'Ninguém vai querer ser prefeito''Brasília precisa sair da bolha e olhar para quem vive nos municípios', diz Prefeita de Ibiaí, Maurina Mota ao denunciar crise fiscal que sufoca pequenas cidades

Prefeita de Ibiaí faz apelo direto a Lula:

'Ninguém vai querer ser prefeito' diz prefeita de Ibiaí na Marcha das Mulheres Municipalistas

Defensora pública licenciada, Maurina Mota participou da XXVII Marcha a Brasília em Defesa dos Municípios e fez um apelo direto ao governo federal: sem repasse de recursos, políticas públicas não saem do papel

O grito dos municípios ecoa em Brasília

Entre os dias 18 e 21 de maio de 2026, a capital federal foi tomada por uma maré de gestores municipais de todo o Brasil. Era a XXVII Marcha a Brasília em Defesa dos Municípios, promovida pela Confederação Nacional de Municípios (CNM), o maior evento municipalista da América Latina. Mas, dentro da programação, um dos momentos de maior potência simbólica foi o encontro do Movimento Mulheres Municipalistas (MMM), que reuniu prefeitas, vice-prefeitas, vereadoras e lideranças femininas de norte a sul do país.

Em meio a esse cenário, a reportagem do Jornal da República encontrou a prefeita de Ibiaí, no Norte de Minas Gerais, Maurina Mota, para um papo direto sobre os desafios e as urgências dos pequenos municípios brasileiros.

"Aprendizado, fortalecimento e luta"

Com uma fala serena, mas firme, Maurina começou destacando o significado da marcha para as mulheres que ocupam — ou buscam ocupar — espaços de poder. "Essa marcha das mulheres é um evento muito importante para todos os municípios. É nessa mágica que a gente traz muitas demandas e também aprende muito, principalmente as inovações tecnológicas, os programas que estão implantados e que às vezes ainda não foram destinados aos municípios", afirmou.

Ela destacou que o fortalecimento da mulher na política é uma pauta central. "A mulher cada dia tem que participar mais. Às vezes tem muita dificuldade, muito preconceito, mas a gente aos poucos estamos vencendo essas barreiras."

Os números mostram que o desafio é real. De acordo com dados do MMM, apresentados durante a Marcha, as mulheres ocupam menos de 20% dos cargos eletivos no Brasil e apenas 13% das prefeituras — isso em um país onde representam mais da metade da população e do eleitorado. A presidente do Movimento Mulheres Municipalistas, Tania Ziulkoski, foi categórica: "Defender mais mulheres na política não é defender uma pauta isolada. É defender municípios mais humanos, políticas públicas mais eficientes. É defender a democracia de verdade."

O nó fiscal que sufoca as cidades

Maurina não fugiu do tema mais espinhoso. Ao ser questionada sobre a promessa do presidente Lula de destravar as pautas municipalistas, ela mostrou esperança, mas com os pés no chão. "Eu acredito na palavra dele, até porque se não houver esse destravamento das pautas para ajudar os municípios, as políticas públicas não vão acontecer."

A prefeita explicou didaticamente o gargalo: "As políticas, os programas, os serviços, eles acontecem lá nas cidades, nos municípios. Se não tiver essa contrapartida para os municípios, nada vai acontecer. Tudo que há uma implementação do governo federal que vai para o município, a despesa, há um custo, e isso tem que ser repassado."

E arrematou: "Porque tudo gasta dinheiro e tem que ter esse aporte financeiro do governo federal, que é quem hoje detém a maior parte, vamos dizer, do bolo de arrecadação, o grande leão."

O diagnóstico coincide com as pautas prioritárias da CNM para 2026, que incluem o repasse integral de recursos para a saúde, educação e infraestrutura, além da aprovação de medidas que garantam maior previsibilidade orçamentária aos municípios.

"O povo não está nem aí para esse povo de Brasília"

Em um dos momentos mais contundentes da conversa, Maurina trouxe a voz do cidadão comum para o centro do debate. "A importância de se falar nisso é que 80% das pessoas nascem e morrem onde nasceram. A maioria vive na sua cidade e não está nem aí para esse povo de Brasília. Então esse povo de Brasília tem que olhar pelos municípios."

A prefeita fez então uma convocação direta aos gestores federais. "Eles têm que entender, sair um pouquinho da bolha deles aqui do Distrito Federal, da capital, da polarização, do poder central e ir para as bases. É onde a população vive, passa dificuldade, trabalha na zona rural, arrecada e paga seus impostos também."

O risco de ninguém querer ser prefeito

Maurina encerrou com um alerta que ecoa entre gestores de todo o Brasil. "Tem que ter mais um olhar diferenciado, melhorar a transferência de recursos para os municípios, senão daqui um dia ninguém nem quer ser prefeito, de tanta dificuldade que enfrenta."

A fala encontra respaldo na realidade dos municípios de pequeno porte. Ibiaí, com pouco mais de 6 mil habitantes segundo o censo do IBGE de 2022, e uma área de 874,76 km², depende fortemente de transferências constitucionais e emendas parlamentares para manter serviços essenciais de saúde, educação e assistência social.

Perfil — Maurina Mota: da defensoria pública à prefeitura

Maurina Fonseca Mota de Matos tem 61 anos e é natural do Norte de Minas Gerais. Antes de assumir a prefeitura de Ibiaí para o mandato 2025-2028, construiu uma trajetória de mais de 26 anos como defensora pública estadual em Minas Gerais, atuando na área de Fazenda Pública em Montes Claros — uma carreira marcada pela defesa dos direitos dos cidadãos hipossuficientes.

Além da formação jurídica, Maurina possui capacitação em Administração, Segurança do Trabalho, Gerenciamento de Negócios, Secretariado e Agropecuária — um perfil multidisciplinar que reflete sua compreensão ampla dos desafios da gestão pública. Filiada ao MDB, venceu a eleição de 2024 em uma disputa acirrada que refletiu o desejo de renovação na cidade. Em sua gestão, já celebrou conquistas como a aquisição de uma pá carregadeira nova para o município e a assinatura de contrato de adesão ao Codanorte, consórcio intermunicipal que fortalece as ações regionais. Nas redes sociais, mantém uma comunicação transparente com a população, publicando registros de obras, fiscalizações e eventos da cidade, sempre com o lema de trabalhar "por uma cidade cada vez melhor".

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Por Jornal da República em 23/06/2026
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