Lucas Braathen e a sensação de pertencimento

Lucas Braathen e a sensação de pertencimento

Costumo dizer que os Jogos Olímpicos têm muito mais histórias incríveis do que os milhares de jornalistas cobrindo o evento conseguem contar. São várias as das Olimpíadas de Inverno de Milão-Cortina, que terminam domingo (22).

Para os italianos, ficará o orgulho pela campanha esportiva fantástica como país-sede. Até o momento em que a coluna foi escrita, já haviam ganhado 26 medalhas, nove de ouro. Subiram de décimo lugar geral em Pequim-2022 para terceiro –por enquanto–, só atrás das potências Noruega e Estados Unidos.

Quem gosta de cenas curiosas não vai se esquecer do norueguês que, minutos depois de ganhar bronze no biatlo, declarou ao mundo inteiro que traiu a namorada, na esperança de que a confissão pública ajudasse a ganhar o coração dela de volta (até agora, parece que não deu certo). Ou adorou ver o momento em que um cachorro fofo invadiu a pista de esqui cross-country e cruzou a linha de chegada.

Quem se interessa por geopolítica certamente acompanhou o drama do atleta ucraniano do skeleton, desclassificado porque insistiu em competir com um capacete com fotos de mortos na guerra –manifestações políticas são proibidas pelas regras olímpicas.

Nós, brasileiros, ganhamos um ídolo: Lucas Pinheiro Braathen, ouro no esqui alpino. O que mais me toca na história do Lucas não é apenas o feito extraordinário de ter conquistado a primeira medalha da história do Brasil em Jogos Olímpicos de Inverno. Ou a coragem do filho de mãe brasileira e pai norueguês de cortar relações com uma potência olímpica –ele competia pela Noruega– e escolher defender as cores do Brasil.

O que me marcou mesmo foi assistir a uma entrevista de Lucas, antes do ouro inédito, falando sobre algo fundamental: a sensação de pertencimento. Ele contou que na infância, na Noruega, era considerado brasileiro e, quando ia ao Brasil, o chamavam de gringo. Cresceu sem confiança, com a sensação “de estar errado, como se nunca estivesse em casa”. Disse que foi no esporte que encontrou pertencimento, porque, ali, todas as crianças eram iguais.

Como estou há quase nove anos fora do Brasil, a declaração bateu forte em mim. Tenho muito orgulho de ser brasileira, é onde estão minhas raízes, e penso sempre como gostaria que um futuro filho sinta o mesmo, ou que encontre sua sensação de pertencimento onde esteja. Esse é um dos muitos benefícios da prática de esportes e que serve para outros aspectos da vida. Quanta gente é infeliz no trabalho, não se sente incluído naquele ambiente porque, por escolha ou necessidade, acabou naquele emprego em vez de fazer o que ama?

Em outra entrevista sincera, essa logo depois do ouro, Lucas disse que a história dele não era convencional, mas era “a dele”. E tinha certeza de que, se seguisse seu coração, teria sucesso, e por isso era campeão olímpico.

Ouvi algumas pessoas dizerem que, com o mundo em guerra e instável, não havia clima para Jogos Olímpicos. Mas é justamente nesses momentos que o esporte importa. Se políticos às vezes mostram o lado mais perverso do ser humano, os atletas são o melhor de nós. E, no fim, é isso que fica de cada Olimpíada: essas grandes histórias.

A colunista está em Milão como repórter da organização responsável pela transmissão oficial dos Jogos Olímpicos

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Por Jornal da República em 21/02/2026
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