Cinco dias sem água no Rio. O Guandu cumpriu o prazo. A água não chegou. Quem falhou depois da estação

Cinco dias sem água no Rio. O Guandu cumpriu o prazo. A água não chegou. Quem falhou depois da estação

Torneiras secas por cinco dias: o que a manutenção do Guandu revelou sobre a água do Rio

Estação cumpriu o calendário e voltou a operar 100% dentro do prazo previsto; o gargalo apareceu depois dela, na liberação das concessionárias e numa obra inacabada na Praça Seca que manteve 54 bairros sem abastecimento

A manutenção anual do Sistema Guandu, programada com meses de antecedência, deveria ser um evento técnico previsível. Começou às 4h de terça-feira (3) e mobilizou cerca de 500 funcionários. A Cedae encerrou os serviços às 23h30 do mesmo dia, quatro horas e meia antes do prazo previsto. Ainda assim, na manhã de sexta-feira (6), moradores de bairros como Penha, Inhaúma, Madureira, Méier, Olaria, Cachambi e Complexo do Alemão seguiam relatando torneiras secas — alguns completando o quinto dia sem água.

A distância entre o cumprimento do calendário e a realidade das torneiras é o ponto central desta crise. Ela não está na produção de água tratada, que voltou a 100% da capacidade às 17h de quarta-feira (4). Está na etapa seguinte, a distribuição, que depende de três concessionárias privadas e de uma infraestrutura que não acompanhou o ritmo da estatal.

O que a Cedae fez e o que ficou pendente

O Sistema Guandu capta e trata água do Rio Guandu, na Baixada Fluminense, e abastece cerca de 9 milhões de pessoas na capital e em sete municípios: Belford Roxo, Duque de Caxias, Mesquita, Nilópolis, Nova Iguaçu, Queimados e São João de Meriti. A paralisação anual serve para preparar a estrutura para o pico de consumo do verão, reduzindo o risco de paradas emergenciais em janeiro e fevereiro.

A produção foi retomada às 6h24 de quarta, de forma gradual e a pedido das concessionárias, que ainda finalizavam serviços em suas redes e recolocavam adutoras em carga. Nesse intervalo, a estatal ficou parada aguardando autorização de quem recebe a água. A Águas do Rio foi a última a liberar o sistema. Às 7h20, o Guandu operava com apenas 19% da capacidade.

A obra que segurou 54 bairros

Durante a janela de paralisação, a Águas do Rio executou serviços de manutenção em suas redes — 92 deles programados e concluídos, segundo a concessionária. Um ficou para trás: a instalação de um macromedidor na Praça Seca, na Zona Sudoeste. O equipamento tem 2,4 metros de diâmetro e 28 toneladas e serve para medir o volume enviado ao reservatório de Marapicu, em Nova Iguaçu.

É o último dos 23 macromedidores que a Cedae deveria ter instalado para medir com precisão a água entregue às concessionárias. Enquanto o serviço não terminava, 54 bairros ficaram com o abastecimento paralisado: 51 na Zona Norte do Rio, além de Praça Seca e Vila Valqueire, na Zona Sudoeste, e Parque Duque, em Duque de Caxias. Bairros como Penha, Penha Circular, Olaria, Inhaúma e Quintino Bocaiúva aparecem justamente nessa lista.

A água que voltou suja

Além da ausência de água, moradores relataram alteração de cor e odor no abastecimento quando ele retornou. Em Olaria, a água voltou com cheiro forte. Na Penha Circular, chegou "fraca, pingando na bica e muito suja, parecendo barro". A explicação técnica é conhecida no setor: quando uma adutora é desligada e religada, a variação de pressão pode ressuspender sedimentos que se acumulam nas paredes das tubulações ao longo dos anos.

O problema é que esse fenômeno é previsível — e, portanto, administrável com descargas preventivas e comunicação clara à população sobre o que fazer nos primeiros minutos após o retorno. Moradores que compraram água para beber e cozinhar durante os dias de paralisação relatam desembolso que nenhuma concessionária ressarciu.

O prazo que vence hoje

O prazo contratual de normalização é de até 72 horas, contado a partir do retorno da produção a 100% — ou seja, das 17h de quarta-feira (4). Ele vence ao fim desta sexta-feira (6). Águas do Rio, Rio+Saneamento e Iguá informaram que a recuperação é gradativa e que áreas elevadas e pontas de rede podem levar mais tempo. A Águas do Rio sustenta publicamente que não há atraso, porque o relógio só começou a correr com o sistema pleno.

Há, no entanto, um agravante anterior. Em 24 de outubro, a Cedae já havia reduzido a produção do Guandu por causa de um reparo emergencial em tubulação, afetando as mesmas regiões. Dois eventos em menos de duas semanas no mesmo sistema revelam uma margem de redundância estreita: quando a principal estação para, não há fonte alternativa capaz de compensar o volume.

A fiscalização que chega depois

A Agenersa, agência reguladora de energia e saneamento do estado, pautou para a sessão de 16 a 23 de novembro 15 processos, dos quais 8 tratam de falta ou irregularidade no abastecimento em localidades como Botafogo, Guaratiba, Cosmos, Jacarepaguá e Rocinha. A agência já aplicou multa à Águas do Rio 4 por falha no fornecimento em maio de 2025.

O padrão é o de sempre: a regulação chega meses ou anos depois de a água faltar, e a penalidade — quando aplicada — é financeira, não operacional. Não há, no arcabouço atual, mecanismo que force a concessionária a investir em redundância de forma imediata após reincidência.

Quem paga a conta

A manutenção preventiva é tecnicamente correta e necessária. O erro não está em fazê-la, mas em executá-la com um plano de contingência que dependa da coordenação perfeita de quatro empresas diferentes em janelas de tempo distintas. Quando uma delas atrasa uma obra de grande porte, 54 bairros secam.

A lição que a semana deixa é simples e incômoda: o sistema funciona no papel e falha na articulação. A Cedae cumpriu sua parte com antecedência. As concessionárias alegam estar dentro do prazo. E o morador da Penha, que completou cinco dias carregando galões, não tem a quem apresentar essa contabilidade.

Cedae — Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro. Fundada em 1975, é a maior empresa de saneamento do estado e opera o Sistema Guandu, responsável pelo abastecimento de cerca de 9 milhões de pessoas. Após o processo de concessão que transferiu a distribuição na capital e na Baixada para concessionárias privadas — Águas do Rio, Iguá e Rio+Saneamento —, a companhia permanece responsável pela captação, tratamento e fornecimento de água em bloco. É reconhecida pela excelência técnica de sua estação de tratamento, entre as maiores do mundo em volume, e mantém programa anual de manutenção preventiva que permite ao sistema chegar ao verão em plena capacidade. Em 2026, concluiu sua manutenção anual quatro horas e meia antes do prazo e instalou o maior macromedidor do mundo em operação, equipamento de 28 toneladas que amplia a precisão da medição de água entregue às distribuidoras.

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Por Jornal da República em 07/11/2026
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