Aos 95 anos, morre Zuenir Ventura, jornalista, escritor e imortal da ABL

Autor de obras como '1968: o ano que não terminou', Ventura foi um dos maiores nomes do jornalismo brasileiro no século 20

Aos 95 anos, morre Zuenir Ventura, jornalista, escritor e imortal da ABL

O jornalista e escritor Zuenir Ventura, em foto de 2014 (Tomaz Silva/Arquivo/Agência Brasil)

O jornalista e escritor Zuenir Ventura morreu nesta terça-feira, 22/9, aos 95 anos, informou a Academia Brasileira de Letras (ABL). O autor era considerado um dos principais nomes do jornalismo brasileiro no século 20, principalmente por retratar momentos importantes da política e chagas da nossa sociedade em livros-reportagem que marcaram época.

Ventura publicou livros que se tornaram referências do jornalismo brasileiro, como “1968: O ano que não terminou”, “Cidade partida” e “Chico Mendes: crime e castigo” — o primeiro livro vendeu mais de 400 mil cópias e serviu, posteriormente, de base para o escritor Gilberto Braga pensar a minissérie “Anos rebeldes” (1992), produzida pela Globo.

Assim como dezenas de colegas jornalistas, Ventura foi preso durante a ditadura militar. O escritor permaneceu em cárcere por três meses. Décadas depois, ele contou detalhes sobre a experiência em entrevista ao Memória Globo, divulgado em 2021.

“Eu fiquei preso com o psicanalista Hélio Pellegrino. Não fui torturado, embora ficasse sempre com medo, mas acabei fazendo de graça a análise que todo Rio de Janeiro queria fazer. Conversávamos dia e noite. E nessa, ia visitá-lo, todo dia, Nelson Rodrigues. O Nelson era odiado por nós porque apoiava a ditadura. Ele ia lá todo dia, sofrendo, culpado, porque ele gozava o Hélio em suas colunas e se sentiu responsável pela prisão. O Nelson acabou me libertando porque, quando conseguiu soltar o Hélio, o Hélio falou que só sairia se eu também fosse. E fui.”

Nascido em Além Paraíba, Minas Gerais, em 1931, Ventura passou por veículos como Tribuna da Imprensa, Correio da Manhã, O Cruzeiro, Visão, Veja, IstoÉ, Jornal do Brasil e O Globo.

Seu trabalho resultou na eleição para ocupar a cadeira de número 32 na Academia Brasileira de Letras, em 2014, sucedendo Ariano Suassuna. No dia de sua posse, Ventura foi recebido por Cleonice Berardinelli, que foi sua professora na faculdade e, a partir de então, colega imortal.

Zuenir Ventura venceu os dois maiores prêmios de jornalismo do Brasil: o Prêmio Esso e o Vladimir Herzog — cujo troféu foi entregue por Clarice Herzog, viúva de Vlado, amigo seu assassinado pelo regime militar durante a ditadura.

Em 1993, Ventura recebeu um convite de Luiz Schwarcz, editor de livros, para escrever sobre a violência no Rio de Janeiro. Essa é a origem da obra “Cidade partida”, ganhadora do Prêmio Jabuti na categoria Reportagem. O jornalista frequentou a comunidade de Vigário Geral por meses, conversando com moradores para a elaboração da obra que retrata a constante desigualdade social na cidade.

Ventura se tornou colunista do jornal O Globo em 1999. Seus artigos, às quartas e sábados, falavam de assuntos do cotidiano, versando sobre política, cultura e sociedade. Até 2003, ele publicou no Segundo Caderno. Depois, passou para o Primeiro Caderno, na página de Opinião.

Ventura foi eleito “O jornalista do ano” pela Associação dos Correspondentes Estrangeiros em 2010. Com as manifestações que tomaram as ruas do país em 2013, Zuenir escreveu artigos e deu entrevistas com o intuito de interpretar o que estava ocorrendo na sociedade brasileira naquele momento, avaliando as comparações com os movimentos de 1968.

Em 2012, o jornalista mesclou memórias e ficção no livro “Sagrada Família”, sobre os amores que resistem ao tempo e a perda da inocência.

Zuenir Ventura e a apuração histórica sobre a ditadura militar

Em 2008, Zuenir Ventura recebeu da ONU um troféu especial por ter sido um dos cinco jornalistas que “mais contribuíram para a defesa dos direitos humanos no país nos últimos 30 anos”. Durante o período retratado em “1968: o ano que não terminou”, Zuenir Ventura viveu intensamente como jornalista, professor e intelectual no Rio de Janeiro, enfrentando de perto o clima de repressão e o medo gerado pelo regime.

A grande contribuição do livro foi revelar documentos inéditos, como a ata oficial da sessão do Conselho de Segurança Nacional que aprovou o Ato Institucional nº 5. Contando com uma apuração refinada, o autor argumenta na obra que o ano de 1968 não terminou por ter gerado feridas, traumas e debates sobre a democracia e a liberdade que perduram na sociedade brasileira até hoje.

Homenagem da Abraji

Zuenir Ventura foi homenageado no 13º Congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) em 2018. O evento contou com a exibição de um mini-documentário biográfico produzido pela entidade sobre a trajetória do jornalista na imprensa brasileira.

Durante o discurso, Ventura elogiou profundamente o papel da Abraji na sobrevivência institucional da imprensa. Afirmou que a associação indicava o antídoto correto contra os ataques sofridos pelo jornalismo, divididos entre a ação descontrolada das redes sociais e a hostilidade de governos autoritários.

Zuenir também reiterou a visão de que o jornalismo deve atuar como uma “testemunha crítica de seu tempo”, e defendeu a profissão ao declarar que “não existe democracia sem imprensa livre. E tem que ser uma imprensa crítica”.

Por Jornal da República em 23/09/2026
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