a gente nunca envelhece na profissão", afirma Roberto, que jamais deixou de honrar a tradição.
"A gente tem que estar sempre aprendendo para poder chegar aos objetivos e ter essa tradição e também essa fama que a gente tem. A gente tem bastante história para contar."
A responsabilidade de julgar quem dá o melhor de si
Ser presidente do júri em uma competição que tem mais de 15 anos de existência e mobiliza milhares de profissionais é, nas palavras de Roberto Gonzales, "uma responsabilidade muito grande".
Ele já presidiu a comissão julgadora cerca de dez vezes em edições anteriores — um reconhecimento que só vem com a confiança construída ao longo de décadas de atuação.
"É sempre importante julgar e fazer isso com muito apreço. É uma coisa de muita responsabilidade, principalmente um evento tão grandioso como a Batalha dos Barbeiros, que já tem mais de 15 anos.
A gente nessa luta, sempre batalhando, fazendo crescer a barbearia a nível Brasil. Nós temos a obrigação de fazer o melhor do nosso julgamento para esses profissionais que estão aí dando o melhor de si."
A responsabilidade de Roberto vai além de atribuir notas. Ele precisa avaliar técnica, criatividade, precisão e acabamento em categorias que exigem anos de prática — como o reflexo alinhado, o fade e o desenho livre — e decidir, em segundos, quem leva o cinturão.
O Jardim Guanabara como berço de um império da tesoura
A base do império de Gonzales é a Rob Barbeiro, estabelecimento localizado no Jardim Guanabara, bairro nobre da Ilha do Governador, zona norte do Rio.
A região, conhecida por sua qualidade de vida e por abrigar uma classe média consolidada, também se tornou polo de barbearias de alto padrão nos últimos anos.
O bairro, que tem cerca de 37 mil moradores, segundo estimativas, passou por uma transformação urbana significativa nas últimas duas décadas. A avenida principal, sempre movimentada, hoje abriga dezenas de estabelecimentos de beleza masculina que disputam uma clientela exigente.
É nesse cenário que Roberto construiu sua reputação — como barbeiro, como empresário e como formador de opinião dentro da classe.
O mercado de barbearia no Brasil, de acordo com dados da Associação Brasileira de Franchising (ABF), registrou crescimento de 16% na abertura de novas operações no segmento entre 2022 e 2023, com o número de redes de franquias saltando de 55 para 64. Segundo o portal OndeAbrir, o setor movimenta mais de R$ 5 bilhões anualmente e cresce entre 15% e 20% ao ano, empregando centenas de milhares de profissionais.
O ticket médio por atendimento gira entre R$ 40 e R$ 80, e a taxa de sobrevivência dos negócios em cinco anos está entre 35% e 45% — um índice que exige gestão profissionalizada, algo que Gonzales domina como poucos.
A barbearia como ferramenta de transformação social
A trajetória de Roberto Gonzales se cruza com um fenômeno mais amplo: a barbearia deixou de ser o espaço do "senhorzinho de jaleco branco", como descreve o entrevistador, e se tornou uma plataforma de ascensão social para jovens da periferia.
Dados do Sebrae indicam que existem mais de 1,3 milhão de empresas de beleza ativas no país, e o segmento de barbearia é um dos que mais cresce dentro desse universo.
Estima-se que 70% desses negócios operem como Microempreendedor Individual (MEI), o que revela tanto a acessibilidade da profissão quanto a necessidade de suporte em gestão financeira.
O barbeiro de 2026 não é mais apenas um cortador de cabelo: é empreendedor, influenciador digital, gestor de estoque e, em muitos casos, educador.
"Essa rapaziada que está aqui saiu da comunidade e veio para o asfalto." A barbearia cresceu, a barbearia mudou. "Hoje são jovens cheios de disposição para trabalhar", destaca o entrevistador, ecoando o sentimento de Roberto Gonzales.
A Batalha dos Barbeiros como patrimônio cultural carioca
A World Cup Batalha dos Barbeiros Brasil, idealizada por Erica Madrinha — sobrevivente da Chacina da Candelária, ocorrida em 1993 na Igreja da Candelária, centro do Rio, quando oito crianças e adolescentes em situação de rua foram assassinados — é muito mais do que uma competição.
O evento celebra a cultura urbana com batalhas de rap, apresentações de MCs, dança e ações sociais voltadas para capacitação profissional e distribuição de alimentos para famílias carentes.
A história de Erica Nunes, a "Madrinha dos Barbeiros", já foi contada em programas como o Caldeirão do Huck e em matérias na imprensa internacional.
Sua trajetória — de menina em situação de rua a idealizadora da maior competição de barbeiros do país — se conecta com a de Roberto Gonzales em um ponto essencial: ambos acreditam que a barbearia é uma ferramenta de dignidade e recomeço.
"É muito importante ter essa trajetória da barbearia aqui no Rio de Janeiro", resume Roberto Gonzales, cuja própria história já se confunde com a história da barbearia carioca.
O legado que atravessa gerações
Enquanto o sol se punha sobre os Arcos da Lapa — o mesmo cenário que, décadas antes, testemunhou o primeiro corte de cabelo profissional de seu pai, Roberto Gonzales seguiu, fiel à tesoura herdada e ao compromisso com a classe.
A Batalha dos Barbeiros, que começou pequena e hoje reúne competidores internacionais, é o palco onde o passado e o presente se encontram em cada risco de navalha.
"Eu agradeço." "É sempre importante você também junto com a gente nesse grande empenho a nível de barbearias Brasil", disse ele ao final da entrevista.
A frase, carregada de humildade, não deixa transparecer o peso da história que ele carrega: a história de um espanhol que atravessou o oceano fugindo da guerra, encontrou na Lapa o chão para recomeçar e construiu, geração após geração, um legado que hoje é julgado sob os mesmos arcos que abrigaram o primeiro passo de seu pai.
Roberto Gonzales — Perfil
Roberto Gonzales é barbeiro profissional, empresário e presidente do júri da World Cup Batalha dos Barbeiros Brasil, a maior competição internacional de barbearia do país.
Comanda a Rob Barbeiro, tradicional estabelecimento no Jardim Guanabara, Ilha do Governador, Rio de Janeiro.
Filho de imigrante espanhol que chegou ao Brasil como refugiado da Guerra Civil Espanhola e trabalhou como barbeiro na Lapa — no mesmo bairro onde hoje acontece a Batalha —, Roberto herdou a profissão e as ferramentas de trabalho do pai, incluindo a tesoura que atravessou o Atlântico.
Com mais de 15 anos de atuação na competição e cerca de dez edições como presidente da comissão julgadora, Gonzales é reconhecido como uma das autoridades técnicas da barbearia brasileira, combinando tradição familiar, atualização profissional constante e compromisso com a valorização da classe.
Sua história simboliza a integração entre imigração, empreendedorismo periférico e a transformação da barbearia em fenômeno cultural e econômico no Brasil contemporâneo.

Por Robson Talber, @robsontalber, repórter Henrique Pianta, @piantahp.
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