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A segurança que vai além: quando a polícia protege também os animais.
O I Simpósio de Segurança Pública de Vassouras, realizado nos dias 11 e 12 de junho no Centro de Convenções General Sombra, trouxe uma perspectiva diferente sobre o conceito de segurança pública. Não se tratava apenas de debater violência urbana ou criminalidade tradicional — era também reconhecer que proteção ambiental e bem-estar animal são dimensões fundamentais de uma sociedade segura.
O Comando de Policiamento Ambiental da Polícia Militar do Rio de Janeiro marcou presença com exposição que reunia animais taxidermizados e vivos, transformando o simpósio em espaço de educação e conscientização. Subtenente Constantino e Sargento Vargas apresentaram trabalho que transcende policiamento convencional: é educação, é prevenção, é mudança de mentalidade.
"Nós somos policiais militares, porém de um batalhão especialista em crimes ambientais, em combater os crimes ambientais", explicou Subtenente Constantino, marcando diferença fundamental. Não é apenas repressão — é especialização em área que frequentemente fica invisibilizada nas discussões sobre segurança pública.
Centro de Educação Ambiental: quando a polícia vira professora.
Dentro do Comando de Policiamento Ambiental existe estrutura que poucos conhecem: o Centro de Educação Ambiental. Não é departamento burocrático — é programa ativo que leva educação ambiental para escolas, comunidades e eventos públicos.
"A gente traz os nossos animais taxidermizados para fazer uma educação ambiental e mostrar também para as pessoas que esses animais que convivem na nossa Mata Atlântica, eles existem para que não maltratem e façam qualquer tipo de maldade com os animais", detalhou Constantino, explicando metodologia que combina exposição com conscientização.
A estratégia é simples, mas eficaz: pessoas não têm contato regular com fauna silvestre. Desconhecimento gera desprezo. Desprezo gera maus-tratos. Educação gera respeito. Respeito gera proteção.
A exposição apresentada em Vassouras incluía espécies que raramente são vistas em contexto educativo: tatu-galinha, gato-do-mato, paca, pinguim-de-Magalhães, sagui, jararaca, cobra-coral e gibóia. Cada animal era oportunidade de aprendizado sobre importância ecológica, habitat natural e necessidade de preservação.
Programa nas escolas: educação ambiental como ferramenta de transformação social.
O alcance do programa vai além de eventos pontuais. Existe convênio estabelecido com redes municipais, estaduais e colégios particulares que permite levar educação ambiental diretamente para salas de aula.
"Nosso programa de educação ambiental é um projeto voltado também para as crianças, eh, tanto das redes municipais, estaduais e alguns colégios particulares. Nós temos um convênio de poder levar esses animais e também eh fornecer aos alunos do sexto ano uma educação ambiental", explicou Sargento Vargas.
A escolha do sexto ano não é aleatória. É momento em que crianças desenvolvem capacidade crítica mais sofisticada, conseguem compreender conceitos de ecologia e sustentabilidade, e ainda estão em fase formativa, em que valores podem ser consolidados.
"Qualquer nação, a grande importância de se passar uma boa educação, conhecimento para as crianças, porque elas serão o futuro, né, de toda a nação, de um país, enfim, tudo começa com criança", afirmou Constantino, articulando visão que transcende segurança ambiental imediata para pensar em transformação social de longo prazo.
Dados da Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade do Rio de Janeiro indicam que aproximadamente 40 mil crianças por ano participam de programas de educação ambiental em escolas públicas estaduais. O programa do Comando de Policiamento Ambiental representa parcela significativa desse esforço.
Crimes ambientais: complexidade que exige especialização.
Sargento Vargas articulou ponto crucial frequentemente negligenciado em discussões sobre segurança pública: crimes ambientais são fenômeno complexo que envolve múltiplas dimensões.
"O comando de polícia ambiental foca contra crimes ambientais, né, que é uma área muito complexa. "Os animais fazem parte dessa complexidade que envolve os crimes", explicou Vargas, reconhecendo que maus-tratos animal, caça ilegal, tráfico de fauna e destruição de habitat são crimes que exigem investigação especializada.
Segundo dados do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), o Brasil registra aproximadamente 1.200 denúncias de crimes ambientais por mês. Desses crimes, os contra a fauna representam cerca de 35% do total. Tráfico de animais silvestres movimenta bilhões de reais anualmente, ficando atrás apenas de tráfico de drogas e armas em volume de negócios ilícitos.
O Comando de Policiamento Ambiental do Rio de Janeiro, criado em 1991, é uma das unidades mais especializadas do país em combate a crimes ambientais. Possui estrutura de investigação, perícia ambiental e educação que permite atuar tanto na repressão quanto na prevenção.
Mata Atlântica: bioma sob pressão que exige proteção urgente.
A Mata Atlântica, mencionada por Constantino como habitat dos animais apresentados, é um dos biomas mais ameaçados do planeta. Originalmente cobria aproximadamente 1,3 milhão de quilômetros quadrados. Atualmente, restam apenas 12% dessa cobertura original.
No Rio de Janeiro, a Mata Atlântica enfrenta pressão contínua de urbanização, especulação imobiliária e exploração ilegal de recursos. Espécies como gato-do-mato, paca e tatu-galinha enfrentam perda progressiva de habitat.
"Se nós vermos o animal, deixem-no onde ele está, porque, na verdade, é o habitat dele. E peço para não caçarem, para não maltratarem, fazerem qualquer tipo de maldade com esses animais", pediu Constantino, articulando princípio fundamental de conservação: respeito ao espaço natural do animal.
Pesquisa realizada pela Fundação SOS Mata Atlântica em 2024 indicou que 84% dos brasileiros apoiam políticas de proteção ambiental. Porém, apenas 23% conseguem nomear três espécies de animais que vivem em seu bioma local. Educação ambiental é ferramenta crucial para transformar apoio abstrato em ação concreta.
Mensagens diretas: quando a polícia fala com clareza.
Sargento Vargas deixou mensagem direta para criminosos ambientais: "O comando de policiamento ambiental está de olho em vocês. Não cometam crimes."
Mensagem não era ameaça vazia. É reconhecimento de que crime ambiental é crime real, com consequências legais. Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/1998) prevê penas de até 5 anos de prisão para maus-tratos a animais, até 3 anos para caça ilegal e até 4 anos para tráfico de fauna.
Subtenente Constantino ofereceu mensagem complementar, mais educativa que punitiva: "Eu peço para que não maltratem qualquer tipo de animal, tanto silvestre como doméstico. Eu peço sempre que tenham o máximo de cuidado."
Dualidade de mensagens reflete estratégia equilibrada: repressão para quem comete crime, educação para quem pode ser prevenido. Ambas são necessárias.
I Simpósio de Segurança Pública: quando segurança ganha dimensão ambiental.
O I Simpósio de Segurança Pública de Vassouras reuniu autoridades, especialistas e sociedade civil para debater estrutura, desafios e perspectivas de segurança no município e no estado do Rio de Janeiro.
Programação incluiu palestras sobre políticas públicas eficientes, integração entre forças de segurança municipais e estaduais, atuação policial, prevenção da violência e segurança digital.
Presença do Comando de Policiamento Ambiental marcou reconhecimento de que segurança pública é conceito multidimensional.
Não é apenas segurança contra crime convencional — é também segurança ambiental, segurança alimentar, segurança de ecossistemas que sustentam vida humana.
Entrada foi gratuita e aberta a toda população, democratizando acesso a conhecimento sobre segurança pública. Segundo organizadores, evento reuniu aproximadamente 800 participantes nos dois dias.
Perspectivas futuras: expandindo educação ambiental
Subtenente Constantino e Sargento Vargas não apresentaram apenas trabalho realizado — apresentaram visão de futuro. Programa de educação ambiental continua expandindo, alcançando mais escolas, mais crianças, mais comunidades.
Desafio é significativo. Rio de Janeiro possui aproximadamente 1.500 escolas públicas estaduais e municipais. Programa atual alcança fração dessa população. Expansão exigiria recursos adicionais, mais policiais treinados em educação ambiental, mais animais para exposição.
Porém, o retorno é mensurável. Crianças que participam de programa de educação ambiental apresentam maior consciência sobre proteção animal, maior disposição para denunciar maus-tratos e maior engajamento em atividades de conservação.
Pesquisa realizada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2023 com 500 crianças que participaram de programa de educação ambiental indicou que 78% mudaram comportamento em relação a animais após participação, 65% conversaram com familiares sobre proteção ambiental e 42% participaram de atividades de limpeza ambiental.
Sobre o Comando de Policiamento Ambiental
O Comando de Policiamento Ambiental (CPA) é unidade especializada da Polícia Militar do Rio de Janeiro dedicada ao combate de crimes ambientais. Criado em 1991, o CPA possui estrutura de investigação, perícia ambiental e educação que permite atuar tanto na repressão quanto na prevenção de crimes contra fauna, flora e ecossistemas.
O Centro de Educação Ambiental, inserido no CPA, desenvolve programa de educação ambiental que alcança escolas municipais, estaduais e particulares por meio de exposição de fauna e aulas sobre proteção ambiental. O programa atua especialmente com alunos do sexto ano, fase crítica de formação de valores ambientais.
Subtenente Constantino e Sargento Vargas representam geração de policiais que compreende que segurança pública transcende repressão de crime convencional. É também educação, é prevenção, é transformação de mentalidade. É reconhecimento de que proteção ambiental é proteção de futuro.

Por Ralph Lichotti e Robson Talber @robsontalber
Repórter Oscar Muller @oscarmulleroficial
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