O crime mais grave do país é o silenciamento de mais de 21 milhões de vozes de mulheres

O crime mais grave do país é o silenciamento de mais de 21 milhões de vozes de mulheres

Segundo pesquisa do Datafolha, a violência doméstica ultrapassou o tráfico de drogas entre os temas que mais preocupam os brasileiros. Ainda assim, mais de 500 mulheres continuam sendo agredidas fisicamente a cada hora no Brasil. Numa escala de 0 a 10, o quanto você é rotulada de "autoritária" e "impositiva"? Apenas por ter opinião. O nome disso é violência psicológica e apagamento. 

Direciono essa pergunta às mulheres porque, muitas vezes, a forma como nos expressamos é utilizada para relativizar ou justificar a violência que sofremos. Como escreveu Simone de Beauvoir, o homem representa o positivo e o neutro; à mulher resta o lugar do desvio da norma. Quando uma mulher fala alto, impõe limites ou ocupa espaços de decisão, frequentemente sua personalidade é colocada no banco dos réus antes mesmo que a violência sofrida seja analisada.

A violência de gênero consome nossos corpos de diferentes maneiras. Ela se manifesta contra o corpo físico, emocional e psicológico. Ela atravessa nossa autonomia econômica, nossa liberdade e nossa capacidade de existir sem medo. Não é apenas uma agressão individual. É um sistema permanente de contenção.

Para um homem haverá quase sempre o benefício da dúvida. Haverá a justificativa, o ato falho, o arrependimento e a oportunidade de recomeço. Para nós, frequentemente restam o constrangimento, o julgamento moral, a suspeita e os pratos a serem retirados da mesa. Seja qual for a mesa. A do trabalho, da família, da política, da universidade ou da vida pública. O servir e a subserviência continuam sendo expectativas socialmente impostas às mulheres, aprisionando gerações inteiras em uma cápsula histórica de resistência.
"Indefiro o pedido de medida protetiva, mas qualquer coisa pode entrar em contato e nos avisar."

A frase poderia ter sido dita em qualquer audiência, em qualquer fórum do país. O problema é que o agressor raramente tem uma aparência que permita identificá-lo antecipadamente. A morte, menos ainda.

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que 13,1% das vítimas de feminicídio estavam sob medida protetiva quando foram assassinadas. O número, por si só, já revela a insuficiência dos mecanismos de proteção. Mas ele também levanta uma pergunta ainda mais inquietante: quantas mulheres tiveram sua proteção negada por uma aparente ausência de risco e tiveram suas vidas interrompidas de forma trágica?

Nesse contexto, a Justiça, enquanto instrumento aplicado por magistrados e magistradas, torna-se peça fundamental nesse jogo de xadrez. O problema é que muitas mulheres vivem permanentemente em situação de xeque. E, em diversos casos, quando o risco é finalmente reconhecido, já é tarde demais.

Se as mulheres de hoje já não são as mesmas de décadas atrás, por que continuamos morrendo em números recordes?

A pergunta exige uma reflexão incômoda. Ao mesmo tempo em que avançamos em direitos, participação política, autonomia financeira e ocupação de espaços públicos, assistimos ao fortalecimento de discursos misóginos, à banalização da violência e à naturalização do controle sobre os corpos femininos. O feminismo, muitas vezes fragmentado por disputas de interesses econômicos, partidários ou pessoais, vê surgir um abismo entre realidades femininas profundamente distintas. A misoginia, por sua vez, encontra nesse distanciamento terreno fértil para se reorganizar e prosperar.

Entre eles, a união costuma ser mais simples. O sistema patriarcal não se sustenta sozinho. Há privilégios, estruturas de poder e heranças históricas que precisam ser preservadas para que continue funcionando. Nem sequer abordarei aqui a estrutura econômica que se beneficia da desigualdade de gênero e da sobrecarga invisível do trabalho feminino.

Mas se, para a população brasileira, a violência contra a mulher passou a representar uma ameaça maior do que o próprio tráfico de drogas, por que tantos homens ainda não confrontam outros homens? Por que o silêncio continua sendo a resposta predominante diante da violência praticada por amigos, parentes, colegas de trabalho ou vizinhos?
Talvez nem Bell Hooks tenha uma resposta definitiva para isso.
O fato é que, neste exato momento, há uma vítima ao seu lado.
Ela está na sua família, no seu trabalho, no seu grupo de amigos ou na casa ao lado. E é justamente por isso que precisamos aprender a enxergar para além das narrativas cuidadosamente construídas pelos agressores. Precisamos, enquanto mulheres, ser aquelas que acreditam, acolhem e não desviam o olhar diante do sofrimento das nossas.
Porque o crime mais grave não é apenas a violência.
É o silenciamento.
O silenciamento de mais de 21 milhões de brasileiras que já sofreram algum tipo de violência ao longo da vida e que, muitas vezes, foram obrigadas a conviver não apenas com a agressão, mas também com a dúvida, a desconfiança e a indiferença.
E sobre a primeira pergunta, talvez eu me enquadre no fim da escala.
E sobre a primeira pergunta, talvez eu me enquadre no fim da escala. Porque até mesmo quando escrevo, a voz bate na mesa. A diferença entre mim e o meu agressor é que, quando falo em bater, utilizo apenas a força da linguagem. Mas, para não dar margem, aprendemos cedo que nossa voz pode ser usada contra nós. Por isso, nos tribunais da vida, muitas vezes somos obrigadas a permanecer em silêncio. Para sobreviver.

Joyce Mattos,
Jornalista pela Universidade Católica de Brasília, especialista em comunicação institucional, estrategista em comunicação integrada e digital.

Por Jornal da República em 02/06/2026
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