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A verdade como ponte: o elogio de Lula a Otoni de Paula e o voto do ex-bolsonarista em Benedita reescrevem as fronteiras políticas no Rio

Em vídeo que circula nas redes, o presidente pede ao deputado pastor que continue falando a verdade "porque a verdade é a palavra de Deus"; na sequência, Otoni explica por que declarou voto à candidata ao Senado: "Bené é limpa, Bené é honesta"
O abraço que atravessa a polarização
Um encontro que parecia impensável há dois anos se consolidou em gesto público com ares de marco histórico. Em vídeo que passou a circular nas redes sociais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva dirige-se ao deputado federal Otoni de Paula com palavras que transcendem a disputa eleitoral e alcançam o terreno da afetividade política. "Meu caro Otoni, eu sei que você está sofrendo muita pressão e muitas críticas por falar a verdade, por ter coragem de falar a verdade num país que tem muita gente que prefere a mentira", afirmou o presidente.
A cena, registrada em evento recente, ganhou repercussão imediata entre evangélicos e anti-petistas. Lula não se limitou ao elogio: pediu que o deputado continue no mesmo caminho, com uma justificativa que dialoga diretamente com a fé do interlocutor. "Continue falando a verdade. Primeiro, porque a verdade é a palavra de Deus. Segundo, porque tem muita gente boa nesse país que gosta de quem fala a verdade. Essas pessoas certamente reconhecem o trabalho que você está fazendo."

A aproximação que começou em 2024
O gesto não é fruto do acaso. A relação entre o presidente e o pastor evangélico começou a se desenhar em outubro de 2024, quando Otoni de Paula — então filiado ao MDB e até pouco tempo fiel ao bolsonarismo — participou da sanção da lei que instituiu o Dia Nacional da Música Gospel, no Palácio do Planalto. Na ocasião, o deputado surpreendeu ao elogiar Lula publicamente e declarar que os evangélicos "não têm dono".
Em dezembro de 2025, a aproximação ganhou contornos simbólicos: o pastor do Ministério Missão de Vida recebeu o presidente no Palácio do Planalto e orou por ele, em imagem que correu o país. Lula, por sua vez, respondeu com o afago que agora se repete. O vaivém entre crítica e afeto virou roteiro de uma reaproximação que a política brasileira acompanha com atenção desde então.
O preço de falar a verdade
As declarações de Otoni, no entanto, têm custo. Ao elogiar Lula e defender o movimento que batizou de "Direita com Lula", o deputado passou a ser atacado por antigos aliados. O próprio presidente reconheceu o desgaste do interlocutor. Em manifestações recentes, Lula disse que os bolsonaristas estão "triturando" Otoni de Paula por causa das declarações em favor da aproximação.
O deputado, que já foi fiel apoiador do ex-presidente Jair Bolsonaro, mudou o tom ao longo do atual ciclo eleitoral. No primeiro turno da disputa presidencial, prega voto no ex-governador Ronaldo Caiado, do PSD — partido a que hoje é filiado. Em eventual segundo turno contra Flávio Bolsonaro, afirma que votaria em Lula. A posição, rara entre parlamentares da bancada evangélica, o transformou em alvo de críticas e em personagem cada vez mais frequente do noticiário político.
Por que Otoni declara voto a Benedita
No mesmo vídeo, Otoni de Paula abre o jogo sobre uma decisão que vinha sendo cobrada pelos eleitores: por que declarar voto a Benedita da Silva, candidata do PT ao Senado pelo Rio de Janeiro? A resposta, segundo o deputado, começa pela trajetória. "Quando eu declaro o meu voto à Benedita da Silva, eu estou declarando o voto a uma mulher extraordinária, que está há tanto tempo na vida pública sem um vestígio da lama da corrupção", afirmou.
O pastor foi além e usou uma expressão que rapidamente se espalhou nas redes: "Bené é limpa, Bené é honesta". Para Otoni, a candidata não aparece em nenhum dos escândalos que marcaram a política fluminense, nem nas listas de investigados por esquemas de corrupção, nem nos casos envolvendo instituições bancárias sob suspeita. A declaração, inusitada vinda de um parlamentar de origem bolsonarista, reforça o movimento de reaproximação entre o líder evangélico e o campo que historicamente esteve em posição oposta.
A mulher que atravessa décadas sem lama
Benedita da Silva carrega uma das trajetórias mais simbólicas da política brasileira. Foi a primeira senadora negra do país, vereadora, deputada federal constituinte e governadora do Rio de Janeiro. Em 2026, disputa uma vaga no Senado pelo PT com o número 131, liderando as pesquisas para a cadeira fluminense — no levantamento Datafolha mais recente, aparecia à frente na corrida, com 18%.
O elogio de Otoni encontra eco na própria história da candidata, marcada pela atuação nas comunidades e por décadas de serviço público sem questionamentos graves quanto à probidade. A aliança informal, selada nas redes com a mensagem de Benedita ao deputado — "Com você na Câmara e comigo no Senado, o Rio tem jeito" — desenha uma ponte improvável entre o PT e um segmento do eleitorado evangélico que a sigla historicamente perdeu para a direita.
O gesto que pode custar caro
A aproximação, porém, não passa despercebida nos dois lados do espectro político. Para a base bolsonarista, a postura de Otoni representa traição a um projeto que ele ajudou a construir; para setores da esquerda, a aliança com um ex-aliado de Bolsonaro ainda levanta desconfianças. O deputado, no entanto, parece disposto a pagar o preço. "Continue falando a verdade", pediu Lula. "Muito obrigado, presidente. Muito obrigado, de verdade", respondeu o pastor.
O episódio sintetiza a natureza fluida da disputa de 2026, em que lealdades históricas se rearranjam e o eleitorado evangélico — decisivo em qualquer cenário nacional — observa com atenção os movimentos de suas lideranças. Entre a pressão dos antigos aliados e o afago do Planalto, Otoni de Paula escolheu um caminho próprio, e o vídeo que registra o gesto já entrou para o repertório de uma campanha marcada por reviravoltas.
Biografia: Otoni de Paula
Otoni de Paula é deputado federal pelo estado do Rio de Janeiro e pastor evangélico fundador do Ministério Missão de Vida, na capital fluminense. Radialista de formação, construiu carreira política a partir da comunicação e da liderança religiosa, elegendo-se pela primeira vez em 2018 e sendo reeleito em 2022, quando obteve mais de 158 mil votos. Filiado ao PSD, foi durante anos um dos nomes mais visíveis da bancada evangélica alinhada ao bolsonarismo, antes de iniciar, em 2024, um movimento de aproximação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva — a quem elogiou publicamente na sanção da lei do Dia Nacional da Música Gospel e por quem chegou a orar no Palácio do Planalto em 2025. Defensor do movimento "Direita com Lula", tornou-se uma das vozes mais controversas da atual eleição ao pregar voto em Ronaldo Caiado no primeiro turno e sinalizar apoio a Lula em eventual segundo turno, além de declarar voto à candidata ao Senado Benedita da Silva. Sua atuação parlamentar é marcada pela defesa da liberdade religiosa, da pauta evangélica e de causas sociais, e ele se apresenta nas redes como "um discípulo de Jesus comprometido com a verdade".
Fontes
CNN Brasil — "Líder evangélico que apoiou Bolsonaro elogia Lula e pede aproximação 'sem reservas'" (15/10/2024) | CNN Brasil — "Em segundo turno com Flávio, deputado evangélico defende 'direita com Lula'" (29/07/2026) | Gazeta do Povo — "Deputado evangélico defende movimento 'Direita com Lula'" (30/07/2026) | Valor Econômico — "Otoni de Paula vai ao Planalto, elogia Lula e diz que evangélicos não têm dono" (15/10/2024) | Congresso em Foco — "Lula recebe oração do deputado Otoni de Paula, ex-bolsonarista" (24/12/2025) | Veja — "O dia em que Otoni de Paula encontrou Lula em Brasília" | G1 — Ficha da candidata Benedita da Silva ao Senado (PT, 131) | Datafolha — Pesquisa para o Senado no Rio de Janeiro (18%) | CNN Brasil — "Lula: bolsonaristas estão 'triturando' Otoni de Paula" | Instagram — @otonidepaulaoficial
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