A ARTE E O AUTORITARISMO

A ARTE E O AUTORITARISMO

Siro Darlan, jornalista, advogado e Vice-Presidente da Academia Brasileira de Letras do Cárcere.

A arte pode funcionar como um escudo contra a violência e o autoritarismo porque ela preserva algo que regimes violentos tentam destruir: a capacidade humana de sentir, pensar criticamente e imaginar outros mundos possíveis.

Ao longo da história, governos autoritários quase sempre perseguiram artistas, censuraram livros, músicas, peças e filmes. Isso aconteceu porque a arte tem força para despertar consciência coletiva. Durante a Ditadura Militar no Brasil, músicas de Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano Veloso se tornaram formas de resistência simbólica. Em contextos internacionais, obras de Pablo Picasso, especialmente o quadro Guernica, denunciaram os horrores da guerra e da brutalidade estatal.

Na atualidade, onde é uma dúvida afirmar-se que vivemos numa democracia, não tem sido diferente. Democracia costuma ser o governo do povo, que elege diretamente seus representantes. No Brasil essa falácia é desconstruída pelo próprio processo eleitoral, onde prevalece, como na Velha Republica o poder econômico. Primeiramente o dinheiro do erário é distribuído entre os partidos, e, seus tradicionais “donos” repartem entre os seus familiares e amigos mais próximos, enquanto usam os demais candidatos para preencher exigências burocráticas muitas vezes fraudando exigências legais como as cotas de gênero e de raça. Os eleitores, em geral, com raras exceções não exercem o direito de escolha, mas preferem vender aos “comerciantes eleitorais” fantasiados de candidatos. Não é por outro motivo que fazem as eleições e nada muda porque os que detêm o dinheiro compram os eleitores.

Assim a democracia é apenas um nome nas siglas partidárias: Partido Democrático Trabalhista, já foi, mas não é mais nem democrático, nem trabalhista. Tem dono que não abre mão democraticamente de uma escolha de outro líder qualquer e mantém seu poder despótico e nepótico. Se é assim internamente, o que dizer no campo exterior quando a sigla é objeto de negociações as mais escusas para não perder nunca a “boquinha”.

 

 

 

Onde não há democracia a arte é a resistência. No Brasil a arte periférica sempre foi perseguida por sua origem nos pobres, nos escravizados e nos afrodescendentes. Tivemos a criminalização da capoeira, do samba, dos sambistas e dos artistas das favelas e das periferias. Como consequência da falta de democracia, as artes têm sofrido a histórica perseguição promovida pela aristocracia e seu “capitães do mato”, que são os guardiães do valores da burguesia, representados pelas polícias militares e civis. Temos assistido sem qualquer manifestação dos artistas da classe média e das academias a perseguição e criminalização covarde dos artistas das comunidades mais pobres. Criminalizar e prender os artistas das favelas são uma prática comum, que felizmente tem sido, por enquanto, corrigida pelas instâncias judiciárias. MC Poze já foi preso e solto duas vezes. MC Rian preso e solto pelo crime de sair da pobreza para a riqueza em razão de sua arte. MC. Oruam pelo fato de ter seu pai preso há quase trinta anos e não ter escolhido o caminho pelo qual seu pai está sendo punido, e sim optado p[elas artes, amarga uma covarde perseguição.

Na história de nossa civilização a arte protege contra a violência de várias maneiras: Humaniza quem foi desumanizado: literatura, cinema, teatro e música devolvem rosto e voz às vítimas. Isso impede que a sociedade se acostume com a barbárie. A Academia Brasileira de Letras do Cárcere é um exemplo da ressocialização através da literatura. A arte emerge das trevas de um sistema penitenciário trevoso, desumano, cruel e inconstitucional para a luminosidade e imortalidade de suas obras de altíssima qualidade literária.

Preserva a memória: monumentos, canções e filmes mantêm vivas histórias que regimes autoritários tentam apagar. Cria empatia: quando alguém se reconhece na dor do outro, diminui a indiferença — terreno fértil para a violência. Estimula pensamento crítico: a arte questiona discursos oficiais, ironiza abusos e revela contradições do poder. Oferece pertencimento e esperança: em periferias, prisões e comunidades vulneráveis, oficinas culturais e projetos artísticos frequentemente reduzem a violência ao criar identidade, autoestima e perspectiva de futuro.

Também existe uma dimensão psicológica profunda. O autoritarismo prospera no medo e no silêncio. As invasões desrespeitosas pela policia do ambiente residencial do trabalhador pobre tem o objetivo de impor o medo e manter os dominados coagidos sem poder de resistência. A arte rompe ambos.

Uma canção cantada coletivamente, um grafite num muro, uma peça encenada numa praça ou um poema compartilhado, uma letra de funk que o delegado disse ser mais perigosa do que um tiro de fuzil, podem devolver às pessoas a sensação de dignidade e de participação social.

O educador Paulo Freire defendia que a cultura e a expressão artística ajudam as pessoas a “ler o mundo”, não apenas as palavras. Já Augusto Boal, criador do Teatro do Oprimido, usava o teatro para transformar espectadores em participantes ativos da realidade social.

Em sociedades democráticas, a arte não elimina sozinha a violência ou o autoritarismo. Mas ela fortalece a memória, a sensibilidade e a consciência crítica — trs barreiras essenciais contra qualquer forma de opressão. Por isso mais do que nunca é preciso cantar, cantar e encantar a cidade.

Por Jornal da República em 03/06/2026
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