Prof. Jorge Tardin afirma que o Turismo é o novo petróleo do Rio de Janeiro, '85% do que chamam de sustentável não passa de marketing'

'Laudato Si é o documento mais importante da humanidade' diz Tardin

O jurista que enxerga o consumo como fio condutor do futuro da humanidade

Em entrevista no Barra World Shopping, o professor Jorge Tardin — doutorando em Ciências Sociais, mestre em Direito Empresarial e ex-membro da Comissão de Defesa do Consumidor da OAB-RJ — desconstrói o greenwashing, aponta o Código Civil chinês como referência para o Ocidente e defende o turismo como o verdadeiro novo petróleo do Rio de Janeiro.

O Código de Defesa do Consumidor está prestes a completar mais de três décadas de vigência no Brasil. Mas, para o professor Jorge Tardin, a relação de consumo como a conhecemos está com os dias contados. Em entrevista ao podcast "No Ritmo com Você", gravado no Barra World Shopping, na Barra da Tijuca, o advogado e mestre em Direito Empresarial pela Universidade Cândido Mendes introduziu um conceito que, segundo ele, vai definir o futuro da humanidade: o prossumidor.

"O consumidor será cada vez mais empoderado, principalmente agora com a inteligência artificial, que turbina o direito de acesso à informação", afirmou. "E a informação é o novo petróleo. É a coisa mais importante do nosso tempo."

Para Tardin, o consumidor informado já não é refém de campanhas publicitárias. Ele pesquisa, compara e, principalmente, escolhe. E é nessa escolha que as empresas genuinamente sustentáveis se diferenciam das que praticam o chamado greenwashing — a maquiagem verde que, segundo estudo da Market Analysis Brasil em parceria com o Instituto Akatu, atinge 85% das alegações ambientais em produtos vendidos no país. O levantamento analisou mais de 2 mil itens e identificou 3.045 alegações ambientais, das quais a maioria esmagadora se mostrou superficial, falsa ou enganosa.

O greenwashing agora tem multa

A conversa ganhou contornos ainda mais atuais porque, em junho de 2026, o Brasil registrou a primeira condenação judicial por greenwashing da sua história. A 6ª Vara Cível de São Paulo determinou que a Gol Linhas Aéreas pague R$ 5 milhões por divulgar alegações ambientais sem comprovação técnica adequada. A ação foi movida pelo Instituto de Defesa de Consumidores (Idec).

O Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) também endureceu as regras. Em 2025, criou o Anexo U do seu Código, estabelecendo parâmetros específicos para propagandas com apelo ambiental — entre eles, a exigência de concretude, veracidade, clareza e comprovação.

Tardin foi direto ao ponto. "As empresas que usam a bandeira da sustentabilidade sem ser verdadeiro podem ter certeza de que vão sucumbir, e isso será um processo muito rápido", disse. "Em cinco anos, 2030 para frente, nós teremos uma outra civilização."

A lição que vem da China: sustentar a relação, não rompê-la

Um dos insights mais provocadores da entrevista veio de um paralelo jurídico entre Oriente e Ocidente. Tardin explicou que o direito ocidental sempre bebeu da fonte romano-germânica, com forte influência do Código Napoleônico. O que poucos sabem, segundo ele, é que a China promulgou, em 1º de janeiro de 2021, o seu primeiro Código Civil unificado — uma lei que incorpora o que o Ocidente produziu de conhecimento jurídico, mas com um princípio inovador: o princípio da sustentação da relação jurídica.

"Quando a gente tem uma relação contratual e esse contrato sofre uma inadimplência, um descumprimento, a gente vai para o tribunal", explicou. "Na China, o olhar é outro: o que o Estado vai fazer para preservar essa relação? O Estado entra para sustentar a relação, não para rompê-la."

A diferença de paradigma é profunda e, na avaliação do jurista, aponta para um modelo em que o Estado não é ausente nem inchado — é presente. Para ele, a ausência do Estado nas comunidades brasileiras é a raiz de problemas estruturais como a milícia e o tráfico. "Sustentabilidade depende necessariamente do Estado presente", afirmou.

O novo petróleo do Rio de Janeiro

Tardin dedicou parte significativa da entrevista ao potencial turístico fluminense — e foi enfático: "O turismo é o novo petróleo do Rio de Janeiro. O potencial é muito maior do que o petróleo."

O estado do Rio de Janeiro, segundo ele, tem a maior concentração de universidades do Brasil e uma vocação natural para se tornar um polo de data centers — proposta que atribui ao prefeito Eduardo Paes. Mas o verdadeiro tesouro, na visão de Tardin, está na integração entre a capital e o interior.

Ele citou a região serrana como exemplo de potencial desperdiçado. "Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo têm uma serra que, para nós, é muito mais bonita que a Serra Gaúcha. Produzimos vinho, queijo, cerveja. É um absurdo que esses municípios não tenham avançado e se integrado."

Tardin celebrou o fato de a região já não ser chamada de "Serra Fluminense", mas de "Serra Carioca" — uma mudança de nomenclatura que, para ele, sinaliza uma integração há muito esperada. "A fusão entre capital e interior ainda não aconteceu. Agora temos a possibilidade de integrar isso verdadeiramente."

O exemplo de Miguel Pereira, na região do Centro-Sul fluminense, foi citado como case de sucesso. "Miguel Pereira fez algo revolucionário na área do turismo. Pegou uma cidade pequena e transformou num destino, com boa política pública. Isso pode se expandir para todo o estado."

O tapa de luvas geopolítico: DeepSeek e a nova corrida tecnológica

A entrevista também abordou a geopolítica da inteligência artificial. Tardin lembrou que, em janeiro de 2025, 11 dias após a posse do presidente Donald Trump em seu segundo mandato, os chineses apresentaram ao mundo o DeepSeek — um modelo de IA que, segundo ele, reposicionou a correlação de forças tecnológicas.

"O Trump levou todo o staff tecnológico do Vale do Silício para a posse. Disse: 'Nós dominamos o mundo, temos a tecnologia'. Onze dias depois, os chineses deram um tapa de luvas na sociedade norte-americana."

Tardin relatou uma conversa com o professor Raimundo Oliveira, do Instituto Nacional de Tecnologia. "Ele disse que o Brasil tinha um gap tecnológico de 20 anos em relação aos Estados Unidos. Quando o DeepSeek foi lançado, com arquitetura aberta — ao contrário do modelo fechado americano —, esse gap caiu para três anos."

O dado, se confirmado, tem implicações profundas. O Brasil, que possui a maior concentração de universidades entre os estados brasileiros e recursos naturais estratégicos como água e energia, pode se posicionar como um hub de data centers e inovação em IA. "A inteligência artificial é para o bem e para o mal. Mas eu acredito no bem", disse Tardin.

As duas doenças do Brasil e a crise do diálogo

Tardin reservou um momento da entrevista para o que chamou de "as duas doenças do Brasil": corrupção e ignorância. Para ele, a ignorância é a mais difícil de combater. "A corrupção é mais fácil de enfrentar do que a ignorância. O que estamos vendo na política é a falta de diálogo. As pessoas param de se falar porque pensam diferente."

Ele pregou respeito às instituições independentemente de posições partidárias. "Quando o presidente era Bolsonaro, eu podia discordar, mas era o presidente do Brasil. O presidente é Lula, temos que respeitar. O que podemos enxergar e contribuir para que seja o melhor?"

A encíclica Laudato Si, do Papa Francisco, foi citada como o documento mais importante da humanidade na atualidade. "Traduzindo, significa: cuidemos da nossa casa comum. O planeta Terra é a nossa casa. Todos nós temos a mesma responsabilidade. Estamos no mesmo barco."

O consumo consciente como ferramenta de transformação

Para Tardin, a chave para a transformação está na educação. Ele defende a inclusão da sustentabilidade como disciplina nas escolas e a aceleração da consciência do consumidor. Citou a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) como referência mundial em tecnologia agrícola — uma prova, segundo ele, de que o Estado brasileiro é capaz de inovar quando presente.

O jurista também abordou temas como a produção de carne em laboratório (experiência avançada em Israel), a proteína de insetos como alternativa sustentável e a tecnologia da poda invertida, que permitiu ao Brasil produzir vinho de qualidade na Serra Carioca ao fazer a uva frutificar no inverno. "Tecnologia confronta com aquilo que é o grande mal do Brasil: a ignorância."

Tardin concluiu com uma reflexão sobre o multilateralismo e o papel do Brasil no novo cenário global. "O Brasil produz muito alimento para o mundo. Temos a maior reserva ambiental, o pulmão do mundo, minerais importantíssimos. O Brasil tem muito a contribuir com esse novo cenário."

Jorge Tardin: o engenheiro de juridicidade que enxerga além do contrato

Jorge Tardin não é apenas um advogado. É graduado em Direito pela Universidade Metodista Bennett e em Licenciatura Têxtil pela Uerj, especialista em Direito do Consumidor, mestre em Direito Empresarial pela Universidade Cândido Mendes e doutorando em Ciências Sociais. Foi diretor de departamentos estratégicos do Procon-RJ — incluindo Atendimento, Informática, Conciliação e o Departamento Jurídico — e é membro honorário da Comissão de Defesa do Consumidor da OAB. Professor titular da Universidade Cândido Mendes e da Fundação de Ensino Serra dos Órgãos, leciona como convidado em programas de pós-graduação da FGV-RJ, Uerj, Estácio, Ucam, entre outras instituições. Palestrante em eventos jurídicos no Brasil, é consultor e debatedor dos programas da TVE-Rede Brasil (Direito em Debate, Pensando em Você e Código de Barras). Hoje, à frente do escritório Costa Fernandes, Tardin define sua missão como "engenheiro de juridicidade" — alguém que estrutura ideias grandes demais para caber em contratos comuns. Seu site é tardin.com.br.

Por Ralph Lichotti - Advogado e Jornalista, Editor do Ultima Hora Online e Jornal da República, Foi Sócio Diretor do Jornal O Fluminense e acionista majoritário do Tribuna da Imprensa, Secretário Geral da Associação Nacional, Internacional de Imprensa - ANI, Ex- Secretário Municipal de Receita de Itaperuna-RJ, Ex-Presidente da Comissão de Sindicância e Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa - ABI - MTb 31.335/RJ

Repórter Antonio Lemos @djportugues

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Por Jornal da República em 17/07/2026
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