Obedecer, produzir e consumir: a tríade que domina a vida do escravo moderno

Obedecer, produzir e consumir: a tríade que domina a vida do escravo moderno

A SERVIDÃO MODERNA: O CÁRCERE DOURADO QUE A HUMANIDADE VOLUNTARIAMENTE ACEITOU

I. O preâmbulo do cronista

Senhores leitores, eis-me diante de uma obra que não se contenta em inquietar: ela desassossega. Um livro e um documentário de cinquenta e dois minutos, concebidos na Jamaica em outubro de 2007 e concluídos na Colômbia em maio de 2009, percorrem a França e a América Latina como se percorressem a consciência adormecida de nossa época. Distribuído gratuitamente, isento de direitos autorais, recusando-se a ser mercadoria — pois seria incoerente, advertem seus autores, criticar a onipresença das mercadorias com outra mercadoria.

A servidão moderna. Eis o título que condensa uma tese tão antiga quanto a própria humanidade e tão nova quanto o último anúncio que nos hipnotiza ao amanhecer. É a escravidão voluntária, aquela que Étienne de La Boétie já denunciava no século XVI, quando perguntava, com a lucidez dos profetas: "De onde tirou ele tantos olhos, se não os emprestastes?" O poder não tem força própria; a força do poder é o nosso consentimento.

II. A escravidão que escolhe o próprio senhor

Dizia Shakespeare, com a amargura de quem viu o mundo: "Que época terrível esta, em que idiotas dirigem cegos." O documentário ergue-se sobre essa sentença. A servidão moderna, sustenta, é uma escravidão voluntária aceita por uma multidão de escravos que se arrastam pela face da terra, correndo atrás de um trabalho cada vez mais alienante que lhes é dado "generosamente" — se estiverem suficientemente domados. Eles mesmos escolhem os amos a quem deverão servir.

Para que essa tragédia absurda pudesse suceder, foi preciso tirar dessa classe a capacidade de se conscientizar sobre a exploração e a alienação da qual é vítima. Eis a estranha modernidade da época atual. Ao contrário dos escravos da antiguidade, dos servos da Idade Média e dos operários das primeiras revoluções industriais, estamos diante de uma classe totalmente escrava que, no entanto, não se dá conta disso — ou, pior, não quer enxergar. Não conhecem a rebelião, que deveria ser a única reação legítima dos explorados. Aceitam sem discutir a vida lamentável que foi planificada para eles. A renúncia e a resignação são a fonte de sua desgraça.

III. O direito e a verdade subversiva

Aqui, senhores, a voz do jurista não pode calar. Dizia o brocardo romano, que atravessa os séculos como uma tocha: "Fiat justitia, ruat caelum" — faça-se justiça, ainda que o céu desabe. Mas o que o documentário nos ensina é mais radical: mostrar a realidade tal qual é, e não tal como o poder a apresenta, constitui a mais autêntica subversão. "Somente a verdade é revolucionária", proclama a obra.

É a lição de Rui Barbosa, que tantas vezes repetiu que a justiça é a virtude que dá a cada um o que é seu — "suum cuique tribuere" — e que sem verdade não há justiça possível. Quando o poder monopoliza a narrativa, quando define as palavras, quando pinta o mundo a sua imagem, a verdade torna-se ato de resistência. E o documentário não hesita em afirmá-lo: a opressão se moderniza, estendendo por todas as partes as formas de mistificação que ocultam nossa condição de escravos.

IV. O urbanismo e a prisão do cenário

O filme percorre, capítulo a capítulo, os setores da vida colonizados pelo sistema mercantil. O urbanismo, diz, é a tomada do meio ambiente natural e humano pelo capitalismo, que, ao desenvolver-se em sua lógica de dominação absoluta, refaz a totalidade do espaço como seu próprio cenário. Cita Guy Debord e A Sociedade do Espetáculo: à medida que o homem constrói seu mundo com a força do trabalho alienado, o cenário deste mundo se converte na prisão onde terão que viver.

Cada parcela deste mundo é propriedade de um estado ou de um particular. Este roubo social — a apropriação exclusiva do solo — materializa-se na onipresença de muros, barreiras e fronteiras, marcas visíveis de uma separação que invade tudo. E, ao mesmo tempo, a unificação do espaço segundo os interesses da cultura mercante é o grande objetivo da nossa triste época. O mundo deve transformar-se em uma imensa autópsia racionalizada ao extremo, para facilitar o transporte das mercadorias. Todo obstáculo natural ou humano deve ser destruído.

O ambiente onde se aglomera esta massa servil é o fiel reflexo de sua vida: assemelha-se a jaulas, a prisões, a cavernas. Mas, contrariamente aos escravos e aos prisioneiros, o explorado dos tempos modernos deve pagar por sua jaula. "Porque não é o homem, mas o mundo, que se tornou anormal", conclui, com a lucidez de quem enxerga o absurdo.

V. A mercadoria e a alma perdida

A mercadoria, diz o documentário citando Marx, parece à primeira vista uma coisa simples, trivial, evidente. Porém, analisando-a, vê-se complicada, dotada de sutilezas metafísicas e discussões teológicas. Neste lugar estreito e lúgubre, o escravo moderno acumula as novas mercadorias que, segundo as mensagens publicitárias onipresentes, deveriam trazer-lhe a felicidade e a plenitude. Porém, quanto mais mercadorias acumula, mais se afasta da oportunidade de ser feliz.

E aqui o jurista-cronista recorda a sentença evangélica que o documentário invoca: "Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?" — Marcos, capítulo 8, versículo 36. A mercadoria, ideológica por essência, despoja de seu trabalho aquele que a produz e despoja de sua vida aquele que a consome. No sistema econômico dominante, já não é a demanda que condiciona a oferta, mas a oferta que determina a demanda. Assim surgem, periodicamente, novas necessidades rapidamente consideradas vitais: primeiro o rádio, depois o carro, a televisão, o computador, e agora o telefone celular. Todas essas mercadorias, distribuídas massivamente em curto lapso de tempo, modificam profundamente as relações humanas — para isolar o homem de seu semelhante e para difundir as mensagens do sistema dominante.

VI. A alimentação e a falsa abundância

O que vem a ser alimento para um é veneno para outro, adverte o documentário, citando o velho adágio. Mas é quando se alimenta que o escravo moderno ilustra melhor o estado de decadência em que se encontra. Dispondo de um tempo cada vez mais limitado, vê-se obrigado a engolir rápido o que a indústria agroquímica produz, errando pelos supermercados à procura dos substitutos que a sociedade da falsa abundância consente em dar-lhe. Só lhe resta a ilusão da escolha.

A abundância dos produtos alimentícios apenas dissimula sua degradação e sua falsificação: organismos geneticamente modificados, mistura de colorantes e conservantes, pesticidas, hormônios e outras tantas invenções da modernidade. E, diante da indigência da maioria, o homem ocidental goza de sua posição e de seu consumo frenético. Onde reina a sociedade totalitária mercante, a escassez é o reverso da moeda da falsa abundância. Num sistema que promove a desigualdade como critério de progresso, mesmo se a produção agroquímica é suficiente para alimentar a totalidade da população mundial, a fome nunca deverá desaparecer.

VII. A destruição do meio ambiente e a hipocrisia ecológica

Cita Victor Hugo: "Que triste é pensar que a natureza fala e que a espécie humana não escuta." A espoliação dos recursos do planeta, a abundante produção de energia e de mercadorias, o lixo e os resíduos do consumo ostentoso hipotecam a possibilidade de sobrevivência das espécies. Mas, para deixar livre o curso ao capitalismo selvagem, o crescimento econômico nunca deve parar. É preciso produzir, produzir e reproduzir ainda mais.

E são os mesmos poluidores que se apresentam hoje como salvadores potenciais do planeta. Esses imbecis da indústria do espetáculo, patrocinados pelas grandes corporações, tentam convencer-nos de que uma simples mudança em nossos hábitos seria suficiente para salvar o planeta de um desastre — enquanto nos culpam, continuam poluindo sem cessar nosso meio ambiente e nosso espírito. Essas pobres teses pseudoecológicas são repetidas pelos políticos corruptos em seus slogans publicitários, mas nunca propõem uma mudança radical no sistema. Trata-se, como sempre, de mudar alguns detalhes para que tudo fique como antes.

VIII. O trabalho, a tortura e o desemprego inventado

O documentário recorda a etimologia: trabalho vem do latim tripalium, três paus — instrumento de tortura. Mas, para entrar na roda do consumo frenético, é necessário ter dinheiro; e, para conseguir dinheiro, é preciso trabalhar, ou seja, vender-se. O sistema dominante fez do trabalho seu principal valor, e os escravos devem trabalhar mais e mais para pagar a crédito a sua vida miserável. Estão esgotados de tanto trabalhar, perdem a maior parte de sua energia e têm que suportar as piores humilhações.

A invenção do desemprego moderno tem como objetivo assustá-los e fazê-los agradecer sem parar a "generosidade" do poder — que se mostra tão generoso que lhes poupa esta tortura que é o trabalho. E são essas atividades alienantes que são apresentadas como libertadoras. Sempre apressado pelo cronômetro ou pela chibata, cada gesto dos escravos é calculado a fim de aumentar sua produtividade. A organização científica do trabalho constitui a real essência da desapropriação dos trabalhadores — não apenas do fruto de seu trabalho, mas também do tempo que passam na produção automática das mercadorias e dos serviços. O papel do trabalhador se confunde com o da máquina. O tempo pago não volta mais.

IX. A medicina mercantil e o corpo como mercadoria

"A medicina faz-nos morrer", cita o documentário, de Plutarco. A origem dos males do escravo moderno está na degradação generalizada de seu ambiente, do ar que respira e da comida que consome, no estresse provocado por suas condições de trabalho e pelo conjunto de sua vida social. Sua condição subserviente é um mal que nunca encontrará remédio. A medicina ocidental só conhece um remédio contra os males dos quais sofrem os escravos modernos: a mutilação — base de cirurgias, antibióticos e quimioterapia. Nunca se trata a origem do mal, senão suas consequências, porque essa busca da origem nos conduziria inevitavelmente à condenação fatal da organização social em toda sua totalidade.

Assim como transformou todos os detalhes de nosso mundo em uma simples mercadoria, o sistema atual fez de nosso corpo uma mercadoria, um objeto de estudo e de experiências. Os donos do mundo já estão prontos para patentear os seres vivos. O sequenciamento completo do DNA do genoma humano é o ponto de partida de uma nova estratégia posta em ação pelo poder. Depois de tudo, nosso corpo também não nos pertence.

X. A obediência como segunda natureza

"De tanto obedecer, adquirimos reflexos de submissão", diz o anônimo citado pela obra. O melhor de sua vida foge entre seus dedos, mas ele prossegue — já está acostumado. Obedece sem saber por qual razão, simplesmente porque sabe que deve obedecer. Obedecer, produzir e consumir: eis o trío que domina sua vida. Obedece-se aos pais, aos professores, aos patrões, aos proprietários, aos comerciantes; obedece-se também às leis, às forças da ordem e a todos os tipos de poderes, pois não se sabe fazer outra coisa.

Não existe algo que lhe dê mais medo do que a obediência, já que desobedecer, aventurar, mudar é muito arriscado. Assim como uma criança que se perde de vista de seus pais, o escravo moderno se sente perdido sem o poder que o criou. Então continua obedecendo. "É o medo que nos fez escravos e que nos mantém nesta condição", conclui. Baixamos a cabeça frente aos donos do mundo, aceitamos essa vida de humilhação e de miséria somente por medo.

No entanto, dispomos da força numérica frente a essa minoria que governa. A força deles não sai de seus policiais, mas de nosso consentimento. E aqui o jurista recorda a máxima de Henry David Thoreau, citada pela obra: "Sobre um governo que prende qualquer homem injustamente, o único lugar digno para um homem justo também é a prisão." A desobediência civil, que Thoreau elevou a dever moral, é a resposta à tirania que se veste de legalidade.

XI. O dinheiro, o novo Deus

"O que outrora se fazia por amor a Deus, hoje se faz por amor ao dinheiro", cita o documentário, de Nietzsche. Como todos os seres oprimidos, o escravo moderno precisa de seu misticismo e de seu Deus para anestesiar o mal que lhe atormenta. Mas esse novo Deus a quem entregou sua alma não é nada mais que um pedaço de papel, um número que tem apenas sentido porque todo mundo decidiu dar-lhe. É em nome desse novo Deus que ele estuda, trabalha, luta e se vende; é em nome dele que abandonou seus valores e está disposto a fazer qualquer coisa.

Acredita que quanto mais tem dinheiro, mais se libertará dos problemas dentro dos quais está aprisionado — como se a possessão andasse de mãos dadas com a liberdade. Mas a liberação é um acesso que provém do domínio de si mesmo, um desejo e uma vontade de atuar. Está no ser, e não no ter. Porém é preciso decidir-se a não mais servir nem obedecer; é preciso romper com esse hábito que, ao parecer, ninguém ousa recriminar.

XII. A ilusão do voto e a democracia usurpada

Aqui, senhores, o jurista não pode conter a indignação. O documentário afirma que votar é abdicar. Os escravos ainda se veem como cidadãos, acreditam que votam realmente e decidem livremente quem vai dirigir seus negócios — como se ainda tivessem escolha. Apenas conservaram a ilusão. Não existe diferença fundamental entre o partido socialista e a direita populista da França, entre democratas e republicanos dos Estados Unidos, entre trabalhistas e conservadores do Reino Unido. Não existe oposição, pois os partidos políticos dominantes estão de acordo sobre o essencial: a conservação da atual sociedade mercantil.

A democracia real, recorda o documentário com uma definição que o jurista abraça, define-se primeiro e antes de tudo pela participação massiva dos cidadãos na gestão dos interesses da cidade. Ela é direta e participativa, e encontra sua maior expressão na assembleia popular e no diálogo permanente sobre a organização da vida comum. A forma representativa que usurpa o nome da democracia limita o poder dos cidadãos pelo simples direito ao voto — ou seja, a nada. Tão real que não existe diferença entre o cinza claro e o cinza escuro.

E aqui ressoa a lição de Diderot, citada pela obra: "A natureza não criou amos nem escravos. Eu não quero dar nem receber leis." O poder não é para ser conquistado; ele tem que ser destruído. O poder é tirano por natureza, seja exercido por um rei, por um ditador ou por um presidente eleito. A única diferença na democracia parlamentar é que os escravos têm a ilusão de que podem escolher eles mesmos os mestres que deverão servir. O direito ao voto fez deles cúmplices da tirania esmagadora. Eles não são escravos porque existem senhores; existem amos porque decidiram permanecer escravos.

XIII. O sistema mercantil totalitário

O sistema dominante se define pela onipresença de sua ideologia mercante. Ela ocupa ao mesmo tempo todo o espaço e todos os setores da vida. Não diz nada mais: produza, venda, consuma, acumule. Reduziu todas as relações humanas em relações mercantes e considera nosso planeta como uma simples mercadoria. O dever que nos impõe é o trabalho servil; o único direito que reconhece é o direito da propriedade privada; o único Deus que adora é o dinheiro.

O monopólio da aparência, o único disfarçado de pluralismo parlamentar, a ausência de uma oposição visível, a repressão sob todas as formas, a vontade de transformar o homem e o mundo — eis o verdadeiro rosto do totalitarismo moderno, que chamamos de democracia liberal. Porém é necessário chamá-la pelo seu verdadeiro nome: o sistema mercantil totalitário. O homem, a sociedade e o conjunto de nosso planeta estão a serviço desta ideologia. O sistema mercantil totalitário realizou o que nenhum totalitarismo conseguiu fazer antes: unificar o mundo a sua imagem. Hoje já não existe exílio possível.

XIV. As perspectivas: a revolta e a reinvenção

À medida que a opressão se estende por todos os setores da vida, a revolta toma aspecto de uma guerra social. Os motins renascem e anunciam a futura revolução. A destruição da sociedade mercantil totalitária não é um caso de opinião: é uma necessidade absoluta. O mundo já está condenado, pois o poder está em todos os lados; deve ser por todas as partes e todo tempo que devemos combatê-lo.

A reinvenção da linguagem, o transtorno permanente da vida cotidiana, a desobediência e a resistência são as palavras mágicas da revolta contra a ordem estabelecida. Mas, para que desta revolta surja uma revolução, é preciso unir as subjetividades em uma frente comum. É na unanimidade de todas as forças revolucionárias que devemos trabalhar. Nem o reformismo estreito nem a burocracia totalitária podem ser uma solução para nossa insatisfação. Trata-se de reinventar novas formas de organização e de luta: a autogestão nas empresas e a democracia direta na escala comunal constituem as bases desta nova organização, que deve ser anárquica tanto na forma quanto no conteúdo. O poder não é para ser conquistado; ele deve ser destruído.

XV. O epílogo do jurista

Senhores leitores, eis a denúncia que a obra nos entrega, gratuita, isenta de direitos, recusando-se a ser mercadoria. Ela nos lembra o que os juristas de todas as épocas souberam: que a lei sem justiça é tirania, que o direito sem verdade é opressão, e que a liberdade sem consciência é ilusão. "A liberdade é a faculdade de fazer tudo o que as leis permitem", escreveu Montesquieu — mas o documentário nos adverte que, quando as próprias leis são escritas pelos donos do mundo, a liberdade se reduz à escolha do cárcere.

O escravo moderno não conhece a rebelião, mas a rebelião o conhece. E enquanto houver um homem que duvide da dúvida, que recuse a resignação, que reinviente a palavra e a vida, haverá esperança. Como ensina a obra, com a lucidez dos que recusam o conformismo: "Devemos duvidar de tudo, até mesmo da dúvida." E, no fim, resta a pergunta que o jurista faz a cada leitor, ecoando o documentário: você reconhece em si mesmo os sintomas dessa servidão — ou ainda é capaz de pensar verdadeiramente de forma independente?

Por Ralph Lichotti

Por Jornal da República em 13/10/2026
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