Último debate antes do voto: Rio Previdência, Credcesta, vigas da Perimetral e concessões dominam a rodada final entre candidatos ao governo

Siri promete suspender descontos do Credcesta no primeiro dia; Ruas defende endurecer a lei

Último debate antes do voto: Rio Previdência, Credcesta, vigas da Perimetral e concessões dominam a rodada final entre candidatos ao governo

Na reta final do primeiro turno, os cinco candidatos ao Palácio Guanabara trocaram acusações de corrupção, apresentaram promessas para transporte, educação, saúde e segurança e transformaram o escândalo do Banco Master no tema mais quente da noite na TV Globo.

O cenário do debate

A TV Globo realizou, na noite desta terça-feira (29), o último debate do primeiro turno entre os candidatos ao governo do Rio de Janeiro. Estiveram no estúdio Douglas Ruas (PL), Eduardo Paes (PSD), William Siri (PSOL), Anthony Garotinho (Republicanos) e André Marinho (Novo). A noite começou com uma novidade jurídica: o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Cássio Nunes Marques, concedeu liminar ao Partido Novo que alterou os critérios de participação em debates, garantindo a presença de André Marinho na disputa.

Ao longo de quatro blocos, os candidatos alternaram perguntas sobre temas sorteados, escolhas livres e regiões do estado. O formato previa advertências por desrespeito e direito de resposta para os que se sentissem ofendidos. A plateia foi orientada a manter silêncio, mas os ânimos se exaltaram em mais de um momento, com pedidos de direito de resposta e trocas de acusações pessoais.

Transporte e emprego abrem o primeiro bloco

O primeiro bloco, de temas sorteados, começou com transporte público. Douglas Ruas cobrou de Eduardo Paes a promessa da Linha 3 do metrô, lembrando que o ex-prefeito prometeu por duas vezes o VLT de Botafogo, obra de menor complexidade, sem entregar. Paes rebateu defendendo seu legado na prefeitura, com 150 km de BRT, o terminal Gentileza e a renovação da frota de ônibus, e afirmou que a prioridade foi recuperar o sistema após a gestão anterior.

Na sequência, o tema emprego colocou frente a frente Paes e William Siri. O candidato do PSOL defendeu a reestatização dos trens, citando R$ 860 milhões para o investimento e tarifa zero, além da reindustrialização do estado com o complexo de Santa Cruz, onde a Fiocruz anunciou R$ 5 bilhões para uma fábrica de vacinas. Paes respondeu propondo triplicar o ensino técnico profissionalizante e fortalecer a Faetec.

Saneamento e a reestatização da Cedae

No tema saneamento, William Siri questionou Garotinho sobre a reestatização da Cedae, acusando o governo de ter vendido a companhia e elevado as contas de água. Garotinho, por sua vez, afirmou ter auditado a licitação e classificou o processo como fraude atestada pelo Tribunal de Contas, prometendo anular juridicamente o contrato de venda. O ex-governador aproveitou para reafirmar sua candidatura pelo número 10, após notícias de que teria desistido.

A lista do Adilcinho e a dívida do estado

O tema dívida do governo gerou um dos momentos mais tensos. Garotinho perguntou a André Marinho sobre a chamada lista do Adilcinho, citando nomes de políticos que teriam recebido valores, como Cláudio Castro e Rodrigo Barcelar, com R$ 5 milhões cada um. Marinho respondeu afirmando que o problema do Rio "não é falta de dinheiro, é excesso de ladrão", e devolveu críticas a Garotinho, citando sua gestão em Campos. Garotinho rebateu lembrando que negociou a dívida do estado com a União ao lado de Fernando Henrique Cardoso.

Educação e as escolas cívico-militares

Fechando o primeiro bloco, André Marinho perguntou a Douglas Ruas sobre a educação. Ruas reconheceu a 26ª posição do estado no IDEB, mas defendeu as 17 escolas cívico-militares como modelo de boas práticas, citando notas entre 5,2 e 5,8. Marinho respondeu defendendo a ampliação do modelo e o piso nacional do magistério, enquanto Paes, citado, rebateu acusações sobre aprovação automática na rede municipal.

Escala 6x1 e o embate ideológico

O segundo bloco, de tema livre, começou com William Siri perguntando a Douglas Ruas sobre o fim da escala 6x1. O candidato do PSOL afirmou que o PL e Flávio Bolsonaro seriam contra a pauta, enquanto seu partido a teria colocado em nível nacional. Ruas respondeu pedindo direito de resposta pela ofensa a Flávio Bolsonaro e defendeu a redução de impostos como caminho para melhorar as condições dos trabalhadores, sem onerar o empresário.

Violência contra a mulher

Douglas Ruas perguntou a Eduardo Paes sobre o combate à violência contra a mulher, citando sua vice, Fernanda, mãe de duas meninas autistas. Paes defendeu seu histórico na prefeitura, com a criação da Secretaria das Mulheres, e propôs triplicar a Ronda Maria da Penha para cerca de 150 equipes e criar oito delegacias da mulher. Ruas, porém, devolveu a acusação, citando o nome de Pedro Paulo, apontado como agressor, e Paes negou, afirmando que houve inquérito e comprovação de inocência.

Renovação e a disputa pela narrativa

Eduardo Paes perguntou a André Marinho se Douglas Ruas representaria de fato uma renovação, sendo o reserva oficial de Rodrigo Barcelar, preso por ligações com o Comando Vermelho. Marinho respondeu que Paes seria "o sujo falando mal do lavado" e ironizou sua trajetória política. Na sequência, André Marinho perguntou a Garotinho sobre recuperação de territórios, e o ex-governador apresentou o plano do BOP 2.0, com ocupação social e apoio das forças federais.

A lista do Barcelar e o crime organizado

Garotinho perguntou a William Siri sobre a lista do Barcelar, afirmando que haveria um candidato presente no debate envolvido em corrupção. Siri respondeu defendendo a divulgação da lista e afirmou que o crime organizado teria dominado o Palácio Guanabara e a Alerj. O confronto expôs a disputa pela narrativa de combate ao crime, com Siri defendendo o desmonte do que chamou de quadrilha instalada no poder e Garotinho rebatendo com sua trajetória na segurança pública.

As oito regiões do estado

O terceiro bloco foi dedicado às regiões. No Médio Paraíba, Garotinho questionou Ruas sobre incentivos fiscais e o polo automotivo. Na Costa Verde, Ruas perguntou a Siri sobre turismo e desenvolvimento. No Centro Sul, Siri questionou Paes sobre educação e a chamada minutagem. Nas Baixadas Litorâneas, Paes perguntou a Marinho sobre o pedágio da Via Lagos e as tarifas da Prolagos.

No Norte Fluminense, Marinho perguntou a Garotinho sobre saúde, e o ex-governador elencou promessas como zerar o IPVA para trabalhadores de aplicativos e pagar o piso do magistério. No Noroeste, Paes questionou Ruas sobre as obras da Secretaria das Cidades, e o candidato do PL defendeu sua gestão em 73 municípios. Na Região Serrana, Ruas perguntou a Marinho sobre o hospital de câncer de Nova Friburgo. Na Região Metropolitana, Marinho questionou Garotinho sobre transporte e integração.

Rio Previdência e Credcesta dominam o último bloco

O quarto bloco começou com André Marinho questionando William Siri sobre o polo educacional, mas foi a pergunta seguinte que elevou a temperatura. Siri cobrou de Douglas Ruas uma resposta sobre o escândalo do Rio Previdência e do Credcesta, braço consignado do Banco Master. O candidato do PSOL afirmou que Flávio Bolsonaro teria pedido R$ 134 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro e recebido "60 e poucos", além de acusar o governo de Cláudio Castro de repassar R$ 3 bilhões dos aposentados ao banco.

Siri classificou os juros do Credcesta como abusivos, superiores a 100% ao ano, e prometeu suspender os descontos no primeiro dia de mandato, em 1º de janeiro de 2027, além de promover um pente fino nos contratos do fundo. Douglas Ruas respondeu afirmando ser servidor público de carreira, defendeu o endurecimento da legislação penal com agravante para detentores de mandato e citou o ministro do STF André Mendonça como responsável pelo caso.

Autismo e o pedido de desculpas de Paes

Douglas Ruas perguntou a Eduardo Paes sobre políticas para pessoas com transtorno do espectro autista, citando sua vice e acusando o ex-prefeito de ter dito que autistas precisam ser ressocializados. Paes negou a expressão e pediu desculpas, apresentando o programa SED TEA, coordenado pelo secretário Daniel Soranz. Ruas, porém, devolveu a acusação, afirmando que Paes teria zombado de pessoas com deficiência visual em um camarote na Sapucaí.

As vigas da Perimetral e o duelo com Garotinho

O momento mais ácido veio quando Garotinho perguntou a Paes sobre o sumiço das vigas do Elevado da Perimetral, furtadas em 2013 de um depósito no Caju. Garotinho afirmou que as peças foram parar no Catar, em operação intermediada por pessoas ligadas ao ex-prefeito, e chegou a dizer que Paes "deveria estar preso". Paes respondeu que foram apenas quatro ou cinco vigas, que não pertenciam mais à prefeitura por se tratar de uma PPP, e que valiam cerca de R$ 40 mil.

Em direito de resposta concedido, Paes reiterou que as vigas foram roubadas e pertenciam a uma empresa privada. O caso, que voltou à tona no debate, já havia sido alvo de postagens do próprio Paes em 2024, quando minimizou o episódio. O sumiço das vigas, furtadas em 2013, é um dos casos mais lembrados da gestão do ex-prefeito na Zona Portuária.

A concessão dos cemitérios e a Acentory

Na última rodada, Garotinho perguntou a André Marinho sobre a concessão dos cemitérios do Rio na gestão de Paes, citando as empresas Rio Pax e Reviver, a criação de taxa de manutenção de cova e a atuação da consultoria Acentory, cujo principal acionista seria o BTG Pactual, onde trabalha Guilherme Paes, irmão do candidato do PSD. "Se você anda no Jaé, paga pro Eduardo. Se você morre, paga pro irmão do Eduardo", ironizou.

André Marinho respondeu trazendo o apelido "limão" e afirmando que se trata de um ex-prefeito ligado a chefes do Comando Vermelho, visto na região do Chapadão. A troca de acusações levou a dois pedidos de direito de resposta, sendo um concedido a Paes.

As considerações finais

Nas considerações finais, os cinco candidatos apresentaram seus números e alianças. André Marinho pediu votos pelo 30, Douglas Ruas pelo 22, com Flávio Bolsonaro para presidente, Eduardo Paes pelo 13, com Lula, William Siri pelo 50, com Lula, Mônica Benício e Benedita, e Garotinho pelo 10. O debate encerrou com o lembrete de que o primeiro turno ocorre no próximo domingo, dia 4 de outubro.

O que está em jogo no caso Master

O escândalo do Banco Master, que dominou o debate, tem desdobramentos reais investigados pela Polícia Federal e pelo STF. Segundo o Estadão, o celular de Vorcaro tinha três meses de conversas com Flávio Bolsonaro e menção a seis encontros. O Valor Econômico revelou que a PF apura crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e organização criminosa nos repasses de Vorcaro ao filme Dark Horse. A Agência Brasil confirmou que Flávio admitiu ter articulado um apoio de R$ 134 milhões para a produção do filme, mas negou crime.

O Nexo Jornal mapeou a teia do Master, citando os senadores Flávio Bolsonaro, Ciro Nogueira e Jaques Wagner, além do ex-governador Cláudio Castro. A Wikipédia, em verbete sobre o escândalo, aponta que o RioPrevidência investiu altas quantias no Banco Master, com cifras de R$ 12 bilhões e R$ 2,6 bilhões. A BBC Brasil listou sete perguntas para entender o inquérito do filme Dark Horse, que investiga Flávio desde julho por suposta lavagem de dinheiro e corrupção.

Os candidatos em foco

André Marinho (Novo) — Jornalista e empresário, apresenta-se como o candidato da renovação e da independência, prometendo combater o que chama de banquete da velha política e montar uma equipe de alto gabarito para o resgate do estado.

Douglas Ruas (PL) — Policial civil de carreira e ex-secretário de Estado das Cidades, defende a continuidade com mudanças, o fortalecimento das polícias e a qualificação profissional como caminho para o desenvolvimento.

Eduardo Paes (PSD) — Ex-prefeito do Rio por quatro mandatos, aposta na experiência de gestão e em políticas públicas transversais, da saúde à educação, como diferencial para governar o estado.

William Siri (PSOL) — Vereador do Rio, economista e evangélico, nascido na Baixada Fluminense, defende a reestatização de serviços, a tarifa zero nos trens e a reindustrialização do estado.

Anthony Garotinho (Republicanos) — Ex-governador, ex-prefeito de Campos e radialista, apresenta-se como candidato contra o sistema, com propostas como a reestatização da Cedae e a volta do Cheque Cidadão.

 

Por Jornal da República em 30/09/2026
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