Érica Nunes: da sobrevivência à transformação, a mulher que elevou a barbearia à arte competitiva mundial

Idealizadora da Batalha dos Barbeiros transforma 13 anos de competição em movimento global que resgata vidas e dignifica profissão

Do Arco da Lapa para o mundo: a abertura da Copa Mundial de Barbearia.

O Arco da Lapa, um dos pontos turísticos mais icônicos do Rio de Janeiro, foi palco de um evento que transcende a simples competição de técnica capilar.

A abertura da primeira etapa da Batalha dos Barbeiros Mundial 2026 reuniu centenas de profissionais, admiradores da arte e histórias de transformação pessoal.

No centro dessa celebração está Érica Nunes, idealizadora do movimento que, em 13 anos, elevou a barbearia de prática marginalizada a fenômeno cultural internacional.

"A batalha existe há 13 anos, naquela época em que ninguém queria saber de barbeiros, e vamos fazer uma competição de barbeiros.

Vamos ver o que vai dar. E deu nisso aí", relata Érica, com a segurança de quem viu sua visão se materializar em escala global.

O que começou como aposta ousada em um setor desprestigiado transformou-se em movimento que atravessa fronteiras. Em 2026, a Batalha dos Barbeiros não é apenas brasileira, é mundial.

"Em 2026, a gente tá fazendo a abertura da batalha mundial, aqui na Lapa, ponto turístico do Rio de Janeiro, onde a gente tá comemorando a Copa do Mundo, trazendo muita energia pra gente levar mais uma Copa", afirma Érica, conectando o evento à celebração maior do futebol brasileiro.

Uma trajetória que transcende números: 13 anos de competição, 14 etapas em 2026.

Os números impressionam. Desde sua criação, a Batalha dos Barbeiros cresceu exponencialmente. Em 2026, o calendário inclui 14 etapas distribuídas por cidades brasileiras e internacionais. "Esse ano a gente vai fazer México, Bolívia."

"Então, a gente está bem animado de levar barbeirada para essa grande competição", comenta Érica.

O mapa de expansão revela ambição sem precedentes no setor. Além do Rio de Janeiro, a competição passará por São Paulo, Minas Gerais, Recife, Natal, México, Bolívia e Peru. Cada cidade representa oportunidade de descobrir novos talentos, validar técnicas regionais e criar rede de profissionais conectados por paixão comum.

"Você hoje já tem a segunda cidade da segunda etapa. São Paulo vai ser o segundo. Gerais. "É, vamos passar por São Paulo, Minas Gerais, Recife, Natal, México, Bolívia e Peru", detalha Érica, revelando escopo que transcende fronteiras nacionais.

Resgate social por meio da arte: elevando barbeiros da margem para o palco.

Quando Érica fala sobre sua missão, a linguagem muda. Não é apenas sobre competição técnica, é sobre dignidade profissional e resgate social. "Essa mulher fez com que o barbeiro saísse do asfalto e viesse melhor, saísse da comunidade e viesse para lá", observa o entrevistador, capturando a essência do movimento.

A Batalha dos Barbeiros não é competição que exclui, é plataforma que inclui. Profissionais que trabalham em ruas, comunidades e periferias ganham visibilidade, reconhecimento e oportunidade de competir em pé de igualdade com barbeiros de salões premium.

Essa democratização da arte é revolucionária em um setor historicamente marcado por hierarquias de classe.

"A batalha dos barbeiros é uma oportunidade, né, que a gente dá pros barbeiros", afirma Érica, resumindo a filosofia que move o movimento. Mas há mais há história pessoal que informa essa missão.

A sobrevivente que se recusa a ser vítima: Érica e o massacre da Candelária.

A trajetória de Érica Nunes não começa na barbearia. Começa em 1993, no massacre da Candelária, um dos episódios mais sombrios da história recente do Rio de Janeiro.

Érica era criança de rua, uma das oito crianças e adolescentes assassinados por um grupo de policiais militares em ação que chocou o Brasil e o mundo.

"Eu sou sobrevivente da Chacina da Candelária, então um dia eu tive oportunidade na vida e hoje a gente gera oportunidade", revela Érica, transformando trauma em missão.

O massacre da Candelária, ocorrido em 23 de julho de 1993, deixou feridas profundas na sociedade brasileira. Oito menores foram mortos, alguns dormindo nas ruas próximas à Igreja da Candelária.

A chacina foi investigada, processada e condenada, mas o trauma permaneceu. Érica foi uma das poucas sobreviventes que conseguiu escapar com vida.

O que torna sua história extraordinária não é apenas sobrevivência, é recusa em se vitimizar. "Essa trajetória de vida, ela poderia se vitimizar porque ela é uma daquelas sobreviventes que estavam lá no que aconteceu. Mas ela não fez isso.

Ela levantou a cabeça e mostrou para você também que você tem a grande oportunidade na sua vida", observa o entrevistador com admiração genuína.

De vítima a agente de transformação: a filosofia de Érica

A escolha de Érica em não se vitimizar é ato de resistência. Muitos sobreviventes de trauma coletivo optam pelo silêncio ou pela amargura.

Érica escolheu ação. Escolheu criar oportunidade para outros que, como ela, nasceram em contextos de vulnerabilidade.

"A vida existe para isso, para você vencer dificuldades. "E ela fez isso", resume o entrevistador, capturando a essência da transformação pessoal que Érica representa.

Essa filosofia permeia cada aspecto da Batalha dos Barbeiros. Não é apenas competição, é movimento de inclusão social que oferece plataforma para profissionais que historicamente foram marginalizados.

Barbeiros de comunidades, de ruas, de periferias ganham visibilidade e oportunidade de competir em igualdade.

Categorias de excelência: Corte Tradicional, Fade e Freestyle.

A Batalha dos Barbeiros reconhece múltiplas formas de excelência na barbearia. As categorias principais, Corte Tradicional, Fade e Freestyle (Desenho), refletem diversidade técnica e criativa do setor.

O Corte Tradicional celebra técnica clássica, precisão e respeito à história da profissão. O fade, técnica que exige domínio de transições suaves entre comprimentos, representa modernidade e sofisticação.

O Freestyle, ou Desenho, é espaço para criatividade pura, onde barbeiros transformam cabeça em tela de arte.

Cada categoria atrai profissionais diferentes, refletindo que excelência em barbearia não é monolítica, é plural, diversa, inclusiva.

Prêmios que validam: ultrapassando R$ 50 mil em premiações.

A Batalha dos Barbeiros não é competição amadora. Premiações que ultrapassam R$ 50 mil refletem seriedade e reconhecimento do setor.

Esses prêmios não são apenas dinheiro, são validação de talento, reconhecimento de dedicação e oportunidade de investir em negócio próprio ou aperfeiçoamento profissional.

Para barbeiros que trabalham em comunidades com renda limitada, essas premiações representam mudança de vida.

Não é exagero dizer que vitória em Batalha dos Barbeiros pode transformar trajetória profissional e pessoal de um competidor.

Locais icônicos como palco: Arco da Lapa, Parque de Madureira e além.

A escolha de locais para realização da Batalha dos Barbeiros não é casual.

O Arco da Lapa, ponto turístico que atrai milhares de visitantes, transforma competição em evento cultural que transcende comunidade de barbearia.

Por Robson Talber, @robsontalber, repórter Henrique Pianta, @piantahp.

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Por Jornal da República em 09/06/2026
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