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Rio de Janeiro — A Enseada de Botafogo servia de cenário para um encontro que reuniu mulheres de diferentes municípios do estado para discutir um tema que o Brasil insiste em ignorar: como proteger quem está dentro de casa, onde 80% dos agressores dormem na mesma cama que a vítima.
O evento "Entre Elas", realizado no bairro mais charmoso da Zona Sul carioca, teve como uma das vozes centrais a secretária de Políticas e Defesa dos Direitos das Mulheres de Maricá, Ingred Bastos.
Advogada, vice-presidente da Comissão de Violência Doméstica da OAB-RJ e delegada do Instituto Brasileiro de Direito Penal e Econômico, ela representa um modelo de gestão pública que vem chamando a atenção de especialistas em segurança pública de todo o país.
"Mulheres em cargos de poder e decisão são essenciais. "A gente deixa de ser apenas alvo de políticas públicas e passa a ser protagonista de decisões que vão impactar a vida de outras mulheres", afirmou.
O Brasil que mata e a cidade que acolhe.
O contraste entre os números nacionais e a experiência de Maricá não poderia ser mais eloquente. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública registrou 1.568 feminicídios em 2025, o maior número desde a tipificação do crime, em 2015. Um crescimento de 4,7% em relação ao ano anterior.
Seis em cada dez vítimas eram negras. Metade tinha entre 30 e 49 anos. O lar — teoricamente o lugar mais seguro — era o cenário do crime em 80% dos casos.
No Rio de Janeiro, estado que concentra algumas das maiores taxas do país, a prefeitura de Maricá vem construindo uma alternativa que integra repressão, prevenção, acolhimento e autonomia econômica.
Educar para respeitar: a base da pirâmide.
O primeiro pilar do programa municipal é a prevenção. O projeto Educar para Respeitar capacita educadores da rede pública para atuarem como agentes de promoção da cultura de paz e igualdade de gênero.
O foco são crianças — ensinar meninos e meninas, desde cedo, a se respeitarem mutuamente.
"A iniciativa busca capacitar educadores e educadoras para atuarem como agentes de promoção da cultura de paz, da igualdade de gênero", explicou Ingred.
A abordagem está alinhada com as recomendações da Organização das Nações Unidas (ONU), que aponta a educação como o instrumento mais eficaz para romper o ciclo intergeracional da violência.
Estudos do Instituto Maria da Penha indicam que programas educativos de gênero nas escolas reduzem em até 30% a aceitação social da violência doméstica entre adolescentes.
O grupo que trata o agressor
Um dos programas mais inovadores de Maricá é o Grupo Reflexivo para Homens, executado em parceria com a Secretaria de Estado e o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. O projeto é voltado para homens que receberam medidas protetivas e são obrigados pela Justiça a frequentar as sessões.
A iniciativa se baseia na Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006), que, em seu artigo 35, autoriza a criação de serviços de responsabilização e educação do agressor.
Dados da própria prefeitura de Maricá, divulgados em abril de 2026, mostram que o programa tem contribuído para a redução da reincidência entre os participantes.
"É uma forma de educar os homens agressores para que não voltem a praticar violência", afirmou a gestora durante a apresentação dos resultados.
O modelo já é adotado por cidades como São Paulo, Brasília e Porto Alegre, mas Maricá se destaca por articular o grupo reflexivo com uma rede de acolhimento que começa na denúncia e termina na autonomia financeira da mulher.
A Casa da Mulher: acolhimento que vai além da emergência.
O coração da política municipal é a Casa da Mulher de Maricá (CEAM Maricá), um equipamento público de atendimento multidisciplinar que reúne em um só espaço psicólogas, assistentes sociais, advogadas e terapias em grupo.
O local também oferece serviços de salão de beleza e oficinas de empoderamento — uma abordagem que trata a mulher como um ser integral, não apenas como vítima.
"Só na nossa Casa da Mulher, cada vez mais mulheres têm se sentido encorajadas a buscar pelo nosso trabalho", contou Ingred.
O espaço funciona como porta de entrada para uma rede que inclui:
Cultura, empreendedorismo e autonomia.
A secretaria também criou o Cultura para Mulheres, programa que leva atividades culturais e formações para o público feminino, e o Conselho de Empreendedorismo Feminino, que conecta mulheres a linhas de crédito, capacitação e redes de negócios.
O Conselho de Política de Cuidados completa o ecossistema, propondo políticas públicas que reconhecem o trabalho de cuidado — majoritariamente feminino e invisível — como pilar da economia municipal.
Em julho de 2025, a cidade realizou a 5ª Conferência Municipal de Políticas para as Mulheres, que elegeu delegadas da sociedade civil para representar Maricá em âmbito estadual e federal. A conferência abordou temas como enfrentamento à violência, autonomia econômica, saúde integral e participação política.
O desafio de um país que ainda não aprendeu
Apesar dos avanços locais, o cenário nacional segue preocupante.
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 revelou que os feminicídios cresceram mesmo com a queda de outros indicadores de violência. Em 2024, já haviam sido registrados 1.492 casos. Em 2025, o número subiu para 1.568.
A Lei 14.994/2024, sancionada em outubro de 2024, tornou o feminicídio um crime autônomo no Código Penal, com pena de 20 a 40 anos de reclusão. Mas a lei, por si só, não basta. A experiência de Maricá mostra que o enfrentamento exige uma articulação entre educação, Justiça, assistência social e desenvolvimento econômico.
"A procura tem sido boa. Conforme a gente vai mostrando para elas que têm acolhimento, que têm um local, que a gente pode cuidar delas, mais mulheres buscam por nós", disse Ingrid.
O recado de quem está na linha de frente
Maricá, cidade de aproximadamente 200 mil habitantes na Região dos Lagos fluminense, provou que políticas públicas bem desenhadas podem, sim, fazer diferença na vida das mulheres.
O modelo articula Estado, Judiciário e sociedade civil em uma teia de proteção que não espera a mulher chegar ao ponto extremo — age antes, durante e depois.
"O que a gente tem feito é mostrar que a mulher pode ocupar o lugar que ela quiser. Momentos como esse são essenciais para mostrar para toda a sociedade, inclusive para nós mulheres, isso", finalizou a secretária.
Bio: Ingred Bastos.
Ingrid Caldas Bastos é secretária de Políticas e Defesa dos Direitos das Mulheres de Maricá (RJ). Advogada, é vice-presidente da Comissão de Violência Doméstica da OAB-RJ e delegada do Instituto Brasileiro de Direito Penal e Econômico.
Membro do Projeto Justiceiras, construiu carreira na defesa dos direitos femininos antes de assumir o comando da secretaria municipal. Sob sua gestão, Maricá implementou programas como o Educar para Respeitar, o Grupo Reflexivo para Homens, a Casa da Mulher (CEAM Maricá), o Conselho de Empreendedorismo Feminino e uma plataforma digital de denúncias.
A secretaria também criou uma van itinerante para descentralizar o atendimento e campanhas de enfrentamento nos 115 ônibus da frota municipal. Ingred é defensora da abordagem integral no combate à violência de gênero, que combina prevenção, repressão, acolhimento e autonomia econômica das mulheres.
Seu trabalho em Maricá tem sido referência para outros municípios do estado do Rio de Janeiro. Nas redes sociais, é encontrada como @ingridcaldasbastos. A secretaria está no Instagram como @secdamulhermarica e a Casa da Mulher como @casadamulhermarica.

Por Robson Talber @robsontalber
Repórter Antonio Lemos @djportugues
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