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Aliança inédita no Rio une apoiadores de Lula e Bolsonaro em chapa única
A política fluminense ganhou um novo capítulo nesta quinta-feira com o anúncio da aliança entre o prefeito Eduardo Paes (PSD) e a família Reis, representada por Jane Reis (MDB) como candidata a vice-governadora. O movimento político inédito une, em uma mesma chapa, forças que tradicionalmente apoiam tanto o presidente Lula (PT) quanto o senador Flávio Bolsonaro (PL), criando uma configuração que desafia a polarização nacional.
A consolidação da parceria foi oficializada em evento realizado na sede estadual do MDB, onde ficou evidente a estratégia de Paes de evitar a nacionalização da campanha eleitoral. O prefeito carioca busca construir uma frente ampla que dialogue com diferentes espectros políticos, aproveitando-se da resistência do eleitorado fluminense ao petismo para ampliar sua base de apoio.
A escolha de Jane Reis como companheira de chapa representa um movimento estratégico calculado. Irmã do cacique político Washington Reis, ela traz consigo não apenas o controle sobre Duque de Caxias - segundo maior colégio eleitoral do estado -, mas também uma forte conexão com o segmento evangélico, fundamental para qualquer projeto de poder no Rio de Janeiro.
A Conexão Bolsonarista dos Reis
A família Reis mantém vínculos históricos com o bolsonarismo que remontam às eleições de 2022. Jane foi uma entusiasta apoiadora do então presidente Jair Bolsonaro, chegando a compartilhar amplamente nas redes sociais o comício realizado em Duque de Caxias durante o segundo turno daquele pleito. O evento teve a própria família como anfitriã, demonstrando o alinhamento político da época.
Washington Reis, presidente estadual do MDB, não esconde suas intenções para 2026. Após o evento que selou a aliança com Paes, o dirigente confirmou que fará campanha para Flávio Bolsonaro na corrida presidencial. "Ali no evento não era importante tratar de presidencial, e sim de governador, mas vou fazer (campanha para o Flávio)", declarou o cacique emedebista.
A proximidade entre os clãs Reis e Bolsonaro foi tamanha que Duque de Caxias se tornou alvo de investigação da Polícia Federal por supostamente ter sido palco da falsificação do cartão de vacinas do ex-presidente. Até recentemente, Washington era considerado o favorito de Bolsonaro para liderar o palanque da direita no estado do Rio de Janeiro.
O Imbróglio Jurídico e a Mudança de Estratégia
A trajetória política de Washington Reis sofreu um revés significativo devido a questões judiciais. O dirigente emedebista encontra-se inelegível em razão de condenação por crime ambiental, situação que tenta reverter no Supremo Tribunal Federal (STF). A percepção de que as chances de sucesso na Corte eram remotas levou à reformulação completa da estratégia política da família.
Foi em um almoço realizado na semana passada, em Xerém - distrito de Duque de Caxias onde Washington reside -, que a aliança com Paes foi definitivamente selada. O encontro reuniu o prefeito carioca e seus principais aliados, resultando em um acordo considerado impactante por analistas políticos. O impacto se deve a dois fatores principais: o regional, unindo os dois maiores colégios eleitorais do estado, e o religioso, considerando a influência da família Reis junto às igrejas evangélicas.
A articulação demonstra a capacidade de adaptação da família Reis diante dos obstáculos jurídicos. Com Washington impedido de concorrer, a transferência do protagonismo para Jane representa uma jogada para manter a influência política do grupo, agora em uma aliança que transcende as divisões ideológicas tradicionais.
A Estratégia de Paes: Evitando a Polarização
Eduardo Paes deixou claro durante o evento de oficialização da aliança que sua estratégia passa por evitar a nacionalização da campanha eleitoral. Em um estado historicamente refratário ao petismo, o prefeito busca beber de diferentes fontes da disputa nacional sem ficar preso exclusivamente ao apoio de Lula.
"O que fazemos aqui hoje é juntar um grupo de pessoas que não pensa tudo igual, que pensa diferente. Que tem escolhas nacionais distintas, às vezes escolhas locais distintas, mas que entende que política é arte de juntar gente", declarou Paes na sede do MDB. O discurso evidencia a tentativa de construir uma frente suprapartidária focada nas questões estaduais.
O prefeito enfatizou ainda que "nosso país aqui é o Rio de Janeiro, e é disso que vamos tratar nos próximos meses", reforçando a estratégia de regionalização do discurso político. Segundo informações divulgadas, o presidente Lula foi comunicado no domingo sobre a aliança e demonstrou apoio "integral" ao movimento, sinalizando que o Palácio do Planalto compreende a necessidade de flexibilização ideológica no contexto fluminense.
O Perfil de Jane Reis
Jane Reis traz para a chapa um perfil que combina formação técnica e inserção social. Advogada de profissão, ela atua em projetos sociais na Baixada Fluminense e mantém forte interlocução com igrejas evangélicas da região. Sua trajetória profissional e social a credencia como uma ponte entre diferentes segmentos do eleitorado fluminense.
Durante seu discurso no evento de oficialização, Jane destacou sua fé como elemento norteador de sua atuação política. "Começo agradecendo a Deus, porque é uma grande missão. Deus está no comando. Eu, como evangélica, coloco Deus sempre em primeiro lugar", declarou a futura candidata a vice-governadora.
A escolha de Jane também representa um movimento de renovação dentro da família Reis, tradicionalmente dominada por figuras masculinas. O clã político mantém atualmente um deputado federal (Gutemberg), um estadual (Rosenverg) e o atual prefeito de Caxias (Netinho), demonstrando a capilaridade do grupo na política fluminense.
Apoios Nacionais e Articulação Partidária
O evento de oficialização da aliança contou com a presença de importantes figuras nacionais do cenário político. O presidente nacional do MDB, Baleia Rossi, esteve presente, assim como o ministro das Cidades, Jader Filho, demonstrando o aval da cúpula emedebista à estratégia adotada no Rio de Janeiro.
A solenidade também reuniu dirigentes e representantes de diversos partidos no estado, incluindo o PT, evidenciando a amplitude da frente política em construção. O vice-prefeito Eduardo Cavaliere (PSD), que assumirá a prefeitura do Rio no dia 20 de março, também compareceu ao evento, sinalizando continuidade administrativa.
Personalidades como o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, e o ex-presidente Michel Temer (MDB) enviaram vídeos de apoio, reforçando o respaldo nacional à iniciativa. A presença e manifestação dessas lideranças demonstram que a aliança transcende o âmbito estadual, podendo influenciar articulações políticas em nível nacional.
Impactos Eleitorais e Perspectivas
A aliança entre Paes e a família Reis promete redefinir o cenário eleitoral fluminense de forma significativa. A união dos dois maiores colégios eleitorais do estado - Rio de Janeiro e Duque de Caxias - cria uma base eleitoral robusta que pode ser decisiva no pleito de 2026.
O componente religioso da aliança não pode ser subestimado. A influência da família Reis junto às igrejas evangélicas da Baixada Fluminense representa um ativo político valioso em um estado onde esse segmento possui peso eleitoral crescente. A combinação entre a máquina administrativa de Paes na capital e a penetração dos Reis no interior e na Baixada cria um mosaico político de difícil contestação.
A estratégia de evitar a polarização nacional pode se mostrar acertada em um estado onde o eleitorado demonstra cansaço com os extremos políticos. Ao construir uma frente que dialoga tanto com lulistas quanto com bolsonaristas, Paes busca ocupar o centro do espectro político, tradicionalmente forte no Rio de Janeiro.
Desafios e Contradições
Apesar das vantagens estratégicas, a aliança também apresenta desafios significativos. A gestão das contradições internas será fundamental para o sucesso do projeto. Como conciliar apoiadores de Lula e Bolsonaro em uma mesma campanha sem gerar conflitos internos representa um teste de habilidade política para Paes e seus aliados.
A questão da nacionalização da campanha permanece como uma incógnita. Embora Paes declare intenção de focar nas questões estaduais, a pressão para posicionamentos sobre temas nacionais será inevitável, especialmente considerando que Washington Reis já sinalizou apoio a Flávio Bolsonaro para 2026.
A credibilidade da aliança também pode ser questionada por setores que veem na união uma articulação puramente pragmática, desprovida de coerência ideológica. A capacidade de construir uma narrativa convincente sobre os objetivos comuns será crucial para a legitimidade do projeto junto ao eleitorado.
Reflexos na Política Nacional
A experiência fluminense pode servir como laboratório para articulações similares em outros estados. A demonstração de que é possível construir alianças que transcendem a polarização nacional pode inspirar movimentos semelhantes, especialmente em estados onde nenhum dos polos ideológicos possui hegemonia clara.
Para o governo Lula, a aliança representa um teste de flexibilidade política. O apoio declarado do presidente à iniciativa sinaliza compreensão de que a governabilidade pode exigir concessões pragmáticas, mesmo que isso signifique dividir espaço com forças tradicionalmente adversárias.
Do lado bolsonarista, a adesão da família Reis a uma chapa que conta com apoio petista pode gerar tensões internas. A gestão dessas contradições será fundamental para manter a coesão do campo conservador, especialmente considerando a importância eleitoral do Rio de Janeiro no cenário nacional.
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