Estreito de Ormuz: há alternativas para escoar o petróleo do Golfo?

Estreito de Ormuz: há alternativas para escoar o petróleo do Golfo?

A escalada militar envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel reacendeu um dos maiores temores do mercado global de energia: o fechamento do Estreito de Ormuz, a artéria por onde escoa cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito transportados por via marítima no mundo. Ainda não se sabe por quanto tempo o canal permanecerá fechado, mas os efeitos devem ser sentidos em todo o mundo, em especial na Ásia.

Diante desse cenário, a pergunta central é: há alternativas viáveis para os países do Golfo escoarem sua produção?

A resposta é sim, mas insuficientes para substituir plenamente Ormuz. Segundo a U.S. Energy Information Administration (EIA), um bloqueio poderia reter entre 20% e 25% do petróleo exportado globalmente, algo superior a 20 milhões de barris por dia. Analistas projetam que, em caso de interrupção significativa, o Brent poderia superar rapidamente a marca de US$ 100 por barril.

Em 2024, de acordo com análise das pesquisadoras Candace Dunn e Justine Barden, da EIA:

 

 

• 84% do petróleo bruto e condensado que transitaram por Ormuz tiveram como destino a Ásia;
• 83% do GNL também seguiram para mercados asiáticos;
• China, Índia, Japão e Coreia do Sul responderam por 69% do fluxo total de petróleo bruto e condensado.

Isso significa que o choque seria particularmente severo para a Ásia, altamente dependente do Golfo.

Rotas alternativas
Apesar da centralidade de Ormuz, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Irã desenvolveram oleodutos terrestres para reduzir parcialmente a dependência da rota marítima.

Arábia Saudita – Oleoduto Leste-Oeste (Petroline)
O sistema liga os campos no Golfo ao porto de Yanbu, no Mar Vermelho.
• Capacidade estimada: 5 milhões de barris/dia, podendo chegar a 7 mb/d.
• Permite exportação via Mar Vermelho, contornando Ormuz.
É a alternativa mais robusta da região, mas ainda insuficiente frente ao volume total exportado pelo Golfo.

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Emirados Árabes Unidos – Habshan–Fujairah (ADCOP)
Conecta os campos de Abu Dhabi ao porto de Fujairah, já no Golfo de Omã, fora da área crítica do estreito.
• Capacidade: cerca de 1,5 a 1,8 mb/d.
• Reduz exposição direta ao risco geopolítico.

 Irã – Oleoduto Goreh–Jask
Inaugurado em 2021, foi desenhado justamente para permitir exportações iranianas fora de Ormuz.
• Capacidade estimada: 300 mil a 350 mil barris/dia.
• Escala modesta frente ao volume potencialmente afetado.

Mesmo somadas, as rotas alternativas disponíveis não compensariam integralmente um bloqueio total do estreito, segundo a segundo a EIA. A infraestrutura terrestre cobre apenas uma fração dos mais de 20 milhões de barris/dia que passam por Ormuz. Além disso, nem todos os países do Golfo possuem oleodutos alternativos, e parte do petróleo transportado por Ormuz segue para refinarias específicas, com cadeias logísticas desenhadas para aquela rota.

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Enquanto a Ásia absorveria o choque principal em caso de interrupção no Estreito de Ormuz, os Estados Unidos apresentam hoje uma exposição relativamente menor ao risco. Em 2024, segundo relatório da EIA, o país importou cerca de 0,5 milhão de barris por dia de petróleo bruto e condensado provenientes do Golfo Pérsico via Ormuz, volume equivalente a 7% do total das importações americanas desses produtos e a apenas 2% do consumo total de líquidos de petróleo no mercado doméstico.

A combinação entre o avanço da produção interna e o aumento das compras do Canadá reduziu de forma significativa a dependência energética americana do Golfo. Segundo dados recentes, o patamar atual é o mais baixo em quase quatro décadas. O cenário é bastante diferente para economias asiáticas. Países como o Japão, cuja dependência do petróleo do Oriente Médio supera 80%, enfrentariam um impacto muito mais severo, tanto em termos de abastecimento quanto de preços, caso o fluxo pelo estreito fosse comprometido.

 

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Por Jornal da República em 02/03/2026
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