O que é a polilaminina? Entenda de forma didática a substância apelidada de 'Proteína de Deus'

Ao juntar várias lamininas, proteínas em formato de cruz, a polilaminina cria uma rede microscópica que pode ajudar nervos danificados a crescer novamente e recuperar movimentos.

O que é a polilaminina? Entenda de forma didática a substância apelidada de 'Proteína de Deus'

Tatiana Sampaio, chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular da UFRJ e responsável pela polilaminina, medicamento experimental com potencial de recuperar lesões medulares. — Foto: Ana Branco / O Globo

Imagine que cada célula do nosso corpo é como uma pessoa tentando viver dentro de uma casa. Ela precisa de chão, paredes, estrutura. Sozinha, no vazio, ela não funciona direito.

Dentro do nosso corpo existe algo que cumpre esse papel: a matriz extracelular. 

É como se fosse o “ambiente” onde as células moram. E uma das proteínas mais importantes desse ambiente se chama laminina.

A laminina é uma molécula grande, que faz parte da base onde as células se apoiam. Se pudéssemos enxergá-la bem de perto, ela pareceria uma cruz, com três pontas menores e uma maior. Cada ponta tem a capacidade de se conectar com outras moléculas ou com as próprias células.

Como surge a polilaminina?

Em certas condições, quando o ambiente fica levemente ácido e existe cálcio por perto, várias moléculas de laminina começam a se aproximar e se ligar umas às outras pelas pontas menores. 

Elas não são “coladas” como plástico. Elas simplesmente se organizam, como se encaixassem naturalmente.

A polilaminina é, basicamente, uma rede formada por muitas lamininas conectadas entre si. 

Pense numa rede de pesca ou numa malha de crochê: vários pontos ligados, formando uma estrutura maior e mais firme do que uma peça isolada.

E por que isso é importante?

Porque essa rede continua sendo reconhecida pelas células como algo natural do corpo. Ela mantém os mesmos “sinais” que ajudam as células a saber onde ficar, como crescer e como se organizar. Mas agora esses sinais estão em uma estrutura mais estável e resistente.

É como se, em vez de entregar uma tábua solta para alguém atravessar um rio, você construísse uma ponte inteira.

Na prática, cientistas estudam a polilaminina como um material que pode ajudar na regeneração de tecidos. 

Em engenharia de tecidos, ela pode servir como suporte para que células cresçam de forma organizada. No caso de lesões nervosas, como em problemas na medula espinhal, essa rede pode criar um ambiente mais favorável para que os nervos voltem a crescer.

O segredo está na combinação de duas coisas: ela é estruturalmente firme, mas ao mesmo tempo biologicamente “amigável”, porque é feita de algo que já existe no nosso próprio corpo.

Em resumo, a polilaminina é uma rede formada a partir de uma proteína natural do organismo. 

Quando várias dessas proteínas se organizam juntas, criam uma estrutura que pode ajudar células a crescer e tecidos a se reconstruírem. 

É uma tentativa da ciência de imitar a própria natureza, usando as peças do corpo para ajudar o corpo a se recuperar.

Agora, a polilaminina entra na fase mais decisiva: os testes clínicos em humanos

A etapa atual avalia principalmente a segurança da aplicação, feita durante cirurgia diretamente na área da medula lesionada, onde a substância forma a rede que pode estimular o crescimento dos nervos.

Ainda serão necessárias novas fases de estudo para confirmar a eficácia e definir em quais casos o tratamento realmente funciona. Só após esse processo a substância poderá ser liberada para uso mais amplo.

Se os resultados se confirmarem, a polilaminina pode abrir um novo caminho no tratamento da paralisia.

Por enquanto, ela segue como uma aposta promissora, mas ainda em avaliação científica rigorosa.

O Brasil perdeu a patente da polilaminina? Laboratório diz ter feito o pedido da internacional e da nacional da substância

A nota do laboratório foi publicada após a pesquisadora dizer em entrevista que a UFRJ não conseguiu pagar pela patente internacional devido aos cortes.

Ao lado esquerdo prédio da Cristália. Ao lado direito a pesquisadora Tatiane Coelho de Sampaio.

Tatiane Coelho, pesquisadora responsável pelo estudo com a polilaminina na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), afirmou que a patente internacional da substância foi perdida devido aos cortes que a instituição sofreu. 

Segundo ela, a nacional foi garantida pelo pagamento das taxas que ela teve que tirar do próprio bolso. Já a internacional, se perdeu para sempre devido a falta de pagamentos:

Laboratório diz ter pedido feito da patente

O laboratório Cristália, parceiro na produção da substância utilizada nos testes clínicos, afirmou ter feito o pedido da patente nacional e internacional da substância.

Em nota oficial divulgada nesta quarta-feira (19), o laboratório informou que solicitou, em 2022, a patente nacional e, em 2023, a patente internacional do processo de extração, purificação e polimerização da polilaminina.

Segundo o Cristália, as patentes têm validade de 20 anos, com vencimento previsto para 2042 (nacional) e 2043 (internacional). 

A empresa afirma ainda que o produto utilizado atualmente nos testes clínicos de fase 1 é produzido em suas plantas de biotecnologia.

O laboratório também destacou que o fornecimento da polilaminina para uso compassivo é gratuito, realizado exclusivamente por equipe médica treinada e alertou que qualquer tentativa de comercialização da substância é ilegal.

O que diz a UFRJ?

Até o momento da publicação desta matéria, a Universidade Federal do Rio de Janeiro não se manifestou sobre o caso.

Por Jornal da República em 21/02/2026
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