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O mundo criou uma data para lembrar um massacre. O Brasil precisa encarar que o problema aqui nunca deixou de existir.
O calendário marca o Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial. A data foi instituída pela Organização das Nações Unidas em memória ao Massacre de Sharpeville, ocorrido na África do Sul, quando o regime do Apartheid respondeu a um protesto pacífico com balas e morte.
O mundo se chocou com aquilo em 1960. Mas o que deveria nos chocar hoje é outra coisa: o Brasil ainda convive com uma lógica que insiste em escolher quem pode viver e quem pode morrer.
Não é exagero. Não é retórica militante. É realidade social.
A cada ano, os números confirmam o que as ruas já sabem: a violência tem cor, endereço e classe social. A suspeita também. O olhar desconfiado também. A abordagem agressiva também. O abandono do Estado também. E, mesmo assim, parte do país insiste em fingir que não vê.
O 21 de março não foi criado para discursos confortáveis. Foi criado para lembrar que o racismo mata — direta ou indiretamente — quando a sociedade decide normalizar a desigualdade racial.
No Brasil, o problema não é a falta de leis. O problema é a falta de coragem para enfrentar a estrutura que mantém privilégios intactos e empurra milhões de brasileiros negros para as margens do direito, da segurança e da dignidade.
Enquanto isso, seguimos repetindo uma narrativa conveniente: a de que somos uma democracia racial. Não somos!.
Somos um país que ainda aprende — lentamente e com resistência — a reconhecer que o racismo não é um acidente. É um sistema.
E sistemas não mudam com boas intenções. Mudam com pressão social, política pública séria e consciência coletiva. Por isso, para o movimento negro brasileiro, o 21 de março não é apenas memória internacional.
É denúncia.
É resistência.
É um lembrete de que a história de Sharpeville não é apenas passado — ela é aviso.
A pergunta que fica, e que o país precisa finalmente responder, é simples e brutal: quantos ainda precisarão morrer para que o Brasil deixe de tolerar o racismo e passe, de fato, a combatê-lo?
Porque uma nação que se acostuma com a morte de parte do seu povo não pode se chamar de justa. E muito menos de democrática.
* João Santana é jornalista e Presidente Nacional do Partido Afrobrasilidade
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