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Rio de Janeiro — O rooftop do hotel Yoo2, na enseada de Botafogo, foi o cenário da primeira edição do Entre Elas, encontro idealizado pela delegada Tatiana Queiroz, que reuniu mulheres influentes para debater liderança, política e comunicação.
Entre as convidadas, Eliana Ovalle, escritora, ativista e realizadora de eventos voltados ao público feminino, trouxe uma perspectiva que conecta psicologia, neurociência e vivência prática na luta contra a violência doméstica.
O livro que nasce da dor e se transforma em ferramenta de libertação
Eliana Ovalle é coautora, ao lado de Sylvia Jane Crivella, do livro "Relações Perigosas", obra que reúne quatro contos baseados em histórias reais de mulheres que romperam o ciclo de relacionamentos abusivos e reconstruíram suas vidas.
Publicado pela editora Novo Conceito, o livro aborda a violência doméstica sob uma perspectiva pouco explorada: a raiz psicológica e emocional que prende a vítima ao agressor.
"Mulheres que sofrem violência doméstica, muitas das vezes, têm vícios emocionais ligados à infância, porque assistiram a um pai batendo na mãe ou ouviram o pai dizendo que ela era muito burra.
Tudo isso vai gerando reações químicas no cérebro que acabam fazendo com que ela atraia inconscientemente homens desse mesmo nível, homens agressivos, narcisistas", explica.
A fala de Eliana encontra respaldo na literatura científica. Estudos publicados na Revista Psicologia, Diversidade e Saúde apontam a transgeracionalidade de comportamento, a transmissão de padrões de violência entre gerações, como um dos fatores associados à permanência de mulheres em relacionamentos abusivos.
Pesquisas do Tribunal de Justiça do Paraná (CEVID) indicam que a exposição à violência doméstica compromete a saúde mental da mulher, afetando capacidade de concentração, sono, tomada de decisões e aumentando os níveis de estresse.
O cérebro que aprende a sofrer
Eliana toca num ponto central do debate sobre violência doméstica: o papel da neurobiologia na formação de padrões relacionais.
Crianças expostas à violência familiar desenvolvem respostas neurológicas semelhantes às de soldados em zonas de guerra, segundo estudo publicado na revista científica Neuropsychopharmacology.
O cérebro em desenvolvimento se adapta ao ambiente hostil, normalizando a violência como parte das relações afetivas.
Esse mecanismo explica por que tantas mulheres inteligentes, bem-sucedidas e financeiramente independentes permanecem em relacionamentos abusivos. Não se trata de falta de informação ou de força de vontade; trata-se de padrões neurais consolidados ao longo de anos de exposição a modelos relacionais disfuncionais.
O Brasil registrou 1.568 feminicídios em 2025, o maior número desde a tipificação do crime, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
No primeiro trimestre de 2026, foram 399 casos, um a cada 5 horas e 25 minutos. Os dados indicam que, apesar do endurecimento das leis e do aumento das denúncias, a violência de gênero persiste como epidemia silenciosa.
Autoconhecimento como antídoto
Para Eliana, a saída passa necessariamente pelo autoconhecimento. A pessoa precisa ter autoconhecimento.
A gente fica muito triste porque, cada vez mais, as mulheres estão conquistando novos espaços, estão no poder, mas, ao mesmo tempo, essa dura realidade do feminicídio persiste."
O livro "Relações Perigosas" foi escrito justamente para preencher essa lacuna: oferecer às mulheres ferramentas para identificar padrões abusivos antes que eles se consolidem.
A obra parte de histórias reais para construir um manual de reconhecimento de sinais de alerta — ciúme excessivo, controle disfarçado de cuidado, isolamento social, desqualificação constante.
Próximo evento: Mulheres na Sociedade Bíblica do Brasil.
Eliana Ovalle anunciou durante a entrevista seu próximo compromisso: no dia 25 de junho, na Sociedade Bíblica do Brasil, mais um encontro voltado ao público feminino.
A agenda reflete seu trabalho contínuo de mobilização de mulheres em torno de pautas como inteligência emocional, fortalecimento pessoal e prevenção à violência doméstica.
"Eu realmente gosto de fazer eventos." Acabei de fazer um e o próximo vai ser agora no dia 25, na Sociedade Bíblica do Brasil para Mulheres. "A gente sempre tentando trazer alguma coisa para ajudar nossas queridas mulheres", afirmou.
A força das mulheres na política
Eliana destacou a presença de duas figuras políticas no evento Entre Elas como símbolo de esperança na luta contra o feminicídio: a deputada estadual Rosângela Gomes e a delegada Tatiana Queiroz, pré-candidata a deputada federal.
"É muito importante saber que nós temos duas mulheres que estão abraçando essa causa do feminicídio e botando para quebrar", disse.
A fala reflete um momento em que a pauta da violência de gênero ganha protagonismo no debate político brasileiro.
A pré-candidatura de Tatiana Queiroz — que acumula 24 anos de carreira policial e liderou operações que resultaram em mais de 1.500 prisões de agressores — representa a chegada de uma voz técnica e experiente ao Congresso Nacional.
Perfil: Eliana Ovalle
Eliana Ovalle é escritora, ativista e realizadora de eventos voltados ao público feminino no Rio de Janeiro.
É coautora do livro "Relações Perigosas", ao lado de Sylvia Jane Crivella, obra que aborda a violência doméstica a partir de histórias reais de superação e oferece ferramentas de autoconhecimento para mulheres em situação de vulnerabilidade emocional.
Com atuação constante na mobilização de mulheres em torno de pautas como inteligência emocional, fortalecimento pessoal e prevenção à violência de gênero, realiza encontros periódicos em diferentes espaços da cidade, incluindo a Sociedade Bíblica do Brasil.
Sua abordagem conecta psicologia, neurociência e vivência prática para ajudar mulheres a identificar padrões abusivos e romper o ciclo da violência. Pode ser encontrada no Instagram @elianaovalleoficial.

Por Robson Talber @robsontalber
Repórter Antonio Lemos @djportugues
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