Estudo revela que 60,7% das famílias em favelas vivem com insegurança alimentar e crianças enfrentam dupla carga de má nutrição 

Pesquisa do Instituto Desiderata aponta impacto do território no acesso à alimentação e expõe contradição entre fome e obesidade infantil no Brasil 

Estudo revela que 60,7% das famílias em favelas vivem com insegurança alimentar e crianças enfrentam dupla carga de má nutrição 

Rio de Janeiro - A pesquisa “Ambientes alimentares em favelas: Percepção sobre o acesso aos alimentos de moradores de favelas brasileiras” foi realizada com 900 domicílios nos territórios do Complexo da Maré (RJ), Caramujo (RJ) e Coque (PE). Resultado de um estudo elaborado pelo Instituto Desiderata, que revela um cenário crítico e estrutural onde mais de 60,72% das famílias vivem com algum grau de insegurança alimentar, enquanto 34,7% das crianças entre 5 e 10 anos apresentam excesso de peso. 

A publicação mostra que, mais do que escolhas individuais, a alimentação nesses territórios é resultado de limitações estruturais e sociais. Como o preço, que aparece como a principal barreira de acesso à alimentação saudável, citado por cerca de 43% dos entrevistados. Que afirmam que mesmo quando alimentos in natura estão disponíveis, eles não são economicamente viáveis para grande parte das famílias. Ao mesmo tempo, alimentos ultraprocessados se destacam pela maior presença nesses territórios. 

O estudo também revela desafios concretos de acesso físico, como 33% das pessoas levam mais de 30 minutos para chegar ao principal local de compra de alimentos 

58% realizam esse trajeto a pé. A maior parte das compras acontece em comércios próximos ou supermercados, reforçando a dependência da oferta local que configura o que especialistas chamam de “pântanos alimentares”, ou seja, territórios com alta concentração de estabelecimentos que vendem alimentos não saudáveis e “desertos alimentares”, onde há baixa oferta de opções saudáveis acessíveis. 

 

Aspas da especialista aqui comentando sobre esses conceitos e fazendo conexão com a pesquisa que mencionou durante nossa conversa nesta quarta. Ambientes saudáveis geram escolhas saudáveis, mas o direito à alimentação passa, necessariamente, pela real possibilidade de escolher. É fundamental que a promoção de alimentos frescos e nutritivos nas comunidades seja o centro de políticas públicas consistentes. Só alcançaremos a equidade na saúde alimentar quando o CEP de uma pessoa não for um impeditivo para isso 

O perfil das famílias reforça esse cenário, onde 89% dos responsáveis pela alimentação são mulheres, majoritariamente negras e, em média, os domicílios têm 4 pessoas. Mesmo diante da insegurança alimentar, os dados mostram uma coexistência preocupante. A fome e o excesso de peso caminham juntos. Esse fenômeno, conhecido como dupla carga da má nutrição, é resultado de um ambiente alimentar que favorece produtos com alto teor calórico e baixo valor nutricional. 

Entre as crianças avaliadas, mais de 21% apresentam sobrepeso e 12,95% obesidade. E o consumo de ultraprocessados é frequente no cotidiano. A pesquisa também destaca o papel central da escola como espaço de proteção alimentar. Com 89,81% das crianças matriculadas, a alimentação escolar representa, para muitas delas, uma das principais refeições do dia. Mais de 53% almoçam na escola, e 64,47% aceitam bem a alimentação oferecida, indicando potencial para construção de hábitos mais saudáveis. 

Outro fator crítico identificado é a instabilidade da rotina em territórios marcados por vulnerabilidade social. Questões de segurança pública, como operações policiais, o fechamento de escolas impactam diretamente o acesso à alimentação, interrompendo uma rede essencial de proteção para crianças. 

A publicação é uma fotografia das desigualdades alimentares no Brasil, reforçando a necessidade de políticas públicas intersetoriais, com foco em acesso físico e econômico a alimentos saudáveis, fortalecimento da alimentação escolar e ações territorializadas que considerem as especificidades das favelas. 

Acesse a pesquisa na íntegra em: https://campanhas.desiderata.org.br/acesso-aos-alimentos-por-familias-com-criancas-residentes-em-favelas-lp/.

 

Foto de ALLAN FRANCA CARMO

Por Jornal da República em 10/04/2026
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