Garotinho é oficializado candidato e promete enfrentar 'sistema' que protege corruptos

Com Crivella na chapa e ameaças de morte, Garotinho volta ao jogo eleitoral do Rio após mais de duas décadas

Republicanos oficializa Garotinho para o Governo do Rio em convenção que reúne Crivella e Rosinha

Ex-governador faz discurso de tom beligerante, denuncia ameaça de morte e promete "enfrentar o sistema" em uma das disputas mais polarizadas do estado

Convenção e alianças

O Republicanos oficializou na tarde deste sábado (25) a candidatura do ex-governador Anthony Garotinho ao Palácio Guanabara. A convenção estadual, realizada na Tijuca, Zona Norte do Rio, reuniu lideranças como o senador Marcelo Crivella (Republicanos), que disputará uma vaga ao Senado na chapa majoritária, e a ex-governadora Rosinha Garotinho, que retorna à cena política como peça central da articulação dos programas sociais da campanha.

O evento marca a volta de Garotinho à arena eleitoral após 24 anos do seu último mandato como governador. Ele governou o estado entre 1999 e 2002 e, desde então, acumulou passagens como deputado federal (2011-2015) e secretário de Segurança Pública durante o governo de sua mulher, Rosinha Garotinho (2003-2004). A candidatura foi aprovada por unanimidade pela executiva estadual do partido no último dia 20 e confirmada em convenção.

Ao lado de Crivella, Garotinho pregou união das forças conservadoras e disse que a chapa representa "o único palanque capaz de enfrentar a corrupção e o crime organizado no estado".

O discurso e o tom da campanha

Em um discurso marcado por frases de efeito e provocações diretas a adversários, Garotinho afirmou que a convenção "dividiu claramente os palanques do Rio de Janeiro". Segundo ele, o eleitor terá que escolher entre dois projetos: "Quem quer combater a corrupção, o palanque que tem é esse aqui. Agora, quem quiser continuar sendo mandado por miliciano, por traficante, envolvido com esses corruptos, pode escolher lá."

O candidato fez referência direta ao ex-prefeito Eduardo Paes (PSD), que lidera todas as pesquisas de intenção de voto. Levantamento do instituto Gerp divulgado no último dia 21 mostra Paes com maioria das intenções, e Garotinho em segundo.

"Tem o palanque do Eduardo Paes, tem o palanque de outros — até de pessoas boas, honestas — mas não tem chance. Quem tem chance de vencer, enfrentar o sistema, sou eu", disse o candidato do Republicanos "Ou vota comigo ou os caras vão de novo", sentenciou.

Ameaça de morte e falta de segurança

Um dos momentos mais tensos da entrevista concedida pelo ex-governador a um programa de análise política ocorreu quando Garotinho revelou detalhes de uma ameaça de morte que teria sofrido. Segundo ele, o deputado estadual Rodrigo Bacellar (União), presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), teria contratado alguém para atirar contra ele.

"Eu publiquei um print do telefone dele, contratando o cara para dar tiro em mim. E, aliás, deu — só não acertou. Acertou na segurança do carro", declarou. Bacellar foi preso em dezembro de 2025 na Operação Unha e Carne, da Polícia Federal, acusado de vazar informações sigilosas de operações policiais, e é alvo de convocação para depor na CPI do Crime Organizado no Senado.

Garotinho criticou duramente a falta de proteção que diz receber do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) do estado. "O cara que mais botou dinheiro de volta nos cofres do estado fui eu, na medida em que denunciei gente que estava roubando. Eu não tenho direito a ter policiais para guardar minha vida, mesmo tendo ameaça de morte explícita."

A crítica se estendeu à gestão de Castro. "O governador atual, embora tenha tomado algumas medidas importantes, não me dá segurança. Não sei o que há lá no GSI."

A comparação com Cabral e a crítica ao sistema

O ex-governador fez uma comparação direta com o ex-governador Sérgio Cabral, condenado a mais de 200 anos de prisão por corrupção. "O Cabral, com os filhos envolvidos com máfia do cigarro, tem direito à segurança e eu não? O cara que roubou o estado está andando com segurança do Estado", afirmou, em referência a benefícios que Cabral ainda teria. "Parece aqui no Rio uma coisa engraçada: ser ladrão é prêmio, ser honesto é castigo."

A declaração reflete a estratégia de Garotinho de se apresentar como vítima de um sistema político que, segundo ele, protege corruptos e persegue quem denuncia. A CPI do Crime Organizado do Senado, presidida pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE), já o convidou como potencial denunciante em investigações que miram Bacellar e outros alvos.

Os programas sociais e o legado

Rosinha Garotinho, que governou o estado entre 2003 e 2006, teve papel de destaque na convenção ao assumir o compromisso de retomar os programas sociais que marcaram a gestão do casal. "Certamente os programas sociais que havia no governo Garotinho e no meu, como o Restaurante Popular, que estão muitos abandonados, o Cheque Cidadão, a Sopa da Cidadania — onde todas as instituições que trabalhavam com idosos e com deficientes recebiam suplemento alimentar — e muitos outros, como Jovens pela Paz e Reservistas da Paz, tudo isso precisa voltar", listou.

A ex-governadora foi recebida com entusiasmo pelos convencionais. Sua atuação na área social entre 2003 e 2006 é um dos trunfos da campanha para atrair o eleitorado de menor renda, segmento onde Eduardo Paes também possui forte penetração.

O cenário eleitoral

A oficialização da candidatura de Garotinho ocorre em um ambiente de fragmentação. Cláudio Castro renunciou ao governo em março, deixando o comando do estado nas mãos do atual governador interino.

Eduardo Paes (PSD) lidera de forma consolidada, mas a entrada de Garotinho na disputa pode polarizar a campanha e forçar um segundo turno. 

O ex-governador, no entanto, aposta no recall de seu nome e na rejeição ao atual cenário político. Durante a convenção, seguidores carregavam cartazes com referências aos programas sociais do passado "O melhor prefeito do Brasil", emendou, em referência ao período em que administrou Campos dos Goytacazes.

As redes e a viralização

Garotinho revelou que extraiu dez cortes do Podcast do Ultima Hora feito com seu advogado Vitor travancas e os publicou em suas redes sociais — Instagram e Facebook —, obtendo grande repercussão. "Acompanhei sua entrevista inteira, fiz 10 cortes, publiquei no meu Instagram e no meu Facebook, está sendo um sucesso total", disse. 

A estratégia digital será um dos pilares da campanha do Republicanos. Com recursos limitados em comparação às grandes coligações, a legenda aposta na capilaridade de Garotinho nas redes e na capacidade de mobilização de Crivella, que tem forte base entre eleitores evangélicos.

Sobre Anthony Garotinho

Anthony William Garotinho Matheus de Oliveira nasceu em Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense, em 18 de abril de 1960. Começou a carreira política ainda jovem: foi o deputado estadual mais votado do estado em 1986 e elegeu-se prefeito de Campos em 1988. Governou o Rio de Janeiro entre 1999 e 2002, período em que implementou programas como o Cheque Cidadão e o Restaurante Popular, que se tornaram marcas de sua gestão. Em 2002, apoiou a eleição de sua esposa, Rosinha Garotinho, que se tornou a primeira mulher a governar o estado. Foi secretário de Segurança Pública (2003-2004) e deputado federal (2011-2015). É pai do atual prefeito de Campos dos Goytacazes, Wladimir Garotinho. Mantém relevante capital político no interior do estado e entre eleitores de programas sociais. Aos 66 anos, tenta o terceiro mandato ao Palácio Guanabara.

Repórter Ralph Lichotti - Advogado e Jornalista, Editor do Ultima Hora Online e Jornal da República, Foi Sócio Diretor do Jornal O Fluminense e acionista majoritário do Tribuna da Imprensa, Secretário Geral da Associação Nacional, Internacional de Imprensa - ANI, Ex- Secretário Municipal de Receita de Itaperuna-RJ, Ex-Presidente da Comissão de Sindicância e Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa - ABI - MTb 31.335/RJ

Por Robson Talber

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Fontes: G1, Valor Econômico, Agência Brasil, Poder360, CartaCapital, Exame, Diário do Rio, CPI do Crime Organizado/Senado Federal, site oficial do Republicanos, Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

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Por Jornal da República em 26/07/2026
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