Assine nossa newsletter e fique por dentro de tudo que rola na sua região.
Nas redes sociais e nas conversas diárias, brasileiros apoiadores de Donald Trump acompanham a atual tensão global torcendo por uma ação militar definitiva no país. A expectativa desses grupos é que os Estados Unidos desembarquem tropas no Irã, aplicando a famosa tática das “boots on the ground” (botas no solo).
Influi profundamente nesse pensamento a paixão que uma grande quantidade de grupos cristãos brasileiros possui por Israel. Para essa parcela da população, a nação israelense é constantemente ameaçada de aniquilação pelo Irã e por seus “proxies” espalhados pelo Oriente Médio.
Esse apoio ganha contornos ainda mais fortes graças à atuação do major Rafael Rozenszajn. Carioca de 41 anos, ele é o primeiro porta-voz oficial das Forças de Defesa de Israel (FDI) para a língua portuguesa, atuando na comunicação social desde 7 de outubro de 2023. Rafael Rozenszajn tem sido inclusive homenageado por algumas instituições no Brasil.
Suas atualizações diárias explicam a guerra sob um prisma israelense e alinhado aos interesses dos EUA. Esse esclarecimento direto tem reforçado a mobilização e inflamado o desejo de muitos por uma intervenção militar pesada contra os aiatolás.
Afinal, a história militar recente nos ensina que poucas guerras são verdadeiramente vencidas sem a tomada de território por soldados armados. Contudo, uma operação desse calibre tem o potencial de prolongar o conflito por anos, arrastando a economia mundial para uma crise sem precedentes.
Para colocar militares em tamanho risco, é preciso ter objetivos extremamente claros e bem definidos. A grande questão que paira nos debates sobre geopolítica e defesa é: o que os EUA realmente fariam em solo iraniano?
A ilusão de que “botas no solo” resolvem tudo
O especialista em defesa Mick Ryan, general da reserva do Exército Australiano, em seu artigo no Interpreter, alerta que o cenário iraniano não é um mero repeteco de conflitos do passado. Em seu recente artigo, Ryan destaca que “o envio de tropas terrestres sem objetivos políticos definidos leva ao fracasso“.
Não estamos falando de intervenções como as do Iraque ou do Afeganistão. Uma operação terrestre mal planejada no Irã pode resultar em uma verdadeira catástrofe tática, culminando na perda inútil de soldados e fuzileiros navais americanos.
Toda estratégia precisa de um diagnóstico preciso do cenário. Como pontua Mick Ryan, qualquer ação deve responder a uma pergunta central: “Que problema as forças terrestres resolverão?”. Sem essa clareza, a demonstração de força se transforma em um erro histórico irreparável.
O que os Estados Unidos realmente buscam no Irã?
Os objetivos americanos, sob a administração de Donald Trump, misturam demonstrações de força com necessidades econômicas urgentes. Politicamente, enviar tropas mostra aos aliados regionais que os EUA estão comprometidos e força o Irã a negociar na mesa diplomática.
Militarmente, o escopo da chamada Operação Epic Fury possui focos cirúrgicos e muito perigosos. Uma prioridade altíssima é garantir a segurança do material nuclear enriquecido iraniano, algo que forças especiais americanas e israelenses ensaiam há anos incansavelmente.
O Estreito de Ormuz: até que ponto os EUA devem administrá-lo?
Outro objetivo crucial americano é reabrir e garantir o fluxo livre no Estreito de Ormuz. O Irã usa essa rota e a restrição à navegação como uma verdadeira arma de dissuasão militar e como pilar estrutural da sua “guerra cognitiva”.
Para resolver o bloqueio, os EUA precisariam tomar refinarias e bases em incursões rápidas. Porém, cabe um questionamento profundo: até que ponto é salutar que os Estados Unidos passem a administrar diretamente o Estreito de Ormuz?
Assumir o controle dessa artéria vital do comércio global exigiria uma presença militar permanente e colossal. Além disso, essa ocupação forçada poderia prolongar a guerra indefinidamente, gerando instabilidade constante e afetando drasticamente a economia mundial a longo prazo.
O povo iraniano quer a queda dos aiatolás?
Diante de uma possível invasão americana para derrubar o governo, surge a dúvida: há vontade política da população em substituir o regime dos aiatolás? É inegável que parte considerável do povo iraniano sofre e já protestou duramente contra os líderes atuais. Mas, qual é a proporção exata dos “insatisfeitos” ninguém sabe e isso é essencial em caso de uma invasão. Já que as intervenções militares estrangeiras costumam gerar um forte efeito nacionalista imediato.
O medo e a destruição podem acabar unindo a população em torno dos aiatolás contra o invasor externo, dificultando a tão sonhada transição de poder.
Os líderes iranianos sabem perfeitamente disso e são mestres em manobras políticas e guerra psicológica. Como alerta Ryan, o Irã priorizará a captura e a morte cruel de americanos para corroer o apoio da população dos EUA à guerra e demonstrar força à região e se a coisa chegar a esse ponto a mídia mundial tende a espelhar frases como “o novo Vietnan”.
A armadilha do terreno e a sombra da Rússia
A geografia é um inimigo silencioso e implacável em qualquer invasão. Mick Ryan lembra que “todo soldado compreende o profundo impacto do terreno e do clima em seu sucesso ou fracasso”. O Irã é um país gigantesco e de geografia absolutamente brutal.
Essa imensidão territorial dificulta imensamente o resgate e o apoio de tropas americanas caso algo dê errado na missão. O litoral iraniano, com quase 200 quilômetros de extensão, permite que o regime trave o tráfego marítimo a partir de um único ponto.
Para piorar o cenário, os americanos enfrentarão o apoio da inteligência russa. A Rússia, buscando retaliação pelo apoio ocidental à Ucrânia, já está fornecendo dados vitais ao Irã. Como observou o presidente Trump, os russos veem isso como um troco equivalente.
O homem no solo é o determinante em uma guerra
O ambiente de uma guerra terrestre é dominado pelo medo, pelo atrito e pela surpresa constante. Ryan cita o Contra-Almirante J.C. Wylie para lembrar que “o determinante final em uma guerra é o homem em cena com uma arma”.
Apenas o combate no solo pode quebrar definitivamente a vontade de um inimigo. Entretanto, essa é uma aposta altíssima em um território tão hostil e politicamente complexo como o solo da nação iraniana.
Ao mobilizar forças americanas em pequena escala para operações limitadas, os Estados Unidos caminham sobre uma linha tênue. O perigo real, como conclui magistralmente Mick Ryan, é que Donald Trump acabe quebrando não a vontade do regime iraniano, mas a sua própria.
Nenhum comentário. Seja o primeiro a comentar!