Perguntar sobre a eficiência do PT e do PSB no Nordeste é dever do cidadão

Perguntar sobre a eficiência do PT e do PSB no Nordeste é dever do cidadão

Por Carlos Arouck

O brasileiro precisa fazer perguntas diretas e baseadas em evidências sobre os resultados de longos períodos de governo de certos partidos. Uma delas, recorrente no debate público, questiona se o PT e o PSB são eficazes na redução da fome, da sede, da criminalidade, da miséria e na promoção de uma educação de qualidade, como repetem em sua propaganda. 

A pergunta seria essa: “Por que estados como Pernambuco, Bahia, Ceará e Rio Grande do Norte, onde esses partidos (ou aliados próximos) governaram por muitos anos, continuam figurando entre os mais pobres, com maiores índices de insegurança alimentar, menor acesso relativo a saneamento, altas taxas de violência, economia real estagnada em produtividade e, sobretudo, uma educação que entrega acesso sem aprendizado real?”

Esta não é uma pergunta ideológica por si só. É uma pergunta sobre resultados mensuráveis. Vamos examinar os fatos com dados oficiais do IBGE (Síntese de Indicadores Sociais 2024/2025 e PNAD Contínua Educação 2025), do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP)/IPEA (Atlas da Violência 2026 e Anuário 2025/2026), do INEP (IDEB 2023), SINISA/SNIS e de outros órgãos, sem propaganda de nenhum lado. 

Os números de 2024 e 2025 mostram avanços pontuais impulsionados por transferências federais e programas de permanência escolar, mas a persistência de déficits estruturais gritantes, especialmente na qualidade educacional, é inegável.

Segue o histórico de governos nos estados citados:

Bahia: Governos do PT desde 2007 (Jaques Wagner, Rui Costa e Jerônimo Rodrigues). Quase duas décadas contínuas. 
Pernambuco: Domínio do PSB de 2007 a 2022 (Eduardo Campos e Paulo Câmara). Antes, os períodos de Miguel Arraes. Atualmente, é governadora de centro-direita (Raquel Lyra). 
Ceará: A partir de 2007, PSB (Cid Gomes) e depois PT (Camilo Santana e Elmano de Freitas). Praticamente duas décadas de PSB/PT. 
Rio Grande do Norte: Períodos alternados, com presença do PT em mandatos recentes (Fátima Bezerra eleita em 2018 e reeleita em, 2022).

O Nordeste como um todo teve forte presença de partidos de esquerda e centro-esquerda nas últimas duas décadas. O argumento da “propaganda vermelha” é que políticas sociais redistributivas e a expansão do acesso à escola resolveriam os problemas estruturais. Os dados mostram apenas avanços relativos e a brutal persistência de graves déficits e a dependência crônica de Brasília.

Os Dados: 

Pobreza, Fome, Água, Economia Real, Violência e, sobretudo, Educação
Pobreza e extrema pobreza (IBGE, Síntese de Indicadores Sociais 2024):

O Nordeste concentra desproporcionalmente a pobreza nacional. Em 2024, a taxa de pobreza na região era de 39,4% (contra 23,1% nacional). A extrema pobreza ficou em 6,5% (quase o dobro da média nacional de 3,5%). O Nordeste responde por cerca de 45,8% dos pobres e 50,3% dos extremamente pobres do país. Houve redução importante e acelerada recentemente, mas os níveis absolutos e relativos continuam elevadíssimos. A redução depende fortemente de transferências de renda: em muitos lares extremos pobres do Nordeste, 75% a 78% da renda vem de programas sociais.

Insegurança alimentar (IBGE/PNAD 2024): 

O Nordeste registrou cerca de 34,8% dos domicílios com insegurança alimentar. Estados como Bahia (~37,8%) e Pernambuco (~35,3%) estão entre os mais afetados. Em números absolutos, o Nordeste concentra o maior contingente de pessoas em fome.

Água e saneamento (IBGE PNAD 2023 e SINISA): 

O acesso à rede geral de água no Nordeste é cerca de 81,1% (média nacional 85,9%). Apenas cerca de 50,8% dos domicílios nordestinos têm rede de esgoto ou fossa séptica ligada à rede (contra quase 90% no Sudeste).

Economia real e empobrecimento estrutural: 

O PIB per capita dos estados nordestinos permanece entre os mais baixos do Brasil. A renda domiciliar per capita em 2025 mostra todos os estados do Nordeste na lanterna: nenhum chega a dois terços da média nacional de R$2.316. Maranhão fecha com R$1.219; Ceará em torno de R$1.390; Bahia cerca de R$1.465. O rendimento médio do trabalhador é dos mais baixos. Desemprego caiu, mas a informalidade permanece alta e a geração de emprego formal de qualidade é insuficiente. O modelo priorizou transferência de renda sobre criação de riqueza produtiva.

Criminalidade e violência (Atlas da Violência 2026 / dados 2024 e Anuário FBSP 2025/2026): 

Em 2024, a Bahia registrou cerca de 40,9 homicídios por 100 mil habitantes; Pernambuco ~37,3; Ceará ~34,3. O Brasil reduziu para ~20,1 por 100 mil, mas os estados citados permanecem entre os mais violentos. 17 dos 20 municípios mais violentos com mais de 100 mil habitantes estão no Nordeste. No ranking de 2025 das cidades mais violentas (mortes violentas intencionais), as dez primeiras estão todas no Nordeste: 1º Maranguape (CE), 2º Eunápolis (BA), 3º Maracanaú (CE), 4º Porto Seguro (BA), 5º Simões Filho (BA), 6º Jequié (BA), 7º Caucaia (CE), 8º Cabo de Santo Agostinho (PE), 9º Santa Rita (PB), 10º Juazeiro (BA). A maioria em estados sob longa gestão PT ou PSB.

Educação: 

Esse é o fracasso mais estrutural e de longo prazo.  Aqui a crítica precisa ser especialmente contundente. A matrícula aumentou. O analfabetismo caiu. Mas o que realmente importa, o aprendizado, a formação de capital humano e a competitividade dos jovens, continua ruim e produz gerações incapazes de romper o ciclo de pobreza.

Segundo o IDEB 2023 (INEP), o Nordeste ficou com média de cerca de 4,1 no Ensino Médio (abaixo da média nacional de 4,3). Destaques negativos: Rio Grande do Norte 3,7; Bahia 3,9; Maranhão 3,8. Pernambuco (4,5) e Piauí (4,5) foram das poucas redes estaduais a bater a meta, e o Ceará se destaca nos anos iniciais e finais do Fundamental (6,6 e 5,5, entre os melhores do país). Mas o quadro geral é de estagnação relativa: muitos estados nordestinos ficam na lanterna nacional. O jovem nordestino sai da escola sem o mínimo necessário para competir no mercado de trabalho formal de qualidade.

Analfabetismo (PNAD Contínua Educação 2025): 

O Brasil atingiu 4,9% (menor da série histórica), mas o Nordeste concentra mais da metade dos analfabetos do país, 4,8 milhões de pessoas, taxa de 10,6% (mais que o dobro da média nacional). Em 2024 a taxa regional era de 11,1%. Estados como Alagoas e Piauí historicamente lideram os piores índices. A queda ocorre, mas o atraso histórico se arrasta sob longos governos de PT/PSB.

Abandono e evasão escolar caíram recentemente (graças a programas como Pé-de-Meia e ações estaduais), com o Nordeste registrando redução de 3,7% (2023) para 2,1% (2025) no Ensino Médio. Porém, a distorção idade-série e o aprendizado adequado (SAEB) seguem problemáticos. Muitos municípios nordestinos melhoraram notas no Fundamental, mas o Ensino Médio, etapa decisiva para o futuro profissional, permanece deficiente.

Resumindo, os governos com forte marca PT/PSB investiram em volume (expansão de matrículas e infraestrutura), mas falharam sistematicamente na qualidade, na meritocracia, na formação e valorização real de professores, no combate à distorção e na garantia de aprendizado efetivo. O resultado é um capital humano frágil, de  jovens que chegam ao mercado de trabalho despreparados, perpetuando a baixa produtividade, a informalidade e a dependência de transferências. A educação de qualidade é o principal motor de desenvolvimento de longo prazo. Sem ela, as políticas assistenciais viram paliativo permanente.

Os defensores argumentam que a pobreza e o analfabetismo caíram, o acesso à escola aumentou e, sem esses governos, seria pior. Os críticos respondem que a redução de pobreza foi majoritariamente via transferência de renda; a educação entregou quantidade sem qualidade; a violência e a baixa produtividade da economia real não acompanharam o discurso de “transformação”; e a longa hegemonia gerou acomodação e clientelismo.

Perguntar não é ódio, é responsabilidade cívica. A indagação inicial deve cobrar coerência entre discurso e realidade. Os estados mencionados tiveram longos períodos sob influência direta ou indireta do PT e PSB e continuam apresentando alguns dos piores indicadores sociais, de segurança, de economia real e de qualidade educacional do Brasil. 

O Nordeste tem um potencial enorme. Superar o atraso exige foco em educação de excelência (aprendizado real, meritocracia e formação de capital humano), segurança efetiva, atração de investimentos produtivos e combate à corrupção, independentemente de quem governa. O brasileiro que se pergunta “por quê?” está exercendo o direito mais básico da democracia: exigir contas com números, não com slogans. Os dados de 2024 e 2025 estão aí, públicos e acessíveis. Cabe a cada um analisá-los sem viés e cobrar melhorias concretas de quem está no poder, hoje ou amanhã.

Por Jornal da República em 28/07/2026
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