Assine nossa newsletter e fique por dentro de tudo que rola na sua região.
Deputado-pastor que virou réu no STF por ataques a Moraes agora coleciona alta, perdão público, patrimônio quase 300 vezes maior e um movimento inédito: a "direita com Lula". A pergunta das urnas é se a verdade — e o voto — vão acompanhá-lo.
A cena que correu o Brasil
O vídeo circula nas redes e provoca reações opostas. Em uma gravação que ganhou as timelines, o presidente da República se volta ao deputado federal e pastor Otoni de Paula (PSD-RJ) e o encoraja em meio às críticas que recebe. "Eu sei que você está sofrendo muita pressão por falar a verdade, por ter coragem de falar a verdade num país que tem muita gente que prefere a mentira", diz o interlocutor. "Continue falando a verdade. Primeiro, porque a verdade é a palavra de Deus. Segundo, porque tem muita gente boa nesse país que gosta de quem fala a verdade."
A resposta de Otoni é curta e direta, no tom que marcou sua guinada política nos últimos dois anos: "Muito obrigado, presidente."
A cena não acontece no vazio. Em dezembro de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva publicou um vídeo ao lado de Otoni, de mãos dadas, durante uma oração no Palácio do Planalto, após a assinatura do decreto que reconheceu a cultura gospel como manifestação cultural do país. A imagem do pastor evangélico — ex-aliado de Jair Bolsonaro — orando pelo petista foi tratada como marco de uma aproximação até então impensável.
Uma trajetória de ruído e conversão
Otoni Moura de Paula Júnior nasceu em Niterói, em 1976, é pastor da Assembleia de Deus, radialista, casado e pai de três filhos. Entrou na Câmara em 2019 pelo PSC, foi reeleito em 2022 pelo MDB — com cerca de 158 mil votos — e hoje disputa o terceiro mandato pelo PSD, número 5550.
Foi um dos parlamentares mais estridentes da base bolsonarista. Durante o governo de Jair Bolsonaro, ocupou posição de liderança na base aliada e protagonizou embates públicos com adversários. Em novembro de 2025, porém, declarou arrependimento por ter tratado Bolsonaro como "mito" e afirmou que preferia "andar sozinho do que mal acompanhado", sinalizando a ruptura definitiva.
A conversão política se completou em julho de 2026, quando declarou à imprensa que defenderia a criação de um movimento batizado de "direita com Lula" e que votaria no petista em um eventual segundo turno contra Flávio Bolsonaro (PL).
O preço jurídico das palavras
A travessia, porém, tem um passivo que não depende de arrependimento: o processo penal em curso no Supremo Tribunal Federal. A Procuradoria-Geral da República denunciou Otoni por ofensas ao ministro Alexandre de Moraes proferidas em lives nas redes sociais em 2020, quando o chamou de "lixo", "canalha" e "déspota".
Em junho de 2023, o STF recebeu a denúncia por unanimidade, afastando a tese de imunidade parlamentar. O entendimento do plenário foi o de que manifestações veiculadas em transmissões na internet não estão protegidas pelo manto constitucional da inviolabilidade de opinião do parlamentar — um precedente relevante para a interpretação do artigo 53 da Constituição Federal.
| Crime apontado | Conduta narrada | Fundamento legal | Situação |
|---|---|---|---|
| Difamação | Atribuir fatos ofensivos em lives | Art. 139 do Código Penal | Réu no STF |
| Injúria | Xingamentos a ministro | Art. 140 do Código Penal | Réu no STF |
| Coação no curso do processo | Ameaças ligadas ao processo | Art. 344 do Código Penal | Réu no STF |
Como o foro é privilegiado, a ação tramita na Corte Suprema, o que eleva a gravidade: uma condenação pode repercutir não apenas no processo em si, mas na própria elegibilidade e no mandato parlamentar.
Perdão público, processo vivo
Em junho de 2025, Otoni encontrou-se pessoalmente com Alexandre de Moraes e pediu desculpas pelas ofensas. O gesto foi noticiado como uma tentativa de acordo de não persecução penal, alternativa que poderia evitar a perda de mandato.
Mas a Procuradoria-Geral da República se manifestou contra o encerramento precoce: sustenta que as desculpas não excluem os delitos de injúria e coação no curso do processo. Em julho de 2026, o ministro Kassio Nunes Marques, relator do caso, manteve o processo em andamento, já em fase de alegações finais — etapa que antecede a decisão final da Corte.
O caso se tornou um dos testes mais delicados da atual legislatura: um deputado que pediu perdão, virou réu e, no mesmo período, aproximou-se do Planalto que hoje comanda o país.
As contas que saltaram quase 300 vezes
A reeleição de 2026 também expôs Otoni a um novo tipo de pressão. Ao registrar a candidatura, ele declarou ao Tribunal Superior Eleitoral patrimônio de R$ 5.487.552,64 — quase 300 vezes os R$ 18,3 mil informados em 2022. Na primeira eleição, em 2018, a declaração era de nenhum bem.
A maior fatia vem de um apartamento avaliado em R$ 4,44 milhões, além de dois veículos — um deles de R$ 415 mil. O deputado atribuiu o crescimento a um financiamento imobiliário de longo prazo, mencionando uma dívida de 30 anos. O salto virou pauta de veículos como Poder360, CNN Brasil, Metrópoles e InfoMoney, e alimentou o debate sobre a evolução patrimonial de parlamentares em poucos mandatos.
A aposta de 2026
No tabuleiro eleitoral, Otoni tenta capitalizar a nova identidade. Declarou apoio à pré-candidatura presidencial de Ronaldo Caiado (PSD), seu correligionário, e intensificou o confronto com a família Bolsonaro: em maio de 2026, chamou Flávio Bolsonaro de "batedor de carteira" após o vazamento de áudios sobre o financiamento de um filme biográfico do ex-presidente.
O movimento "direita com Lula" o coloca em posição curiosa: conservador em pautas de costumes, mas disposto a dialogar com o governo que sua antiga base combate. Apoiadores o chamam de "homem da verdade"; críticos, de oportunista. A frase do presidente em Jacarepaguá, em fevereiro de 2026, ecoa o discurso do deputado: "2026 será o ano em que a verdade vai destruir a mentira."
Conclusão: falar a verdade ainda custa caro
O percurso de Otoni de Paula condensa a volatilidade da política brasileira: quem ocupou o centro do bolsonarismo hoje ora com o Planalto, pede perdão a um dos ministros que combateu e disputa um terceiro mandato sob questionamentos sobre patrimônio e passivo judicial. A célebre frase atribuída a Abraham Lincoln segue atual: "Você pode enganar todas as pessoas por algum tempo, mas não pode enganar todas as pessoas o tempo todo."
No Rio de Janeiro, a verdade que o deputado diz defender será testada nas urnas — e, antes disso, nos plenários do Supremo. A travessia de Otoni é, ao mesmo tempo, uma história de coragem, de perdão e de risco: poucos políticos brasileiros transformaram tão rápido o próprio epitáfio.
#OtoniDePaula #DireitaComLula #VerdadeLiberta #Eleicoes2026 #Lula #CamaraDosDeputados #STF #PoliticaBrasileira #FeNaPolitica #RioDeJaneiro
Nenhum comentário. Seja o primeiro a comentar!