Renata Parreira convoca sociedade para marcha das mulheres negras e defende novo pacto civilizatório

Educadora e ativista participa do 4º seminário da Defensoria Pública e destaca urgência do letramento racial no Brasil

A educadora popular, escritora e ativista de direitos humanos Renata Parreira foi uma das principais palestrantes do quarto seminário "Defensoria na Luta Antirracista", realizado pela Defensoria Pública do Distrito Federal no auditório do Zenite, em Brasília. Durante sua participação, a especialista em múltiplas áreas do conhecimento destacou a importância do letramento racial e da decolonização das mentes como ferramentas fundamentais para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária no país.

Renata Parreira, que acumula formação em educação popular, psicanálise, massoterapia, terapia integrativa e reiki, além de atuar como conselheira do Codipir (Conselho de Promoção da Igualdade Racial), enfatizou a necessidade de um "novo projeto de sociedade, onde a cidadania seja realmente concluída para todos os cidadãos brasileiros". Sua abordagem multidisciplinar reflete a complexidade das questões raciais no Brasil, que demandam intervenções em diferentes esferas da vida social.

A palestrante aproveitou o evento para convocar a sociedade brasileira a participar da Marcha das Mulheres Negras por Reparação e por Bem Viver, marcada para o dia 25 de novembro. A concentração está prevista para às 8h30 no Museu Nacional da República, em Brasília, representando um momento de mobilização nacional por direitos e reparações históricas. A marcha simboliza a continuidade da luta por um "novo pacto civilizatório" que contemple efetivamente a população negra brasileira.

Legado colonial e seus impactos contemporâneos

Renata Parreira contextualizou a luta antirracista atual dentro do processo histórico brasileiro, destacando que "a nossa luta é uma luta árdua, que não tem época para acabar" devido ao legado escravista e colonial do país. A educadora enfatizou como o imaginário coletivo brasileiro ainda perpetua a ideia de que "a população negra não tem capacidade intelectiva", mantendo estruturas de exclusão em espaços de sociabilidade e poder.

A ativista alertou para a concentração desproporcional de corpos negros em espaços de controle social, como o sistema prisional e manicomial, evidenciando como o racismo estrutural opera através de diferentes instituições. "Esses corpos estão ocupando espaços do encarceramento, espaços manicomiais, onde a saúde mental e o adoecimento da população negra está intenso", denunciou, apontando para a urgência de políticas públicas específicas para essa população.

Crítica ao sistema judiciário e defesa das políticas afirmativas

Questionada sobre a representatividade no sistema judiciário, Renata Parreira destacou a sub-representação de profissionais negros em posições decisórias, especialmente no poder judiciário. A educadora conectou essa realidade às estruturas históricas de exclusão, lembrando que o Brasil foi "um dos últimos países do mundo a acabar com a escravidão" e "um dos países que mais usou da mão de obra escrava".

A especialista corrigiu terminologias importantes durante sua fala, enfatizando que "a escravidão não é uma condição", mas sim um processo de "escravização" que desumanizou sistematicamente os corpos negros. Essa distinção conceitual revela a profundidade de sua análise sobre as questões raciais, demonstrando como a linguagem pode perpetuar ou desconstruir estruturas opressivas.

Conferência de Durban e compromissos internacionais

Renata Parreira contextualizou as políticas afirmativas brasileiras dentro dos compromissos internacionais assumidos pelo país, especialmente após a Conferência de Durban de 2001. "O Brasil é signatário de acordos internacionais", lembrou a ativista, referindo-se ao marco internacional contra racismo, xenofobia e discriminação racial que estabeleceu diretrizes para políticas de reparação.

A educadora destacou como as políticas afirmativas representam o cumprimento de acordos internacionais e não apenas concessões internas, elevando o debate para o patamar dos direitos humanos universais. Essa perspectiva internacional fortalece a legitimidade das ações afirmativas e conecta a luta brasileira com movimentos globais por justiça racial.

Gap educacional e leis proibicionistas históricas

A especialista em educação popular trouxe dados históricos sobre as restrições educacionais impostas à população negra, lembrando que "nós tivemos leis proibicionistas que proibiram a população negra de estudar". Renata Parreira explicou como essas restrições criaram um "gap educacional" que justifica as políticas afirmativas contemporâneas, demonstrando que as desigualdades atuais têm raízes históricas concretas.

A educadora defendeu a eficácia das políticas de cotas, afirmando que "as pessoas que entram por cotas de nada deixam a desejar em termos de profissionais, empregabilidade e renda no mercado". Essa defesa baseia-se em evidências empíricas que demonstram o sucesso das ações afirmativas na promoção da igualdade racial e no desenvolvimento de competências profissionais.

Violência de gênero e interseccionalidade

Em sua análise sobre as origens da violência contemporânea, Renata Parreira estabeleceu conexões entre o período colonial e problemas atuais como feminicídio e cultura do estupro. "A nossa miscigenação foi fruto de estupro", afirmou a ativista, explicando como "a cultura do estupro na sociabilidade brasileira" tem raízes históricas na violência sexual sistemática contra mulheres negras escravizadas.

A abordagem interseccional de Renata Parreira conecta racismo, sexismo, machismo e LGBTfobia como sistemas interconectados que se originaram no processo de colonização. Essa análise complexa demonstra como diferentes formas de opressão se reforçam mutuamente, demandando estratégias integradas de enfrentamento.

Marcha das mulheres negras como instrumento de mobilização

A convocação para a Marcha das Mulheres Negras por Reparação e por Bem Viver representa uma estratégia de mobilização que vai além da denúncia, propondo construção coletiva de alternativas. Renata Parreira enfatizou que a marcha busca "mais saúde, mais educação, segurança pública" e "mais participação política das mulheres negras nos espaços decisórios no parlamento".

A escolha do Museu Nacional da República como ponto de concentração simboliza a apropriação de espaços públicos e a reivindicação de direitos de cidadania plena. A marcha representa um momento de visibilização das demandas das mulheres negras e de pressão por políticas públicas específicas para essa população.

Perspectivas para transformação social

O trabalho de Renata Parreira como educadora popular, escritora, poeta e terapeuta integrativa demonstra uma abordagem holística para a transformação social, que combina análise política, cuidado emocional e expressão artística. Sua atuação multidisciplinar reflete a compreensão de que a luta antirracista deve acontecer em diferentes frentes, desde a educação formal até a cura de traumas coletivos.

A participação no seminário da Defensoria Pública evidencia a importância de espaços institucionais para o debate sobre questões raciais, demonstrando como diferentes atores sociais podem contribuir para a construção de políticas públicas mais inclusivas. O trabalho de Renata Parreira representa uma ponte entre movimentos sociais e instituições públicas, facilitando diálogos necessários para a transformação social.

Repórter Ralph Lichotti - Advogado e Jornalista, Editor do Ultima Hora Online e Jornal da República, Foi Sócio Diretor do Jornal O Fluminense e acionista majoritário do Tribuna da Imprensa, Secretário Geral da Associação Nacional, Internacional de Imprensa - ANI, Ex- Secretário Municipal de Receita de Itaperuna-RJ, Ex-Presidente da Comissão de Sindicância e Conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa - ABI - MTb 31.335/RJ

Por Robson Talber @robsontalber

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Por Jornal da República em 19/11/2025
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