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Por Cleber Lourenço
A oposição pode alcançar maioria absoluta no Senado a partir de 2027, segundo projeção feita com base nas pesquisas estaduais mais recentes para a eleição de 2026. Pela conta, direita, centro-direita e aliados do campo oposicionista teriam condições de chegar a 41 das 81 cadeiras da Casa, exatamente o número necessário para controlar a maioria.
O cálculo considera a composição atual do Senado, os senadores que permanecerão no mandato até 2031 e as 54 vagas que estarão em disputa no próximo ano.
Hoje, o governo Lula atua em um Senado fragmentado, mas ainda com vantagem relativa. A base governista e aliados somam 42 senadores, enquanto a oposição reúne 37.
A projeção para 2027 aponta uma inversão desse quadro. Entre os 27 senadores que seguem no cargo até 2031, a oposição tem 17 cadeiras, o governo tem 9 e há 1 senador sem alinhamento claro. Nas 54 vagas em disputa, o levantamento das pesquisas estaduais projeta 24 cadeiras para a oposição, 20 para o governo e 10 indefinidas ou sem leitura segura com base nas pesquisas.
Somadas as duas camadas, a oposição chegaria a 41 senadores, enquanto o campo governista ficaria com 29. Outros 11 ficariam em posição indefinida ou sem alinhamento claro.
A cientista política Mayra Goulart, da UFRJ, afirma que a projeção de composição do Senado “vai depender também da eleição presidencial”.
Para Mayra, trata-se de uma maioria mínima e sem coesão ideológica garantida. “É uma diferença muito pequena, que não sustenta a ideia de um bloco coeso”, avalia.
Ela destaca que senadores têm forte vínculo com dinâmicas estaduais e atuam de forma pragmática, o que dificulta a formação de um bloco disciplinado. Assim, mesmo uma maioria conservadora não significaria necessariamente uma maioria bolsonarista organizada. “O comportamento do Senado é muito mais estadualizado do que ideológico”, afirma.
Mayra também afirma que uma maioria numérica da oposição não implica capacidade automática de ação coordenada em temas complexos, como impeachment, que dependem de articulação política mais ampla. “Ter número não é o mesmo que ter coordenação política”, diz.
Por fim, ela observa que a agenda anti-STF não se restringe à extrema direita e pode atrair setores do Congresso interessados em limitar a atuação da Corte sobre o orçamento. Esse movimento, segundo ela, pode aproximar grupos distintos contra o Supremo e aumentar o risco de isolamento da instituição na defesa do equilíbrio entre os Poderes. “Há uma convergência possível entre diferentes interesses quando o tema é o controle do orçamento pelo Judiciário”, conclui.
Comparação entre o Senado atual e a projeção para 2027
A mudança seria estrutural. O governo sairia de uma posição em que depende de negociação com independentes, mas ainda tem a maior bancada política, para um cenário em que a oposição poderia alcançar maioria absoluta. Já a direita deixaria de ser apenas uma força de pressão para ter condições de comandar a agenda do Senado.
A cientista política Beatriz Rey avalia que ainda é cedo para cravar se esse será o quadro final, mas afirma que, se a projeção se confirmar, um eventual novo governo Lula entraria em 2027 em uma situação ainda mais difícil na relação com o Congresso.
Segundo ela, a dificuldade do governo na relação com o Legislativo já aparecia desde 2022, especialmente pela composição ideológica da Câmara dos Deputados. A diferença, agora, é que o Senado também pode passar a ser controlado pela oposição.
“Se essa projeção se confirmar, a situação muda bastante. O governo vai estar com a oposição conduzindo os trabalhos. Isso o coloca numa situação muito fragilizada”, disse.
Beatriz lembra que a composição ideológica não é o único fator que define a relação entre Executivo e Legislativo, mas pesa diretamente sobre a capacidade do governo de aprovar sua agenda, barrar derrotas e fazer indicações estratégicas. Ela cita como exemplos votações envolvendo Banco Central, CPIs e nomeações para o STF.
“Essa eleição do Senado é uma eleição que a gente tem que estar prestando bastante atenção. Ela é importantíssima, tão importante quanto a eleição presidencial e a eleição da Câmara”, afirmou.
A avaliação reforça o ponto central da projeção: a disputa de 2026 não será apenas sobre quem ocupará as cadeiras do Senado, mas sobre quem terá poder para conduzir a pauta institucional do país a partir de 2027. Se a Câmara continuar difícil e o Senado passar ao controle da oposição, o Executivo ficaria cercado nas duas Casas do Congresso.
Projeção de cadeiras no Senado em 2027
A disputa pelo Senado será uma das batalhas centrais de 2026. A Casa tem poder para sabatinar ministros do STF, aprovar indicações para a Procuradoria-Geral da República, Banco Central, agências reguladoras, embaixadas e tribunais superiores. Também cabe ao Senado processar pedidos de impeachment contra ministros do Supremo e outras autoridades.
Na prática, uma oposição com 41 cadeiras teria força para aumentar a pressão sobre o Judiciário, dificultar indicações do Executivo, controlar CPIs e impor derrotas ao governo em votações estratégicas.
O quadro ainda não é definitivo. Parte dos nomes testados nas pesquisas é formada por pré-candidaturas, há empates técnicos em vários estados e alianças locais podem mudar até as convenções. Ainda assim, a fotografia atual indica uma oposição mais espalhada nacionalmente e um governo dependente de vitórias concentradas em estados-chave.
Pelas pesquisas levantadas, a oposição aparece melhor posicionada em Acre, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina e Tocantins. Como cada estado elegerá dois senadores, esses seis estados representam 12 vagas projetadas para o campo oposicionista.
O governo aparece em melhor situação em Bahia, Paraíba, Pernambuco e São Paulo, o que representa 8 vagas projetadas. Nesses estados, o campo governista conseguiu organizar chapas mais competitivas e aparece numericamente à frente nas pesquisas disponíveis.
Há ainda 12 estados em que o cenário indica divisão das vagas ou disputa equilibrada: Amapá, Amazonas, Pará, Alagoas, Distrito Federal, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Piauí, Rio Grande do Norte, Ceará, Paraná e Rio Grande do Sul. Nesses casos, a projeção distribui uma cadeira para cada campo, somando 12 vagas para a oposição e 12 para o governo.
Placar das pesquisas estaduais
Os estados abertos são Rondônia, Maranhão, Sergipe Roraima e Espírito Santo. Juntos, eles somam 10 vagas que não foram atribuídas a nenhum campo por falta de domínio claro nas pesquisas.
O melhor cenário para o Planalto aparece na Bahia, onde Rui Costa e Jaques Wagner lideram; na Paraíba, com João Azevêdo e Veneziano; em Pernambuco, com Marília Arraes e Humberto Costa; e em São Paulo, onde Marina Silva e Simone Tebet aparecem numericamente nas primeiras posições.
Mesmo nesses estados, há ressalvas. Em Pernambuco, a segunda vaga ainda não está consolidada. Em São Paulo, a disputa segue competitiva, com nomes da direita próximos do pelotão principal.
A oposição tem vantagem mais clara em Santa Catarina, Mato Grosso, Goiás, Acre, Mato Grosso do Sul e Tocantins. Em Santa Catarina, o campo conservador domina o topo das pesquisas. Em Mato Grosso, Mauro Mendes e Janaina Riva aparecem à frente. Em Goiás, a direita se divide entre o grupo ligado a Ronaldo Caiado e o bolsonarismo mais direto, mas ambos aparecem competitivos.
A faixa decisiva está nos estados em que a disputa pode terminar dividida ou virar com mudanças pequenas no cenário eleitoral. Minas Gerais, Rio de Janeiro, Distrito Federal, Paraná, Ceará e Rio Grande do Sul estão entre os casos que podem definir se a oposição apenas cresce ou se chega de fato ao controle da maioria do Senado.
A cientista política Karolina Roeder, professora da Uninter, doutora pela UFPR e pesquisadora do INCT ReDem, afirma que projeções feitas em julho precisam ser lidas com cautela, porque o cenário para o Senado ainda está “muito indefinido”.
Segundo ela, há muitos indecisos, candidaturas pouco conhecidas e uma campanha que ainda não começou. “O voto para o Senado costuma ser mais tardio e menos estruturado do que o de presidente ou governador”, avalia.
Karolina lembra que liderança em pesquisa não garante vitória e cita o caso de Roberto Requião, no Paraná, em 2018. Também aponta fatores como alianças locais, chapas estaduais, abstenção e voto incompleto, já que em 2026 cada eleitor terá direito a dois votos para o Senado.
Mesmo com as ressalvas, ela vê um fator estrutural favorável à direita. “O campo conservador é hoje mais amplo do que o campo de esquerda no Brasil, o que se reflete na maior quantidade de candidaturas competitivas da direita”, afirma.
A pesquisadora pondera, porém, que parte do Centrão pode atuar conforme a conjuntura e a negociação com o Executivo. Ainda assim, diz que o quadro não é confortável para Lula: “A composição do Senado em 2027 deve exigir um esforço de articulação maior do que o atual”.
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