Flávio Bolsonaro pediu, Trump atendeu: facções brasileiras são classificadas como terroristas pela Casa Branca

O Brasil na mira terrorista dos EUA: CV e PCC viram alvo de sanções financeiras e bloqueio internacional

Flávio Bolsonaro pediu, Trump atendeu: facções brasileiras são classificadas como terroristas pela Casa Branca

EUA colocam Comando Vermelho e PCC na lista de organizações terroristas e dão prazo de uma semana para medida entrar em vigor

Departamento de Estado anuncia que facções brasileiras serão classificadas como "Organizações Terroristas Estrangeiras" a partir de 5 de junho; decisão ocorre dias após encontro de Flávio Bolsonaro com Donald Trump na Casa Branca e expõe racha diplomático entre Brasil e Estados Unidos

O anúncio que muda o tabuleiro do crime organizado

O governo dos Estados Unidos classificou oficialmente o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. O anúncio foi feito pelo Departamento de Estado na noite desta quinta-feira, 28 de maio, e estabelece um prazo de exatamente uma semana para que a medida entre em vigor: a partir do dia 5 de junho, as duas maiores facções criminosas do Brasil passarão a constar oficialmente da lista de Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO, na sigla em inglês) norte-americana.

O comunicado oficial do governo Trump não deixa margem para dúvidas sobre a gravidade da avaliação. "O CV e o PCC são duas das organizações criminosas mais violentas do Brasil. Juntos, comandam milhares de membros e orquestraram ataques brutais contra policiais, autoridades públicas e civis brasileiros. Sua influência e redes ilícitas se estendem muito além das fronteiras do Brasil, por toda a nossa região e para dentro do nosso país", diz o texto divulgado pelo Departamento de Estado.

A decisão representa um giro de 180 graus na política de segurança hemisférica e expõe as fraturas entre os governos brasileiro e norte-americano em matéria de combate ao crime organizado transnacional.

O papel de Flávio Bolsonaro na decisão

O anúncio ocorre apenas 48 horas depois do encontro entre o senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o presidente Donald Trump, na Casa Branca. Na terça-feira, 26 de maio, Bolsonaro afirmou a jornalistas que havia pedido ao republicano a designação das facções como organizações terroristas.

"Eu pedi ao presidente Trump que designe o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas", declarou o senador. "Eles preenchem todos os critérios para isso."

A declaração gerou reações imediatas no Palácio do Planalto. O governo Lula vinha atuando nos bastidores para evitar exatamente esse desfecho. Em março, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, chegou a telefonar para o secretário de Estado Marco Rubio para tentar convencer os norte-americanos a recuar da medida.

O timing do anúncio, dois dias após o encontro entre Flávio e Trump e a menos de cinco meses das eleições presidenciais brasileiras, transforma a designação em combustível eleitoral imediato para a campanha bolsonarista, enquanto coloca o governo Lula em uma posição diplomática delicada.

O que significa ser uma "Organização Terrorista Estrangeira"

A classificação como FTO (Foreign Terrorist Organization) é o mais severo instrumento de combate a grupos hostis da legislação norte-americana. Uma vez incluídas na lista, as organizações sofrem sanções que vão muito além das medidas tradicionais de combate ao crime organizado.

Entre as consequências imediatas estão o bloqueio de ativos financeiros que as organizações e seus integrantes mantiverem em solo norte-americano e a proibição de qualquer transação comercial ou financeira envolvendo cidadãos ou empresas dos Estados Unidos. Mais grave ainda: a designação criminaliza qualquer forma de apoio material às organizações, inclusive remessas de dinheiro, mesmo que indiretas.

Para o CV e o PCC, a medida atinge o coração de seus negócios internacionais. Especialistas consultados pela BBC Brasil e pelo G1 apontam que o fluxo financeiro das facções brasileiras, especialmente no tráfico de drogas e armas, passa por circuitos que envolvem o sistema financeiro global. Com a classificação terrorista, qualquer banco ou empresa que mantenha relações financeiras com membros das facções pode ser processado nos Estados Unidos.

A cronologia de uma crise diplomática

A designação de CV e PCC como terroristas não foi uma decisão súbita. Ela vinha sendo gestada desde o início do segundo mandato de Donald Trump, em janeiro de 2025.

No primeiro dia de seu novo governo, Trump assinou uma ordem executiva determinando a designação de cartéis e organizações criminosas como organizações terroristas estrangeiras. Em março de 2026, o Departamento de Estado fez a primeira declaração pública identificando CV e PCC como "ameaças significativas à segurança regional".

Segundo apurou a colunista Mariana Sanches, do UOL, em Washington, o anúncio era esperado "nos próximos dias" já desde o início de março. Naquele momento, o governo Lula iniciou uma ofensiva diplomática para tentar barrar a medida.

O ponto de inflexão veio em 27 de maio, com a reunião entre Flávio Bolsonaro e Donald Trump. O gesto do senador brasileiro de pedir publicamente a designação terrorista das facções deslocou o centro de gravidade da decisão de Brasília para Washington.

Dois dias depois, o anúncio veio. O governo brasileiro foi comunicado oficialmente, mas não teve poder de veto.

As implicações para o Brasil

A classificação das facções como terroristas pelos Estados Unidos tem implicações profundas para a política de segurança pública brasileira. Advogados criminalistas e especialistas em direito internacional consultados pela BBC News Brasil apontam que a medida pode gerar conflitos de jurisdição e pressionar o Brasil a endurecer sua própria legislação penal.

Atualmente, o Brasil não trata o crime organizado como terrorismo. A lei brasileira define terrorismo como atos motivados por razões políticas, ideológicas ou religiosas, o que não se aplica diretamente às facções criminosas, cuja motivação central é econômica. No entanto, uma comissão da Câmara dos Deputados aprovou em abril um projeto que classifica CV, PCC e outros 11 cartéis latinos como grupos terroristas.

O relator da proposta, deputado Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PL-SP), afirmou que a classificação facilitará o bloqueio de recursos e a cooperação internacional.

Por outro lado, analistas do Americas Quarterly apontam que a designação pode ter efeitos colaterais. Empresas brasileiras que operam em regiões controladas por facções — como construtoras, mineradoras e empresas de logística — podem ser enquadradas como financiadoras de terrorismo se mantiverem acordos ou pagamentos informais. Bancos brasileiros que processam transações de clientes investigados por ligação com as facções também podem ser responsabilizados.

A reação do governo Lula

O Palácio do Planalto ainda não se manifestou oficialmente sobre o anúncio do Departamento de Estado. Nos bastidores, a avaliação é de que a decisão era esperada, mas o timing foi definido para beneficiar politicamente a candidatura de Flávio Bolsonaro.

Nos meses anteriores, o governo Lula tentou articular uma posição conjunta com outros países sul-americanos para apresentar uma alternativa à classificação terrorista. O argumento brasileiro era de que o enquadramento como terrorismo poderia internacionalizar o combate às facções de forma descontrolada e gerar ingerência externa em áreas de segurança pública.

Em março, o Departamento de Estado disse à BBC News Brasil que "está totalmente comprometido em tomar as medidas apropriadas contra grupos estrangeiros envolvidos em atividades terroristas", sinalizando que a decisão já estava tomada antes mesmo do encontro de Flávio Bolsonaro com Trump.

O que esperar dos próximos dias

A data marcada é 5 de junho de 2026. A partir dela, CV e PCC passarão a integrar formalmente a lista de organizações terroristas estrangeiras dos Estados Unidos, ao lado de grupos como Estado Islâmico, Al-Qaeda, Hezbollah e as Farc.

O Departamento de Estado prometeu usar "todas as ferramentas disponíveis para manter drogas ilícitas fora do território norte-americano e interromper o fluxo de recursos que financiam narcoterroristas violentos".

O Brasil, que não tinha tradição de classificar facções criminosas como terroristas, agora se vê diante de um fato consumado. A pergunta que governos, tribunais e forças de segurança terão de responder é se a lei brasileira está preparada para acompanhar a decisão norte-americana — ou se o país terá de conviver com dois regimes legais distintos para enfrentar o mesmo inimigo.

Fontes: Departamento de Estado dos Estados Unidos — comunicado oficial de 28/05/2026; UOL — coluna de Mariana Sanches; BBC News Brasil (Leandro Prazeres); G1/BBC; France 24; Americas Quarterly (Robert Muggah); Gazeta do Povo; Câmara dos Deputados — Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional; AS/COA; White House — Presidential Actions 2025/2026

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Por Jornal da República em 28/05/2026
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