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Rio de Janeiro — Atlântico Sul, Barra da Tijuca — Enquanto o evento Rede de Liderança e Segurança Feminina movimentava o salão principal, um dos convidados carregava na pasta não discursos sobre proteção à mulher, mas o roteiro de um filme que ainda não nasceu.
Guilherme Datti, roteirista audiovisual, aproveitou a pausa entre as palestras para falar sobre o projeto que ocupa sua vida em tempo integral: uma comédia romântica ambientada em Vassouras, cidade histórica do interior do Rio de Janeiro.
O texto, escrito em parceria com Maria Moretson, está pronto há mais de dois anos. A pré-produção, no entanto, é uma jornada à parte.
A pré-produção demora tanto quanto até você conseguir levantar verba, dinheiro, contratar elenco, equipe. Tudo é muito demorado no Brasil, infelizmente", afirmou.
A declaração contrasta com os números oficiais do setor. Em 2025, o audiovisual brasileiro registrou o maior volume de investimento da história: R$ 1,41 bilhão em recursos públicos desembolsados, segundo a Agência Nacional do Cinema (Ancine).
O montante representa um crescimento de 29% em relação ao ano anterior. O Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) projetou para 2026 a destinação de mais R$ 1,4 bilhão.
Mas, para quem está na ponta — captando recursos, montando equipe, viabilizando um projeto do papel para as telas —, o acesso a esse dinheiro ainda é um labirinto.
O hiato entre o texto e a tela
O roteiro de uma comédia romântica pode parecer um projeto leve para quem assiste.
Para quem produz, é um exercício de resistência. Guilherme explicou que o texto está finalizado há mais de dois anos, mas a engrenagem que transforma palavras em imagens depende de variáveis que o cinema independente brasileiro conhece bem: editais, leis de incentivo, patrocínios e parcerias.
"No momento estou dedicado ao filme exclusivamente em tempo integral, porque a gente precisa fazê-lo sair esse ano ainda." Ano que vem temos projetos futuros."
A fala traduz o dilema de centenas de roteiristas e diretores independentes no Brasil. O Valor Econômico destacou em maio de 2026, durante o Rio2C (um dos maiores eventos de criatividade do mundo), que o acesso a financiamento continua sendo o principal desafio da indústria audiovisual brasileira.
Especialistas reunidos no evento apontaram que o setor precisa "construir um ambiente mais estável para atrair recursos privados" — uma crítica à dependência histórica do fomento público.
Vassouras como cenário: história e cinema.
A escolha de Vassouras como cenário não é aleatória. A cidade, localizada no Vale do Café, é um dos municípios mais preservados do estado do Rio de Janeiro, com arquitetura do século XIX, ruas de paralelepípedo e um casario histórico que a torna um set de filmagem natural.
Foi sede da maior produção cafeeira do país no Império e mantém intacto o circuito de fazendas históricas que atraem turistas e produtores culturais.
O filme de Guilherme Datti e Maria Moretson pretende usar a paisagem da cidade como pano de fundo para uma história de amor — gênero que, segundo dados da Ancine, representa cerca de 12% da produção nacional de longas-metragens, atrás de dramas e documentários.
O cinema independente em números
O Brasil produziu 213 longas-metragens em 2025, dos quais 164 eram de produção independente, segundo o Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual (OCA/Ancine).
O número é expressivo, mas esconde uma realidade: a maioria desses filmes enfrenta dificuldades de distribuição e chega a um público reduzido.
Das 106 plataformas de vídeo sob demanda com oferta de conteúdo no Brasil, apenas 5,3% do catálogo é composto por obras nacionais. Nas quatro plataformas estrangeiras de maior audiência, esse percentual cai para 2,7%.
O contraste entre os recordes de investimento e a dificuldade de realização na ponta revela uma indústria em transformação. "Vocês acham que é fácil fazer produção no Brasil? Não é fácil. Depois a gente vê tudo bonito no cinema, mas não sabe a trabalheira que deu", desabafou Guilherme.
O que vem a seguir
O roteirista projeta que o filme seja finalizado ainda em 2026. Para 2027, outros projetos já estão no radar. A dedicação exclusiva ao longa-metragem é uma aposta arriscada em um setor em que o retorno financeiro é incerto: segundo a Ancine, apenas 1 em cada 5 filmes nacionais independentes consegue recuperar o investimento em bilheteria.
Mas, como ele mesmo disse, fechando a entrevista com um sorriso: "Vale a pena no final."
Bio: Guilherme Datti.
Guilherme Datti é roteirista audiovisual com atuação no cinema independente brasileiro. Atualmente dedica-se em tempo integral à pré-produção de uma comédia romântica ambientada em Vassouras (RJ), com texto de sua autoria em parceria com Maria Moretson.
O projeto, que já tem o roteiro finalizado há mais de dois anos, atravessa a fase de captação de recursos e contratação de elenco e equipe.
Guilherme representa a nova geração de profissionais do audiovisual que enfrenta os desafios estruturais da produção cinematográfica no Brasil: editais, leis de incentivo e a busca por financiamento em um setor que, apesar dos recordes de investimento, ainda oferece obstáculos significativos para realizadores independentes.

Por Robson Talber @robsontalber
Repórter Renata Barbosa @beleza.naotemidade
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