Flávio apaga posts em que chamava Bolsa Família de bolsa-farelo e acusava PT de comprar votos

Levantamento do Estadão identifica exclusão de mensagens publicadas entre 2011 e 2014; senador agora afirma que o Bolsa Família será preservado em eventual governo

Flávio apaga posts em que chamava Bolsa Família de bolsa-farelo e acusava PT de comprar votos

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, apagou de sua conta no X, antigo Twitter, publicações nas quais criticava o Bolsa Família, chamava programas de transferência de renda de “bolsa-farelo” e acusava o PT de utilizar benefícios sociais para obter apoio eleitoral. A exclusão das mensagens, divulgada nesta segunda-feira (19) pelo Estadão, ocorre na reta final do segundo turno, quando o candidato passou a assegurar publicamente que manterá o programa caso seja eleito.

As publicações foram identificadas pelo jornal a partir de um arquivo com o histórico de postagens do senador, obtido em junho deste ano. O material reúne textos, datas, horários e endereços originais das mensagens, permitindo comparar o conteúdo publicado anteriormente com o que permanece disponível na plataforma.

Segundo o Estadão, todas as mensagens mencionadas em uma reportagem publicada há quatro meses sobre as mudanças no discurso de Flávio em relação ao Bolsa Família foram excluídas. Procurada pelo jornal para explicar as remoções, a campanha não respondeu até a publicação da reportagem.

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Flávio acusava PT de manter beneficiários dependentes do auxílio

Entre as publicações apagadas está uma mensagem de junho de 2013 na qual Flávio Bolsonaro afirmava que o PT “perpetua a pobreza com o bolsa-farelo, mantendo as pessoas nessa dependência para não perder seus votos”.

A crítica atribuía ao partido uma estratégia eleitoral baseada na dependência dos beneficiários em relação aos programas de transferência de renda. A acusação, feita pelo então deputado estadual, não vinha acompanhada, no material apresentado, de comprovação de que essa fosse a finalidade do programa.

Em outra postagem, de 2014, Flávio fez referência à Comissão Nacional da Verdade, responsável por investigar violações de direitos humanos durante a ditadura militar, para criticar o Bolsa Família.

“#ComissãoDaVerdadeDescobre que dinheiro cai do céu e ninguém precisa trabalhar dobrado para manter quem vive de bolsa família”, escreveu o parlamentar na ocasião.

Ainda em 2014, o atual candidato questionou os indicadores de desemprego e associou o recebimento de benefícios sociais à ausência de procura por trabalho.

“Os milhões que recebem bolsa-família ou auxílio-desemprego, não procuram emprego. Para o PT, estão empregados”, afirmou em uma publicação que também foi removida.

As mensagens mostram o teor das críticas feitas pelo senador ao longo dos anos, em contraste com a posição defendida atualmente durante a campanha presidencial.

Senador também criticou programa social do governo do Rio

A expressão “bolsa-farelo” não foi utilizada apenas em referências ao Bolsa Família. Flávio Bolsonaro também empregou o termo para atacar o Renda Melhor, programa criado pelo governo do Estado do Rio de Janeiro em 2011.

A iniciativa previa o pagamento de um benefício complementar de até R$ 300 a famílias que já recebiam o Bolsa Família, com o objetivo de combater a extrema pobreza.

Na época, Flávio exercia mandato de deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) e se posicionou contra a proposta.

Em 24 de novembro de 2011, respondeu a uma publicação do jornalista Ancelmo Gois afirmando:

“Fui o único voto contra na @alerj ao projeto ‘Renda Melhor’, q chamei de ‘bolsa-farelo’, pelo seu caráter clientelista eleitoral”.

O senador fez cinco publicações sobre a aprovação do programa naquele mês. Em todas, segundo o levantamento do Estadão, utilizou a mesma expressão depreciativa.

Em uma delas, afirmou ter apresentado emendas para limitar a duração do auxílio.

“Fiz emendas ao projeto, q foram rejeitadas, p/ limitar em 2 anos o tempo p/ a pessoa receber o ‘bolsa-farelo’”, escreveu.

Na mensagem seguinte, acrescentou: “Se houvesse o limite de tempo p/ pessoa receber o ‘bolsa-farelo’ poderia até ser favorável…”.

As publicações também foram excluídas.

Em outro episódio de 2011, Flávio criticou um acordo entre o PT e partidos de oposição para aprovar um reajuste de benefício social. Na ocasião, classificou a iniciativa como “financiamento público de campanha do PT”.

Flávio agora diz que Bolsa Família está garantido

As exclusões vieram à tona no mesmo dia em que Flávio Bolsonaro divulgou um vídeo no Instagram procurando tranquilizar os beneficiários do Bolsa Família.

Na gravação, o candidato afirmou que quem recebe o auxílio pode ficar “tranquilo” porque o “benefício está garantido”.

A declaração acompanha a mudança de abordagem do senador em relação aos programas sociais durante a campanha presidencial.

Em junho, quando o Estadão publicou a primeira reportagem sobre seu histórico de críticas ao Bolsa Família, Flávio negou que tivesse alterado sua posição.

Agora, a retirada das mensagens antigas coincide com a discussão sobre uma proposta apresentada pela equipe econômica do candidato para modificar as regras de transição do programa.

Campanha propõe transição de dois anos para beneficiários

A coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, Daniella Marques, afirmou nesta segunda-feira, em entrevista à CBN Bahia, que um eventual governo do candidato pretende adotar uma regra de transição de dois anos para beneficiários do Bolsa Família que aumentem sua renda.

Segundo ela, a proposta busca permitir que famílias possam aceitar empregos com carteira assinada ou desenvolver atividades empreendedoras sem perder imediatamente a proteção oferecida pelo programa.

“As pessoas não podem ficar presas para sempre no Bolsa Família; aquilo é uma proteção, mas é o início de uma jornada, e todo mundo merece sonhar com mais oportunidade, mais dignidade. É justamente nisso que a gente quer focar, esse é o coração do plano do Flávio”, afirmou.

A referência ao prazo de dois anos chamou atenção porque o mesmo período havia sido defendido por Flávio em 2011, quando apresentou emendas para limitar o recebimento do Renda Melhor.

Há, porém, uma diferença entre as duas propostas: a manifestação antiga defendia limitar o tempo de permanência no programa estadual, enquanto a campanha atual afirma tratar de uma regra de transição para famílias que aumentem sua renda.

PT reage e campanha nega corte automático do benefício

Após a entrevista de Daniella Marques, perfis ligados ao PT e apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva passaram a divulgar nas redes sociais que Flávio Bolsonaro pretendia retirar beneficiários do Bolsa Família após dois anos.

Diante da repercussão, a coordenadora econômica gravou um vídeo para contestar essa interpretação.

Daniella afirmou que a proposta não prevê o desligamento automático de todas as famílias depois de dois anos, mas a ampliação do período de proteção para aquelas que conseguirem aumentar seus rendimentos.

“A sua família hoje se aumentar a renda ou aceitar um emprego de carteira assinada, com o Lula mantém o Bolsa Família só por um ano. Com o Flávio, vai manter por dois anos. Com o Lula o retorno é em até 36 meses. Com o Flávio, seu retorno [ao programa] é automático”, declarou.

Os prazos apresentados pela coordenadora são parte da comparação feita pela campanha e não foram acompanhados, no material divulgado, de uma proposta legislativa detalhada.

Flávio Bolsonaro também reagiu às publicações de adversários e acusou setores da esquerda de divulgar informações falsas sobre suas intenções para o programa.

Bolsa Família entra na reta final da disputa presidencial

A controvérsia ocorre a menos de uma semana do segundo turno, marcado para domingo (25), quando Lula e Flávio Bolsonaro disputarão a Presidência da República.

O Bolsa Família tornou-se um dos temas do confronto entre as campanhas, especialmente diante das discussões sobre manutenção dos pagamentos, critérios de permanência e regras de proteção para famílias que conseguem ampliar sua renda.

De um lado, a campanha de Flávio procura assegurar aos beneficiários que o programa será mantido e apresenta uma proposta de ampliação do período de transição. De outro, apoiadores de Lula questionam o histórico de declarações do senador e cobram esclarecimentos sobre os efeitos das mudanças anunciadas.

A exclusão das publicações antigas acrescenta um novo elemento ao debate, ao expor a diferença entre as críticas feitas por Flávio Bolsonaro quando era deputado estadual e as garantias apresentadas agora como candidato à Presidência.

Até a publicação da reportagem do Estadão, a campanha do senador não havia esclarecido por que as mensagens foram retiradas das redes.

Fonte Agenda do poder

Por Jornal da República em 20/10/2026
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