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Existe algo muito sombrio acontecendo no debate público do Rio de Janeiro (e pouca gente está percebendo): a tentativa desesperada de Eduardo Paes em apresentar como solução democrática o que chamou de “Diretas Já” para provocar a antecipação das eleições no Rio de Janeiro.
Em março, o TSE declarou Cláudio Castro inelegível por oito anos. No dia seguinte, Castro havia renunciado. Em razão da dupla vacância nos dois últimos anos do mandato, a constituição do estado impõe a realização de eleições indiretas para os cargos majoritários. Paralelamente, o Estado do Rio sancionou lei complementar com as regras da eleição indireta, a ser conduzida pela Alerj.
Nesse cenário, o PSD, partido de Eduardo Paes, ajuizou uma ADI questionando os prazos de desincompatibilização, e logo depois uma reclamação constitucional no Supremo, para defender a realização de eleição direta para o mandato-tampão no Rio.
O pedido soa honesto, democrático, justo, simpático e ao lado do povo. Afinal, quem seria contra o direito de votar?
Mas é justamente aí que mora o problema.
Não há como comparar o cenário político do Rio de Janeiro de 2026 com o movimento das “Diretas Já”, expressão de enorme carga simbólica na história brasileira. Nos anos 80, ela representava a luta pela retomada do voto popular em meio à transição do regime militar.
É nítida a tentativa de maquiar interesses subestimando a compreensão popular com viés de legitimidade judiciária. Hoje, a situação é completamente diferente. Vivemos em um Estado democrático, com eleições garantidas, calendário definido e regras claras. O povo do Rio de Janeiro vai votar — e votar normalmente — nas próximas eleições em outubro de 2026. Por isso, o slogan heroico apenas tenta simplificar um debate complexo para influenciar a percepção das pessoas.
A Constituição prevê que, quando há vacância no final do mandato, a escolha deve ser feita de forma indireta pela assembleia legislativa. É a regra do jogo.
Na prática, o que busca Eduardo Paes, como candidato favorito, é narrativa para justificar ao povo do Rio uma possível antecipação da cadeira de governador, antes de outubro de 2026.
O mandato tampão é um período constitucional de transição até as eleições de outubro, pensado para garantir estabilidade e organização do processo eleitoral. Sua função é justamente evitar a antecipação indevida da disputa pelo poder, preservando a igualdade entre os atores e prevenindo distorções que podem configurar abuso.
O Rio não precisa de atalhos, nem de narrativas aparentemente honradas protocoladas no STF. Precisa perceber quando a aparência de virtude esconde interesse.
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