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Durou pouco mais de três semanas o Memorando de Islamabad, aquele documento de 14 pontos que prometia reabrir Ormuz, suspender sanções e dar 60 dias de prazo para que Washington e Teerã fingissem, um diante do outro, que confiavam em alguma coisa. Grosso modo, o acordo não foi rompido. Ele apenas cumpriu a única função para a qual havia sido desenhado, que era a de adiar por um mês o inevitável, uma vez que nenhuma das partes assinou aquilo acreditando na tinta.
O gatilho todos conhecem. Embarcações atacadas no Estreito de Ormuz, inclusive um navio de gás catari, e a resposta americana na forma de quase uma centena de alvos pulverizados, radares, baterias, lanchas da Guarda Revolucionária. Trump declarou que negociar com Teerã era perda de tempo, ao passo que os aiatolás juraram que a violação original partira do outro lado. E aqui, amigo leitor, mora o detalhe que a imprensa trata como nota de rodapé, quando na verdade é o coração do cadáver.
O memorando previa o fim das operações em todas as frentes, incluindo o Líbano. Israel, porém, jamais parou de bombardear o sul libanês, porquanto Netanyahu não pode parar. Escrevi há tempos que o premiê israelense não busca vitória alguma, e sim a permanência, haja vista que a guerra é a única coisa entre ele e o banco dos réus. Cada dia de conflito é um dia a mais de sobrevida política para um governo que transformou a segurança nacional em álibi pessoal. De sorte que qualquer arquitetura de paz na região carrega, embutida em suas fundações, um sócio oculto cujo modelo de negócio é a guerra infinita.
O Irã sabia disso. Os Estados Unidos sabiam disso. Assinaram mesmo assim, porque o teatro tinha plateia, o petróleo tinha preço e a diplomacia moderna se contenta em produzir documentos cuja validade expira antes do papel amarelar. Com efeito, o que colapsou em julho não foi um cessar-fogo, mas a ficção de que se pode pacificar um tabuleiro no qual um dos jogadores mais importantes sequer assinou o acordo e lucra politicamente com o incêndio.
Agora os mísseis voam sobre Bahrein e Kuwait, o barril sobe, o Catar media conversas que ninguém quer ter, e os analistas de plantão se perguntam quem violou o memorando primeiro. Pergunta errada. A pergunta certa é quem, em toda essa engrenagem, tinha algum interesse real em que ele funcionasse. A resposta, como sempre, cabe numa linha. Ninguém. E foi por isso, e apenas por isso, que o acordo funcionou perfeitamente.
Marcos Paulo Candeloro é historiador, cientista político e especialista em gestão pública inovativa
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