Quatro integrantes do legislativo estadual foram investigados por ligação com o crime organizado

Deputado Val Ceasa foi o terceiro integrante do Legislativo que aparece como suspeito de envolvimento com organizações criminosas nos últimos nove meses

Quatro integrantes do legislativo estadual foram investigados por ligação com o crime organizado

Por O GLOBO — Rio de Janeiro

A operação que aconteceu na última quinta-feira e tinha como objetivo investigar elos entre agentes públicos e o Terceiro Comando Puro (TCP) voltou a colocar em questão o tamanho da infiltração do crime na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Nos últimos nove meses, é a terceira vez que um integrante do Legislativo aparece como suspeito de envolvimento com organizações criminosas, inclusive com o Comando Vermelho. Na história mais recente do Rio, a lista também inclui casos de envolvimento com milícias. Entenda.

TH Joias

Em setembro de 2025, a Polícia Federal realizou buscas na Alerj durante a Operação Zargun, que levou à prisão do então deputado estadual TH Joias. Segundo a PF, ele atuava como operador político e financeiro de interesses do Comando Vermelho (CV), mantendo contatos com traficantes, policiais e agentes públicos. Os investigadores afirmaram que o parlamentar teria usado a estrutura do mandato para beneficiar integrantes da facção, incluindo negociações envolvendo armas, drogas e equipamentos antidrones destinados ao Complexo do Alemão.

Segundo a investigação, TH Joias tinha uma relação com o traficante Gabriel Dias de Oliveira, o “Índio do Lixão”, que ia além de contatos ocasionais e envolvia apoio político e operacional ao crime organizado. O político teria intermediado negociações de drogas, fuzis e até equipamentos antidrones destinados ao Complexo do Alemão.

O ex-parlamentar também é apontado como responsável por indicar a esposa de Índio do Lixão para um cargo parlamentar. As investigações também apontam que havia um plano para lançar Índio do Lixão como candidato a vereador em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, reduto de atuação do grupo.

Bacellar

Dezembro de 2025, a PF prende o então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar. Os investigadores afirmam que Bacellar teria vazado informações sigilosas da Operação Zargun para TH Joias. Segundo a PF, ele teria avisado o parlamentar sobre a ação policial e orientado a retirada de objetos do imóvel antes das buscas.

A PF também afirma que Bacellar era o principal contato da lista de "comunicação urgente" de TH Joias. A mesma operação, em 16 de dezembro prende o desembargador federal Macário Ramos Júdice Neto. A suspeita é que informações sigilosas relacionadas à Operação Zargun tenham sido repassadas antes do cumprimento dos mandados.

Val Ceasa

O deputado estadual Val Ceasa (PRD) foi um dos alvos de uma operação deflagrada nesta quinta-feira para apurar a ligação de agentes públicos com o Terceiro Comando Puro (TCP). Enquanto investigava a ligação do deputado com o grupo criminoso, o Ministério Público do Rio (MPRJ) mapeou os vínculos entre ex-assessores e funcionários lotados no gabinete do parlamentar com integrantes da facção. O principal nome levantado foi o de Michael Johnny Vianna de Azevedo, que foi indiciado em uma investigação da Polícia Civil sobre um homicídio encomendado por Bruno da Silva Loureiro, conhecido como Coronel, um dos chefes do TCP.

A suposta ligação do parlamentar com facções criminosas já havia sido exposta na série "Os donos do crime", do GLOBO, que mostrou com exclusividade mensagens interceptadas pela PF, em que o traficante Carlos Costa Neves, o Gardenal, enviou ao chefe do CV no Complexo da Penha, Edgar Alves de Andrade, o Doca, uma foto de Val Ceasa durante uma reunião no Palácio Guanabara, em janeiro de 2025. Ao encaminhar a imagem, Gardenal escreveu: "Te falei, Val é o contato dele", sem explicar a quem se referia. Em seguida, Doca respondeu: "É, mano, esse cara tem que vir para nós".

Segundo a Polícia Federal, a troca de mensagens demonstra o interesse da facção em aliciar agentes políticos para ampliar sua influência, conquistar proteção institucional e exercer influência sobre decisões públicas. A investigação apontou ainda que a aproximação com políticos teria como objetivo influenciar ações sociais e evitar interferências do Estado em áreas dominadas pelo grupo criminoso.

Embora a conversa não esclareça quem seria o "dele" mencionado por Gardenal, uma fonte da PF afirmou que o diálogo remete a uma suposta aliança de Val Ceasa com Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, apontado pelas autoridades como chefe do TCP, facção rival do Comando Vermelho.

Val e o ex-vereador Ulisses Marins são apontados como suspeitos de atuar para impedir a demolição de um resort de luxo do traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, um dos chefes da facção, em Parada de Lucas, no Complexo de Israel, Zona Norte do Rio.

Lucinha

Em 2023, a Polícia Federal e o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro deflagraram uma operação contra a deputada Lucinha. Ela foi denunciada pelo Ministério Público do Rio (MPRJ), assim como sua assessora Ariane Afonso Lima, como integrantes do núcleo político da maior milícia do Rio, comandada por Luis Antonio da Silva Braga, o Zinho. A deputada, que é ré por envolvimento com a milícia, sempre negou ter cometido qualquer crime.

Na época da operação, a PF afirmou que encontrou índicios que apontavam para uma participação ativa da deputada e de sua assessora na organização criminosa, especialmente na articulação política junto aos órgãos públicos visando a atender os interesses do grupo miliciano.

O chefe do grupo paramilitar se entregou à Polícia Federal na véspera do natal de 2023, uma semana após documentos e telefones terem sido apreendidos na casa da parlamentar, momento considerado como um revés para a quadrilha.

A denúncia do MP menciona que foram realizados ao menos 17 reuniões — uma média de duas por mês, entre junho e dezembro de 2021 — entre Lucinha, Ariane e integrantes da milícia de Zinho, incluindo a presença do chefe do grupo. Alguns desses encontros foram realizados na Alerj. O assunto seria a Zona Oeste do Rio, reduto eleitoral da deputada e área de controle da milícia de Zinho.

Operação sobre elo com TCP

Na operação da última quinta-feira, o deputado Val Ceasa e o ex-vereador Ulisses Marins foram apontados como suspeitos de atuar para impedir a demolição de um resort de luxo do traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, um dos chefes da facção, em Parada de Lucas, no Complexo de Israel, Zona Norte do Rio.

Ao comentar a operação, o procurador-geral de Justiça, Antonio José Campos Moreira, afirmou que "não se pode aceitar que o parlamento seja ocupado por figuras dessa estirpe" e disse que o caso é "extremamente preocupante". Segundo ele, acende um alerta sobre a influência de facções criminosas em espaços de representação política:

— Esses fatos preocupam muito o Ministério Público do Estado do Rio porque revelam uma degradação que vem se tornando pública do ambiente político. Há alguns meses nós denunciamos e obtivemos a prisão preventiva de um deputado estadual reconhecidamente membro do Comando Vermelho, já registrando uma condenação a 14 anos de reclusão antes de ingressar no parlamento por lavagem de capitais, que inclusive integrava a Comissão de Segurança Pública da Alerj — disse o procurador-geral de Justiça.

No documento em que pediu a busca e apreensão dos alvos da operação de quinta-feira, Moreira afirmou que, assim como o caso de TH revelou a infiltração da facção criminosa Comando Vermelho na Alerj, a investigação sobre Val Ceasa e Ulisses Marins está a “desvendar” que o Terceiro Comando Puro também “se entranhou nas vísceras da Casa Legislativa”.

Por Jornal da República em 21/06/2026
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