Priscila Seixas e o Instituto Burburinho: Cultura como Ferramenta de Transformação Social

Direto do evento Entre Elas, o Jornal da República traz entrevista exclusiva com a CEO da Burburinho Cultural, que une tecnologia, educação e políticas públicas para levar oportunidades a jovens em vulnerabilidade.

O Método Burburinho: Cultura no Centro do Desenvolvimento

Em um cenário onde a violência se alastra nas comunidades do Rio de Janeiro, Priscila Seixas apresenta uma resposta que foge do imediatismo. "Quando a gente fala de violência, a gente sempre pensa a curto prazo, como se a gente pudesse resolver rapidamente", alerta. Para ela, a cultura funciona como um "rejunte" — porque permite que crianças e jovens voltem a sonhar.

Um dos motivos que leva à violência, explica, é a perda da perspectiva de acesso e transformação. "É como se a gente não pudesse acessar a oportunidade. A cultura traz para a realidade desses jovens a perspectiva de ter acessos onde é possível transformar."

Doutora em Mídia e Cotidiano pela UFF, com pesquisa sobre a midiatização da Lei Rouanet, Priscila fundou o Instituto Burburinho em 2023, em um contexto que enxerga a cultura como central no desenvolvimento econômico, humano e social. O método Burburinho une política cultural — pautada pelas leis de incentivo do Brasil, desde a Lei Rouanet (1991) até as leis estaduais e municipais — com políticas públicas que tratam a cultura como aliada da educação, da tecnologia e da sociedade.

Robótica, Jogos e Teatro: Os Projetos que Deram Certo

O Instituto Burburinho opera com projetos que já alcançaram mais de 27 cidades em seis estados brasileiros nos últimos três anos. Entre os principais:

Engenhoca — Projeto de robótica que une história da arte e tecnologias. A equipe entra na escola, monta um estúdio maker, e as crianças fazem uma jornada criativa construindo robôs a partir de referências artísticas.

Cria Jogos — Mais de 27 laboratórios inaugurados pelo país, trabalhando a cultura digital e mostrando como o game e o telefone podem ser aliados da educação, não vilões.

Arco-íris — Revitalização de escolas: mais de 16 unidades transformadas pelo país com intervenções artísticas e estruturais.

Arena Viva — Teatro como ferramenta de debate. Em 2025, o projeto trabalhou a história de Aia, abordando a cultura afro-brasileira em cumprimento à Lei 10.639, que há 23 anos obriga o ensino da história afro-brasileira nas escolas — mas que, segundo Priscila, ainda não é plenamente aplicada.

Sami — Focado em mulheres que "brilham", o projeto gera renda por meio de gastronomia, tecnologia e artesanato, criando mecanismos de empreendedorismo feminino.

A Economia da Cultura: R$ 1 Investido, R$ 7 de Retorno

Questionada sobre o preconceito que setores da direita brasileira nutrem contra a Lei Rouanet, Priscila é direta: "Quase todos os países do mundo têm a cultura aliada à participação do Estado."

Ela cita dados da Fundação Getulio Vargas (FGV) que comprovam: a cada R$ 1 investido via Lei Rouanet, R$ 7 retornam para a sociedade. O problema, segundo ela, é que o brasileiro ainda enxerga cultura como entretenimento — e não como investimento estruturante.

"A gente ainda tem uma relação pelo senso comum desde a CPI da Rouanet de 2016, que a cultura é um lugar de corrupção. Na verdade, a cultura é um lugar de transformação, de resistência, de criação de possibilidades."

A pesquisadora vai além em sua análise crítica: "Se a gente quer queimar os livros, que as pessoas parem de pensar criticamente... a cultura abre o mundo por uma perspectiva crítica. Às vezes, quando a gente não quer investir na cultura, é porque a gente também não quer que as pessoas tenham uma visão crítica de mundo."

Desinformação e Educação Crítica: O Legado de Paulo Freire

Em um país onde o brasileiro é um dos povos mais conectados do mundo — passando horas diárias nas redes —, Priscila alerta que conexão não significa aprendizado. A chave para combater a desinformação, defende, está na educação crítica, conceito que remonta a Paulo Freire.

"O que diferencia a minha leitura de uma informação da sua? A maneira como a gente entende o mundo criticamente. A fórmula está na educação", afirma.

Mas a educação tradicional, reconhece, enfrenta dificuldades diante de um mundo acelerado, onde as pessoas leem em blocos de 30 segundos e consomem conteúdo cada vez mais curto. A saída, para Priscila, é transformar a forma de educar — e a cultura é o elo mais potente para isso.

"Quando a gente chega com um projeto de teatro dentro de uma escola, as crianças ficam. Quando a gente chega com um projeto de grafite, todo mundo larga os telefones e vai pintar os muros. Quando a gente chega com a robótica, as crianças estão criativamente construindo robôs."

Bio: Priscila Seixas

CEO da Burburinho Cultural, Priscila Seixas é doutora em Mídia e Cotidiano pela Universidade Federal Fluminense (UFF), onde pesquisou a midiatização da Lei Rouanet. É também mestre em Ciência da Arte pela UFF e bacharel em Produção Cultural pela mesma instituição. Professora da Faculdade Senac Rio, é especialista em gestão de projetos culturais. Ao longo de sua trajetória, acumulou reconhecimentos expressivos: ganhadora do Prêmio Rio Sociocultural 2011 com o projeto Cordel com a Corda Toda, do Prêmio Atitude Carioca 2022 na categoria "Impulsionando o Rio", e finalista do Prêmio SEBRAE Mulher de Negócios 2022. Autora de livro sobre sua metodologia, Priscila comanda há 20 anos uma organização que hoje leva cultura, tecnologia e oportunidades a milhares de jovens em todo o Brasil.

Repórter Ralph Lichotti - Advogado e Jornalista, Editor do Ultima Hora Online e Jornal da República, Foi Sócio Diretor do Jornal O Fluminense e acionista majoritário do Tribuna da Imprensa, Secretário Geral da Associação Nacional, Internacional de Imprensa - ANI, Ex- Secretário Municipal de Receita de Itaperuna-RJ, Ex-Presidente da Comissão de Sindicância e Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa - ABI - MTb 31.335/RJ

Por Robson Talber @robsontalber 

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Fontes: Entrevista exclusiva concedida ao Jornal da República durante o evento Entre Elas. Dados da FGV sobre retorno econômico da Lei Rouanet citados pela entrevistada.

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Por Jornal da República em 25/06/2026
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