Patentes na urna caem 40%, mas candidatos militares triplicam no PL

Outro indicador da presença militar nas eleições, o número de candidatos que declararam “membro das Forças Armadas” como ocupação subiu 30,2%

Patentes na urna caem 40%, mas candidatos militares triplicam no PL

O número de candidatos que usam patentes ou graduações militares no nome de urna caiu 40% entre as eleições de 2022 e 2026, mas outro indicador da presença de militares na disputa eleitoral avançou no período. Levantamento do ICL Notícias nas bases nacionais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostra que os candidatos que declararam como ocupação “membro das Forças Armadas” passaram de 63 para 82, alta de 30,2%.

O crescimento ocorreu sobretudo no PL, que triplicou seus nomes nesse grupo, de sete para 21, e passou a concentrar um em cada quatro candidatos que declararam essa ocupação.

Os dois números medem fenômenos diferentes. O primeiro considera todos os candidatos e procura diretamente no nome escolhido para aparecer na urna termos que correspondem a postos ou graduações militares, independentemente da profissão informada à Justiça Eleitoral. O segundo considera exclusivamente a ocupação declarada pelo próprio candidato ao registrar sua candidatura.

A comparação mostra uma mudança em relação à eleição de quatro anos atrás: a patente perdeu espaço como elemento do nome eleitoral, mas aumentou o número de candidatos que se apresentam ao TSE profissionalmente como integrantes das Forças Armadas. E, dentro desse segundo grupo, o crescimento foi acompanhado por uma concentração no PL.

Em 2022, 63 candidatos declararam a ocupação de membro das Forças Armadas. O Republicanos liderava naquele momento, com 12 nomes, enquanto o PL tinha apenas sete — 11,1% do total.

Agora, a base nacional de candidatos de 2026 reúne 82 pessoas nessa ocupação. O PL aparece na frente com 21, ou 25,6%. O Republicanos tem dez; Avante, oito; e Podemos, sete.

Isso significa que, enquanto o universo cresceu 30,2% em quatro anos, o contingente do PL avançou 200%. Dos 19 candidatos acrescentados ao grupo entre uma eleição e outra, 14 estão no PL. Sozinho, o partido respondeu, portanto, por 73,7% do crescimento líquido registrado desde 2022.

A concentração é ainda maior quando se observa a disputa pelo Senado. Dos cinco candidatos ao cargo que declararam como ocupação serem membros das Forças Armadas, quatro são do PL: Capitão Contar, Hélio Bolsonaro, Nicoletti e Coronel Hélio. O quinto, Major Paulo Roberto, disputa pelo Mobiliza. Assim, o PL concentra 80% desse grupo de candidaturas ao Senado.

Os números de 2026 foram extraídos da base nacional do TSE gerada em 15 de agosto, às 19h30min51s, cerca de meia hora depois do encerramento do prazo para apresentação dos pedidos de registro de candidatura. A base eleitoral é atualizada posteriormente e ainda pode sofrer alterações decorrentes de correções, substituições e decisões da Justiça Eleitoral.

Menos patentes nos nomes

O movimento é diferente quando o critério deixa de ser a ocupação declarada e passa a ser o nome que o candidato escolheu para aparecer na urna.

O ICL Notícias analisou os nomes de urna de todos os candidatos registrados no país, e não apenas daqueles que se declararam militares. Foram procurados termos correspondentes a postos e graduações, como coronel, major, capitão e capitã, tenente, subtenente, sargento e sargenta, cabo, soldado, general, almirante e suboficial, além de abreviações utilizadas no início dos nomes.

Aplicada a mesma metodologia às duas eleições e eliminadas duplicidades pelo CPF, a busca encontrou 1.050 candidatos em 2022 e 630 em 2026. Em quatro anos, portanto, desapareceram 420 nomes desse universo, uma redução de 40%.

O resultado indica uma retração expressiva de uma prática que ganhou visibilidade nas eleições anteriores: incorporar ao nome eleitoral uma identificação ligada à carreira militar.

Mas também nesse universo o PL passou a ocupar uma parcela maior.

Em 2022, o partido reunia 142 dos 1.050 candidatos identificados, ou 13,5%. Neste ano, são 122 dos 630, equivalentes a 19,4%.

O número absoluto do PL caiu 14,1%, mas muito menos do que a redução de 40% observada no conjunto dos candidatos. Com isso, sua participação aumentou 5,9 pontos percentuais. Há quatro anos, aproximadamente um em cada sete candidatos com patente ou graduação no nome estava no PL. Agora, é praticamente um em cada cinco.

Depois do PL aparecem Republicanos, com 68 candidatos; Podemos, com 55; União Brasil, com 40; e Novo, com 38.

Em um recorte mais abrangente, que acrescenta às patentes e graduações as designações “comandante” e “oficial”, são 641 candidatos em 2026, contra 1.075 em 2022 — queda de 40,4%. O PL passa de 148 para 124 nomes, mas sua participação nesse universo cresce de 13,8% para 19,3%.

A busca textual exige uma ressalva. Encontrar uma patente no nome de urna não significa necessariamente que o candidato seja ou tenha sido militar. Palavras podem aparecer como parte de sobrenomes, apelidos ou outras denominações. Por isso, os 630 nomes não devem ser tratados como 630 militares candidatos. O dado mostra o uso de termos correspondentes a postos e graduações na identificação eleitoral.

A diferença fica evidente quando os nomes são comparados à ocupação declarada. Dos 630 candidatos identificados no recorte estrito, 477 — 75,7% — informaram ao TSE alguma ocupação dentro de um universo militar mais amplo, que inclui Forças Armadas, militares reformados, policiais militares e bombeiros militares. Outros 153 declararam profissões diferentes. Apenas 49 registraram especificamente a ocupação “membro das Forças Armadas”.

O emprego eleitoral das patentes também encontra uma restrição no próprio Estatuto dos Militares. A Lei 6.880/1980 estabelece, entre os preceitos de ética militar, que integrantes das Forças Armadas na inatividade devem se abster do uso das designações hierárquicas “em atividades político-partidárias”. A regra alcança militares da reserva remunerada e reformados, embora a legislação não trate especificamente do nome escolhido para aparecer na urna.

O Estatuto também determina que, quando militares da reserva remunerada ou reformados fizerem uso do posto ou da graduação, devem indicar sua condição de inatividade. A existência da regra, porém, não permite concluir que os 630 nomes identificados pelo levantamento estejam em situação irregular: o universo inclui militares das Forças Armadas, integrantes das forças estaduais, candidatos que declararam outras ocupações e casos em que o termo pode fazer parte de sobrenomes ou apelidos. A eventual aplicação da restrição depende da situação funcional de cada candidato.

Cruzamento encontra 19 nomes na folha da ativa

O levantamento também cruzou os candidatos que usam postos ou graduações no nome de urna com a folha federal de militares referente a junho de 2026, a mais recente disponível no Portal da Transparência usada na análise.

Foram encontrados 19 candidatos com patente ou graduação no nome de urna que constavam como “militar da ativa” naquela folha. O cruzamento utilizou o nome civil e os seis algarismos de CPF disponibilizados nas bases públicas.

Entre os 19, oito apareciam vinculados à Aeronáutica, sete ao Exército e quatro à Marinha. O PL reúne seis deles, ou 31,6% do grupo.

Estão nessa relação, por exemplo, Major Hugo Christiani (PL-GO), localizado como major do Exército; Sargento Priscilla (PL-RR), como primeiro-sargento da Aeronáutica; Coronel Aviador Luiz Gama (Novo-DF), como coronel da Aeronáutica; Suboficial Jesson Santos (DC-MS), como suboficial da Marinha; e Sargento Rogério Pádua (Republicanos-SP), como primeiro-sargento do Exército.

O cruzamento também encontrou situações que demonstram os limites de olhar somente para a profissão informada pelo candidato. Sargento Elis Santos (União-PA), localizada na folha como terceiro-sargento da Aeronáutica, declarou “outros” no campo de ocupação do TSE.

A presença na folha de junho, no entanto, não permite afirmar que esses 19 permanecem no serviço ativo durante a campanha eleitoral.

A legislação estabelece regras específicas para militares que concorrem a eleições. De acordo com a regulamentação eleitoral, a situação depende, entre outros fatores, do tempo de serviço. O militar com menos de dez anos de atividade deve afastar-se definitivamente; aquele com mais de dez anos é agregado pela autoridade superior e, caso seja eleito, passa para a inatividade no momento da diplomação.

Por isso, o cruzamento mostra a situação registrada na folha federal de junho, antes do encerramento dos pedidos de candidatura. A condição funcional de cada candidato após o registro depende dos atos administrativos adotados pelas respectivas Forças.

No universo específico dos 82 candidatos que declararam ser membros das Forças Armadas, 22 constavam como militares da ativa na folha de junho. Outros 32 foram localizados nas bases de reserva ou reforma e 28 não apareceram nesses dois grupos.

A diferença entre esses recortes ajuda a explicar o retrato das eleições de 2026. A identificação militar explícita no nome de urna encolheu consideravelmente desde 2022, mas o número de candidatos que declaram integrar as Forças Armadas aumentou.

Ao mesmo tempo, o PL avançou nos dois universos em participação. O partido passou de 11,1% para 25,6% entre os candidatos que declaram essa ocupação e de 13,5% para 19,4% entre aqueles que usam postos ou graduações militares no nome de urna. A patente aparece menos nas urnas do que há quatro anos, mas a parcela que permanece está mais concentrada no partido.

Por Jornal da República em 17/08/2026
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