Produtora de Dark Horse nunca fez filme antes, investigações se multiplicam, enquanto Lula e Margareth lançam plataforma cultural com Governador do Rio

Produtora de Dark Horse nunca fez filme antes, investigações se multiplicam, enquanto Lula e Margareth lançam plataforma cultural com Governador do Rio

Lula lança Tela Brasil com crítica à "cultura estrangeira" e Margareth Menezes alfineta produtora do filme sobre Bolsonaro

Streaming público e gratuito chega com 555 obras

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a ministra da Cultura, Margareth Menezes, lançaram neste sábado (30), no Rio de Janeiro, a Plataforma Tela Brasil, novo serviço público e gratuito de streaming de audiovisual brasileiro. O catálogo inicial reúne 555 obras produzidas entre 1910 e 2025, entre curtas, médias e longas-metragens, abrangendo documentários, ficção, animação e conteúdos infantis. O acesso é livre e não exige cadastro, segundo informações da Agência Brasil.

“É um primeiro passo para fortalecer a soberania do povo por meio da cultura”, afirmou a ministra Margareth Menezes durante o evento. A plataforma foi desenvolvida pelo Governo Federal como parte de uma estratégia de difusão da produção audiovisual nacional, em um momento em que o mercado de streaming é dominado por conglomerados estrangeiros.

Lula: "Somos acostumados com cultura estrangeira"

Em seu discurso, Lula fez uma defesa enfática da valorização da cultura brasileira e criticou o que chamou de submissão cultural do país. “Não temos nem informação do quanto a cultura contribui para o desenvolvimento econômico do país. O mais importante é conhecermos a razão de chegarmos onde chegamos. Tem gente que prefere falar uma palavra em inglês do que em português. É muito importante a gente conhecer a nossa gente”, afirmou.

O presidente também fez uma crítica à contradição entre o discurso ambiental de parte da elite brasileira e suas escolhas de turismo. “Muita gente defende o meio ambiente, mas pega um avião e vai para Miami. Não vai para a Amazônia”, completou. A declaração foi recebida com aplausos no evento, que reuniu artistas, produtores culturais e autoridades no Rio de Janeiro.

Margareth Menezes critica "produtora de mentira"

A fala mais contundente do evento, no entanto, partiu da ministra Margareth Menezes. Em uma crítica indireta que rapidamente viralizou nas redes sociais, a ministra afirmou que o governo não precisa contratar “produtora de mentira para dizer quem a gente é”. A declaração foi interpretada como uma referência direta à Go Up Entertainment, produtora do filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro prevista para estrear em setembro, semanas antes do primeiro turno das eleições.

Segundo reportagem do jornal O Globo, a Go Up Entertainment, comandada pela empresária Karina Ferreira da Gama, nunca lançou nenhum filme registrado na Ancine antes de assumir a produção do longa-metragem sobre Bolsonaro. A BBC Brasil também noticiou que o orçamento do filme, de R$ 134 milhões — parcialmente custeado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master —, é considerado desproporcional por cineastas brasileiros, superando o orçamento de diversos filmes indicados ao Oscar.

STF e Polícia Civil investigam suspeitas de irregularidades

O caso ganhou contornos mais graves com a abertura de investigações em múltiplas frentes. O ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino, determinou a abertura de uma apuração preliminar para investigar supostas irregularidades na destinação de emendas parlamentares a entidades ligadas a Karina Gama. De acordo com levantamento da Folha de S.Paulo e confirmado pela CNN Brasil, deputados estaduais de São Paulo indicaram ao menos R$ 700 mil em emendas parlamentares para entidades como o Instituto Conhecer Brasil (ICB), também controlado pela empresária.

Além das emendas, a Polícia Civil investiga um contrato de R$ 108 milhões firmado entre entidades ligadas a Karina Gama e a Prefeitura de São Paulo para instalação de pontos de wi-fi, conforme apurou O Globo. O Intercept Brasil revelou ainda que a produção do filme foi filmada no Brasil de modo irregular, com denúncias de condições precárias de trabalho formalizadas junto ao Sindicato dos Artistas de São Paulo.

O filme “Dark Horse” precisa arrecadar ao menos R$ 300 milhões nos cinemas para que Vorcaro recupere o investimento atribuído ao banqueiro, conforme cálculo da BBC Brasil — valor 40% superior à bilheteria de todos os longas brasileiros lançados no ano passado juntos.

Cultura como instrumento de soberania nacional

O lançamento da Tela Brasil ocorre em um contexto de tensionamento político em ano eleitoral, com a polarização entre o campo governista e a oposição se acirrando também no terreno cultural. A plataforma surge como uma alternativa pública aos grandes serviços de streaming internacionais, em um momento em que o governo Lula também avança na regulação do setor e na defesa do Fundo Setorial do Audiovisual.

Margareth Menezes, em artigo publicado em janeiro no Poder360, já havia defendido que a propriedade intelectual das obras brasileiras “permaneça com o Brasil e continue produzindo riqueza e identidade”. A fala da ministra no sábado ecoa essa posição, em contraste com a produção de um filme financiado com recursos de origem controversa e que, segundo parlamentares da base governista, serviria como peça de propaganda política às vésperas da eleição de 2026.

Perfil: Luiz Inácio Lula da Silva

Luiz Inácio Lula da Silva, 80 anos, é o 39º presidente da República Federativa do Brasil, atualmente em seu quarto mandato. Nascido em Caetés, Pernambuco, em 27 de outubro de 1945, foi líder sindical metalúrgico no ABC paulista e fundador do Partido dos Trabalhadores (PT). Em seu terceiro mandato (2023-2026), o Brasil registrou crescimento médio de 3% ao ano, a menor taxa de desemprego da série histórica (próxima de 5%) e ingressou pela primeira vez na faixa de IDH "muito alto", segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Pai de cinco filhos, Lula é conhecido por sua trajetória de superação — de retirante nordestino a três vezes presidente mais votado da história do país. Em 2026, busca a reeleição em uma das disputas mais polarizadas desde a redemocratização.

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Por Jornal da República em 31/05/2026
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