Fé que alimenta: terreiro de Candomblé atende 400 pessoas por mês em Nilópolis

No mês de combate à intolerância religiosa, terreiro de Candomblé prova que solidariedade não tem religião

Fé que alimenta: terreiro de Candomblé atende 400 pessoas por mês em Nilópolis

No mês dedicado ao combate à intolerância religiosa, o Abril Verde, uma iniciativa nascida dentro de um terreiro de Candomblé em Nilópolis, na Baixada Fluminense, mostra que fé e solidariedade caminham juntas, independentemente de quem bate palma ou fecha a porta.

O Projeto Curupapá de Maria Mulambo, vinculado ao Ilê Asé Sakpata Ilekunle, distribui quentinhas, cestas básicas e apoio social a cerca de 400 pessoas por mês entre os moradores em situação de vulnerabilidade da região. Mais do que comida no prato, o projeto oferece escuta, amparo espiritual e, quando necessário, faz visitas domiciliares para àqueles que não conseguem chegar até o terreiro.

Uma ordem espiritual que virou missão social

À frente de tudo isso está Pai Bruno, líder espiritual do Ilê Asé Sakpata e alguém que conhece de perto o que é não ter para onde ir. Ele mesmo já viveu em situação de rua, e carrega essa experiência como parte do que o move até hoje.

"Ter vivido em situação de rua me fez rever conceitos humanitários que vão além de só acolher ou de ajudar a alimentar. Me faz partir para dar dignidade e esperança a quem não tem", conta Pai Bruno.

O projeto nasceu há cinco anos a partir de uma orientação espiritual recebida pela entidade Maria Mulambo, que Pai Bruno descreve como a figura matriarcal do terreiro. Segundo ele, a ordem era clara: quem chegasse ao ilê em busca de ajuda deveria ser atendido da mesma forma que os próprios filhos de santo da casa.

"A ordem espiritual que recebi foi justamente dessa entidade, que hoje representa a figura matriarcal do nosso Ilê Asé. O cuidado é realmente de mãe, cada detalhe, cada acolhimento, cada ajuda alimentar", diz o líder espiritual.

Abril Verde e o que ele representa para projetos como este

A data tem respaldo legal no Rio de Janeiro. A Assembleia Legislativa do Estado (Alerj) aprovou o projeto de lei que institui o Abril Verde, mês dedicado a ações de combate, prevenção e conscientização sobre a intolerância religiosa. A norma garante a inviolabilidade de consciência e de crença, com livre manifestação do sentimento religioso, livre exercício dos cultos e proteção aos locais de culto e suas liturgias.

"Compreendemos que a intolerância religiosa não pode ser combatida apenas pela via da repressão e da penalização. Um dos caminhos é a via da educação, da conscientização e do compromisso do Estado", afirmou a deputada Renata Souza (PSol), uma das autoras do projeto.

Para o Projeto Curupapá, esse reconhecimento chega como um alento, mas não apaga o que já foi enfrentado na prática.

Preconceito não parou o projeto

O Projeto Curupapá enfrentou, e ainda enfrenta, resistência por ser conduzido por um terreiro de Candomblé. Pai Bruno reconhece que o preconceito chegou a se intensificar em certos períodos, mas garante que o projeto nunca recuou.

"Infelizmente, vivemos num país laico somente de nome. Alguns anos atrás estava bem pior, mas conseguimos nos manter e o projeto segue firme como sempre esteve", afirma.

Quem está por trás do projeto

Toda a operação é tocada por filhos de santo do Ilê Asé e por colaboradores próximos que estão na causa desde o início. O projeto não recebe apoio governamental e sobrevive de recursos próprios e de doações de pessoas solidárias.

"Precisamos de mais para realizar mais. Hoje o projeto pede ajuda e socorro para que possamos manter sempre ativo esse trabalho. É um grito de socorro", alerta Pai Bruno.

Uma família que perdeu tudo na chuva e recomeçou

Entre os inúmeros casos que marcaram o projeto, Pai Bruno lembra de uma família que morava às margens de um rio de esgoto no bairro Chatuba, em Mesquita. Depois de um temporal, perderam o barraco e tudo que tinham conquistado com o trabalho de reciclagem. De manhã cedo, uma mãe com cinco filhos e um recém-nascido apareceu no portão do terreiro, todos encharcados, sem ter para onde ir.

"Saímos de casa em casa pedindo doações de roupas infantis e eletrodomésticos. Os alimentos foram por nossa conta própria, e conseguimos colocar a família numa casa onde arcamos com o aluguel", relembra Pai Bruno.

Hoje, essa família está bem. As crianças estudam e estão formalmente amparadas. É esse tipo de história que, segundo Pai Bruno, justifica cada esforço, cada doação pedida e cada porta que ainda precisa ser aberta.

Foto: Ejigbo Fotografia

Por Jornal da República em 17/04/2026
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