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Rio de Janeiro — O Complexo da Maré não é uma favela. São 15 comunidades que, juntas, formam uma cidade de 140 mil habitantes encravada na Zona Norte do Rio de Janeiro — maior do que 96% dos municípios brasileiros.
É dentro desse território de contrastes que a ONG Nova Direção opera há 14 anos, com uma missão que parece simples, mas enfrenta um dos problemas mais estruturais do país: preparar mulheres para ganhar o próprio dinheiro.
A fundadora do projeto, Edna Gomes, esteve no evento Entre Elas — encontro sobre liderança, comunicação e política realizado na Enseada de Botafogo — e concedeu entrevista ao Jornal da República e Última Hora. O que ela construiu na Maré é um caso raro de política pública que nasceu da sociedade civil e deu certo.
"O projeto nasceu justamente para impactar mulheres, mães solo, para que elas venham a potencializar seu crescimento, seu desenvolvimento e mostrar que não são só mães solo, mas são provedoras de casa também", afirmou.
O Brasil das mães que criam filhos sozinhas.
Os números que justificam a existência de projetos como a Nova Direção são conhecidos de qualquer gestor público, mas raramente são enfrentados com soluções concretas. O Censo Demográfico 2022, divulgado pelo IBGE, revelou que o Brasil possui 10.321.121 unidades domésticas chefiadas por mulheres que vivem com seus filhos e sem a presença do cônjuge. Para cada pai solo, há seis mães criando filhos sozinhas.
No Rio de Janeiro, a realidade da Maré reflete esse retrato nacional com tintas mais fortes. O Censo Maré 2019 — levantamento local que mapeou as 15 comunidades do complexo — já apontava que a maior parte das famílias era chefiada por mulheres, com renda média abaixo de dois salários mínimos e acesso restrito a serviços formais.
A Nova Direção atua exatamente nesse ponto de ruptura: oferecer capacitação profissional que permita à mulher gerar renda sem abrir mão do cuidado com os filhos.
Uma grade de cursos que cabe na vida real.
O portfólio de cursos da Nova Direção não foi montado em um escritório de consultoria. Ele nasceu da escuta da comunidade. As áreas mais procuradas são as da beleza e do bem-estar — setores que permitem à mulher trabalhar em casa, perto dos filhos, com investimento inicial baixo.
"Hoje a instituição se desenvolve por meio da capacitação profissional, principalmente na área da beleza: design, lash design, massoterapia, epilação, barbearia, nail design, manicure iniciante."
"São diversos cursos, com uma grade extensa", explicou Edna.
A escolha não é casual. O mercado de beleza no Brasil faturou R$ 242,3 bilhões em 2026, segundo dados do setor, e continua sendo uma das portas de entrada mais rápidas para o empreendedorismo feminino em comunidades de baixa renda.
Uma manicure pode montar seu próprio negócio com menos de R$ 200 em equipamentos. Um curso de design de sobrancelhas custa uma fração do que uma faculdade exige — e o retorno pode começar na semana seguinte.
Quatorze anos, 10 mil alunos e um método
Em 14 anos de funcionamento ininterrupto dentro do Complexo da Maré, a Nova Direção já formou mais de 10 mil alunos. O número impressiona não apenas pelo volume, mas pela consistência: a maioria absoluta são mulheres que entraram no projeto sem renda própria e saíram com uma profissão.
"A instituição já preparou mais de 10 mil alunos. "São 14 anos de existência da Nova Direção no mercado", afirmou Edna.
O projeto funciona na Rua Novo Horizonte, 1.015, na Vila do João — uma das 15 comunidades da Maré. O espaço oferece cursos presenciais, com instrutores contratados da própria região, gerando um ciclo de emprego e capacitação que retroalimenta a economia local.
A ONG mantém parcerias com voluntários e pequenos apoiadores, mas sobrevive principalmente da resiliência de sua fundadora e da demanda reprimida por qualificação.
O que move quem começou
Edna Gomes não é uma CEO de startup social com currículo internacional. Ela é uma moradora da Maré que enxergou, dentro da própria comunidade, a falta de oportunidades que impedia outras mulheres de saírem do ciclo de dependência.
"Estamos dentro de uma comunidade em que muitas pessoas têm um grau de escolaridade baixo, fácil acesso ao mercado com muita dificuldade." Foi onde surgiu essa oportunidade de preparar mulheres para que elas possam ter sua independência, cuidar do filho, da saída de casa para a escola e da escola para casa, sem deixar de ter sua renda", disse.
A fala de Edna traduz um dilema que o mercado de trabalho formal insiste em ignorar: a mulher que cuida dos filhos sozinha não pode simplesmente "arrumar um emprego". Precisa de algo que se adapte à rotina de levar e buscar na escola, de ficar em casa quando o filho adoece, de não ter com quem dividir a logística doméstica.
A capacitação em áreas que permitem o trabalho autônomo é, muitas vezes, a única saída real.
O recado para quem quer começar
Edna deixou o convite aberto. Quem quiser conhecer o projeto ou se inscrever nos cursos pode entrar em contato pelo WhatsApp (21) 97117-7122 ou pelo Instagram @nova.direcao. O site oficial da ONG é ongnovadirecao.com.br.
"Não desistir, não deixar com que as pessoas falem o contrário", disse Edna em uma de suas postagens nas redes sociais, dirigindo-se às mulheres que pensam em empreender.
Bio: Edna Gomes.
Edna Gomes é fundadora e presidente da ONG Nova Direção, organização que há 14 anos atua no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, oferecendo capacitação profissional gratuita para mulheres em situação de vulnerabilidade.
Sob sua liderança, o projeto já formou mais de 10 mil alunos em cursos profissionalizantes nas áreas da beleza e bem-estar. Nascida e criada na Maré, Edna construiu a Nova Direção a partir da observação direta das necessidades da comunidade, criando um modelo de ensino que prioriza a independência financeira de mães solo e a geração de renda dentro do próprio território.
O projeto funciona na Rua Novo Horizonte, 1.015, Vila do João, e pode ser contatado pelo WhatsApp (21) 97117-7122, Instagram @nova.direcao e site ongnovadirecao.com.br.

Por Robson Talber @robsontalber
Repórter Oscar Muller @oscarmulleroficial
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