ONG investigada pela PF paga camisas superfaturadas com emenda de senador do PL do Rio

Senador Carlos Portinho, que foi anunciado por Flávio Bolsonaro como candidato à reeleição

ONG investigada pela PF paga camisas superfaturadas com emenda de senador do PL do Rio

VIA Ruben Berta

A ONG ICA (Instituto Carioca de Atividades), alvo no início do mês de uma operação da PF para investigar o desvio de verbas de emendas parlamentares do ex-deputado Chiquinho Brazão, usou este ano recursos destinados pelo senador Carlos Portinho (PL-RJ) para comprar milhares de camisas pelo dobro do valor médio de mercado.

Portinho foi recentemente anunciado por Flávio Bolsonaro como pré-candidato à reeleição por seu partido, após o ex-governador Claudio Castro ter desistido da vaga.

Analisei notas fiscais apresentadas pela entidade em março e junho e detectei a compra de 3.340 camisas dryfit pelo valor de R$ 40 cada. Outras 138 saíram por R$ 50. O material foi adquirido para ser fornecido respectivamente a alunos e professores do projeto Transformação RJ, de aulas gratuitas de diversas modalidades esportivas.

Os modelos das camisas que aparecem nas redes sociais do projeto são facilmente encontrados no mercado por um valor médio de R$ 20. Ou seja, somente com a compra deste item, o prejuízo aos cofres públicos passa de R$ 70 mil.

Outro ponto que chama a atenção é que a ONG comprou uma quantidade muito maior de camisas do que a previsão de beneficiados no Transformação RJ. São 3.340 blusas para uma previsão de atender a 2 mil alunos. 

Página do ICA no Instagram divulga lançamento do Transformação RJ, com a presença de Carlos Portinho

O instituto ainda adquiriu 2.200 bonés personalizados por um valor bem acima da média do mercado: R$ 30 a unidade. A título de exemplo, em março deste ano, a prefeitura de Maricá adquiriu 1.100 bonés ao preço de R$ 9,90.

Ou seja, neste item, o prejuízo pode passar de R$ 46 mil. Além disso, não localizei em fotos e vídeos do projeto divulgados em redes sociais nenhum participante usando o boné personalizado. 

Portinho: “População atendida”

Carlos Portinho foi um dos únicos a manter recursos para o ICA após a série de reportagens que fiz no UOL mostrando fortes indícios de desvios0 por ONGs.

A emenda do Transformação RJ –destinada em 2025, mas que está sendo executada este ano– tem valor total de R$ 4,8 milhões.

No ano passado, houve apenas mais uma para o instituto, de R$ 1,9 milhão, de autoria da Comissão de Esporte da Câmara.

Somadas todas as emendas para a ONG, Portinho ocupa o sexto lugar, com R$ 10,5 milhões. A liderança é da bancada do Rio de Janeiro (R$ 58,3 milhões), seguida pelo deputado Pedro Paulo (PSD), com R$ 19,7 milhões.

Em nota enviada por sua assessoria de imprensa, Portinho afirmou que “a emenda foi encaminhada para dar continuidade ao projeto que estava funcionando sem intercorrências e só foi destinada porque teve o aval do Ministério do Esporte”.

“Como senador, além de atividade legislativa, ainda rodo o Rio de Janeiro para buscar soluções para o Estado”, completou.

Portinho disse ainda que faz “o acompanhamento finalístico, estando presente nos municípios e nos núcleos esportivos”. “Além da minha presença física, posto nas redes sociais sempre que vou assistir alguma modalidade. Inclusive, o projeto revelou talentos no remo (um aluno incorporado ao Botafogo), no futebol (um jovem contratado pelo Red Bull Bragantino), na luta (uma adolescente disputando campeonatos internacionais), entre outros. Acredito que é importante que o projeto não seja um fim em si mesmo e gere oportunidade para quem frequenta”.

Sobre os valores pagos pela ONG nos materiais, o senador disse que “a fiscalização, a responsabilidade é dos órgãos de controle e do próprio Ministério do Esporte”. “O meu papel é ver se a população estava sendo devidamente atendida com a prática esportiva. E isso tenho certeza que sim, pois vi de perto”, concluiu. 

Empresa de “embaixador de bet”

A empresa que vendeu as camisas pelo dobro do preço é a B10 Materiais Esportivos e Uniformes. Ao todo, as duas notas fiscais emitidas para o ICA somam R$ 400 mil e incluem outros itens como coletes e quimonos.

Conforme mostrei em reportagem na coluna, essa mesma empresa também recebeu em abril quase R$ 1 milhão da ONG em verbas da prefeitura do Rio pela venda de uniformes superfaturados.

No prédio onde a sede está registrada na Receita Federal, na Avenida das Américas, na Barra da Tijuca, não ter qualquer referência da firma. O local funcionou até pouco tempo como um consultório de psicoterapia.

O dono da B10 é Brenno Cardoso Guedes, de 37 anos, que chegou a tentar carreira como jogador de futebol em times pequenos, sem grande sucesso.

Atualmente, ele usa sua página no Instagram, com quase 10 mil seguidores, não para divulgar a venda de material esportivo, mas para fazer lives com dicas de caminhos para ganhar com jogos e apostas no site Betbr, do qual ele se diz “embaixador”.

Fiz contato com Brenno e com o ICA por email, mas não tive retorno. O espaço segue aberto. 

Por Jornal da República em 24/07/2026
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