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Algumas histórias simplesmente não cabem na frieza das leis. Porque nascem fora dos códigos. Nascem da vida. E há vidas que quase não chegam a florescer, justamente porque a legalidade, tantas vezes, é surda, cega e muda diante de quem é negro, estrangeiro e pobre.
Mais de vinte anos atrás, em um hospital europeu, um jovem africano aguardava. Sem documentos, sem país, sem ninguém que o representasse. Seu fígado já não resistia. O tempo corria. E ele esperava. Talvez pela morte. Para a burocracia, ele simplesmente não existia. Mas existia. E muito. Existia como qualquer ser humano que clama por socorro. E, naquele instante decisivo, um médico enxergou isso.
O nome dele é Eduardo Barroso. Ele poderia ter recuado. Poderia ter dito que a lei o impedia. Mas não. Vestiu o jaleco e, diante da tentativa de apagar uma vida, disse o que apenas a consciência é capaz de dizer: “Esta conversa só existiu daqui a quinze minutos.” E entrou. E salvou.
Naquele momento, a medicina deixou de ser ciência. Virou gesto. Virou coragem. Virou um escudo contra um mundo que insiste em erguer muros, carimbar pessoas, criar barreiras entre quem merece viver e quem deve ser esquecido.
Aqui, deste lado do Atlântico, é importante lembrar: não são os Estados Unidos o exemplo a ser seguido. Somos nós. O Brasil tem um sistema de saúde que acolhe antes de perguntar. O SUS não pede passaporte. Pede humanidade. E isso, num tempo em que o autoritarismo volta a rondar a esquina, defender a democracia e o nosso SUS são atos de resistência.
Vivemos dias perigosos. Dias em que o fascismo volta a vestir farda, terno e gravata. Dias em que ele berra nas ruas, mas também sussurra em decisões administrativas, portarias e discursos que parecem moderados, mas ferem, silenciam e, às vezes, matam. Dias em que a empatia é vista como fraqueza. E o outro, como ameaça.
Por isso, precisamos lembrar, todos os dias, como um mantra: toda pessoa tem o direito de viver. Nenhum ser humano é ilegal. Nenhuma vida vale menos porque atravessou uma fronteira errada ou nasceu onde o poder insiste em apagar.
A decisão daquele médico não foi um gesto isolado. Foi um chamado. Um lembrete de que, antes de qualquer título, profissão ou nacionalidade, somos humanos. E quando o direito falha, é a consciência que precisa falar. Quando a norma exclui, o gesto precisa incluir. Quando o mundo fecha as portas, a ética tem a obrigação de abrir janelas.
Eduardo Barroso disse, em rede nacional, que aquele foi “o maior ato de ilegalidade da sua vida profissional”. Talvez ele tenha se enganado. Não foi ilegalidade. Foi justiça. Da mais pura. Da mais humana.
E que os tempos nos julguem, sim. Mas não pelas normas que obedecemos. Que nos julguem pelas vidas que não tivemos medo de defender.
Jorge Tardin Advogado, professor e Embaixador da Coalizão Veredicto do Capital
Assista ao relato no Instagram: https://www.instagram.com/reel/DRa38VAv73/?igsh=dzJpY3hyem1od2xm
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